A primeira sessão de terapia foi um misto de revelação e desafio para Ana e Lucas. O terapeuta os guiou por perguntas que os fizeram refletir sobre suas expectativas, suas ansiedades e o que cada um realmente queria daquele relacionamento.
Após a sessão, saíram juntos para uma caminhada pelo parque próximo ao Cantinho do Café. A noite estava fresca, e o som suave das folhas balançando ao vento parecia acompanhar o turbilhão de pensamentos que passava por suas mentes.
— Foi intenso. — Lucas disse, finalmente quebrando o silêncio. — Mas acho que foi necessário.
Ana assentiu, cruzando os braços como se quisesse se proteger de algo invisível.
— Sim, definitivamente. Me fez perceber que há muito mais em jogo do que eu imaginava. Às vezes, sinto que estou tentando segurar tudo ao mesmo tempo e, no final, tudo escapa pelos meus dedos. — Sua voz saiu mais baixa do que pretendia.
Lucas parou de andar e a olhou com atenção.
— Você sente que está sobrecarregada? Com o trabalho e tudo mais?
Ana hesitou por um momento antes de responder.
— Sim… Mas não é só isso. Eu sinto que estou dividida entre aquilo que sei que preciso fazer pela minha carreira e aquilo que quero para minha vida pessoal. — Ela soltou um suspiro e olhou para ele. — E você? Como se sente com tudo isso?
Lucas desviou o olhar para as luzes distantes da cidade.
— Eu sempre fui muito racional, sempre tomei decisões com base no que é melhor para os negócios, para a minha estabilidade. Mas agora, pela primeira vez em muito tempo, eu realmente não sei o que fazer. — Ele passou uma mão pelos cabelos, um gesto que Ana já reconhecia como um sinal de frustração. — Eu gosto de estar com você, Ana. E não quero que tudo o que estamos construindo se perca no meio dessas mudanças.
O coração de Ana acelerou com aquela confissão. Ela já sabia disso, mas ouvi-lo dizer em voz alta tornava tudo mais real, mais difícil de ignorar.
— E se tentarmos seguir com calma? — Ela sugeriu. — Sem pressa para decidir o que fazer. Sem pressionar um ao outro. Apenas… vivendo um dia de cada vez.
Lucas sorriu de leve, como se estivesse aliviado por ouvir aquilo.
— Gosto dessa ideia. Vamos fazer isso.
Eles retomaram a caminhada, e Ana sentiu uma sensação de tranquilidade que há tempos não sentia. Talvez não tivessem todas as respostas naquele momento, mas pelo menos sabiam que queriam enfrentar aquilo juntos.
***
Nos dias seguintes, Ana e Lucas continuaram se encontrando no Cantinho do Café, aproveitando cada momento juntos sem deixar que as preocupações os dominassem. Aos poucos, a tensão que pairava entre eles começou a se dissipar, dando lugar a conversas mais leves e momentos de descontração.
Certa tarde, enquanto estavam sentados na cafeteria, Clara se juntou a eles com seu habitual entusiasmo.
— Então, como está a vida dos pombinhos? — Ela perguntou, piscando para Ana com um sorriso brincalhão.
Ana revirou os olhos, mas sorriu.
— Clara, nós não somos… — Ela começou, mas Clara ergueu uma mão, interrompendo-a.
— Ah, por favor. Eu vejo a forma como vocês se olham. — Ela se virou para Lucas. — E então, empresário de sucesso, já decidiu se vai se mudar?
Lucas riu, acostumado com o jeito direto de Clara.
— Ainda estou decidindo. Mas estamos tentando não deixar isso nos consumir. Um dia de cada vez, certo? — Ele olhou para Ana, que assentiu com um sorriso.
Clara suspirou dramaticamente.
— Isso é tão bonito! Um casal que conversa e toma decisões juntos. Dá até esperança na humanidade.
— Clara, você é impossível. — Ana riu.
— Eu sei. — Clara piscou. — Mas falando sério, estou feliz por vocês. Apenas não deixem o medo do futuro estragar o que vocês têm agora.
Ana refletiu sobre as palavras da amiga enquanto Clara se afastava para pegar um café. Era exatamente isso que ela e Lucas estavam tentando evitar: deixar que o medo do incerto atrapalhasse o que tinham.
— Ela tem razão. — Lucas comentou, brincando com a borda de sua xícara. — Eu não quero que nossas preocupações roubem a alegria do que estamos vivendo agora.
Ana segurou sua mão sobre a mesa, um gesto pequeno, mas cheio de significado.
— Nem eu.
Lucas sorriu, apertando levemente a mão dela. Naquele momento, tudo parecia simples, tranquilo. E eles estavam dispostos a aproveitar isso pelo máximo de tempo que pudessem.
***
As semanas passaram, e Ana e Lucas foram ajustando suas rotinas para que pudessem passar mais tempo juntos. Ele ainda precisava viajar frequentemente, e ela tinha seus turnos no hospital, mas sempre encontravam um jeito de se encontrar, nem que fosse por um café rápido ou um passeio no parque.
Uma noite, enquanto caminhavam pelo centro da cidade após um jantar, Lucas parou de repente e olhou para Ana com uma expressão pensativa.
— O que foi? — Ela perguntou, curiosa.
Ele hesitou por um instante antes de falar.
— Eu percebi algo hoje. — Ele segurou a mão dela. — Sempre achei que minha felicidade estava em alcançar objetivos, em construir algo grandioso. Mas agora, percebo que a verdadeira felicidade está nos momentos pequenos, nos instantes como esse, com você.
O coração de Ana se aqueceu com aquelas palavras.
— Eu também sinto isso. — Ela apertou sua mão. — Acho que, no fim das contas, não importa onde estejamos, desde que estejamos juntos.
Lucas sorriu e a puxou para um abraço apertado.
Eles ainda não tinham todas as respostas, mas tinham um ao outro. E, por enquanto, isso era suficiente.
Lucas deslizou a mão sobre a mesa até tocar a de Ana. "Independentemente do que aconteça daqui para frente, quero que saibamos que sempre podemos voltar aqui, para esse ponto de partida." Ana sorriu e assentiu. "Sim. Um lembrete de que, apesar das mudanças, algumas coisas boas permanecem." Marcos trouxe os cafés, e eles brindaram em silêncio, compartilhando um olhar que dizia mais do que qualquer palavra poderia expressar. A jornada ainda era incerta, mas, naquele instante, a certeza da conexão entre eles era suficiente para continuar.