Naquela noite, depois de se despedirem no café, Ana caminhou até seu apartamento sentindo-se mais leve. Pela primeira vez em muito tempo, sentia que tinha um rumo. Não que todas as respostas tivessem surgido de imediato, mas ao menos havia a certeza de que ela e Lucas estavam dispostos a tentar.
Ao chegar em casa, tirou os sapatos e se jogou no sofá, abraçando uma almofada enquanto olhava para o teto. Pensava no que tinham conversado na terapia e em como Lucas parecia mais aberto do que nunca. Ele sempre tivera uma barreira ao seu redor, um jeito de se proteger do mundo, mas ultimamente essa barreira parecia estar se desfazendo.
Seu celular vibrou ao seu lado. Pegou o aparelho e viu uma mensagem de Lucas:
Lucas: Chegou bem?
Ana sorriu antes de responder.
Ana: Sim. E você?
Lucas: Sim. Estava aqui pensando… Você acha que a gente realmente pode fazer isso dar certo?
Ela hesitou antes de responder, mas então escreveu o que sentia:
Ana: Eu acho que, se ambos quisermos, podemos. Mas vamos ter que aprender a ceder e equilibrar as coisas.
Houve uma pausa antes da resposta de Lucas.
Lucas: Então vamos tentar.
A mensagem era simples, mas carregava tanto significado que Ana sentiu o coração acelerar.
Nos dias seguintes, Ana e Lucas começaram a criar pequenas rotinas para se manterem próximos, mesmo com os desafios do trabalho e da possível mudança. Em meio a tudo isso, uma surpresa inesperada aconteceu: Ana recebeu um convite para participar de um evento do hospital em outra cidade. Seria uma conferência importante, onde médicos e enfermeiros compartilhariam experiências e aprendizados.
Quando contou a Lucas, ele ficou em silêncio por alguns instantes antes de responder:
— Parece uma oportunidade incrível para você.
Ana percebeu que havia algo nas entrelinhas da resposta dele.
— Você acha que isso pode complicar ainda mais as coisas entre nós?
Lucas soltou um suspiro.
— Eu só não quero que a distância se torne algo permanente. Sei que não posso esperar que sua vida pare por minha causa, mas, ao mesmo tempo, estou tentando entender como encaixamos tudo isso.
Ana pegou a mão dele e apertou levemente.
— Eu não vou a lugar nenhum, Lucas. Sei que estamos em um momento delicado, mas não significa que não podemos encontrar um jeito de fazer isso funcionar.
Lucas sorriu, um sorriso pequeno, mas sincero.
— Então, eu te apoio. Vá para essa conferência, aprenda tudo o que puder e me conte tudo quando voltar.
Aquela atitude mostrou a Ana que ele realmente estava tentando.
O dia da viagem chegou, e Ana partiu para a conferência com uma mistura de ansiedade e animação. Durante os dias em que ficou fora, trocou mensagens com Lucas, contando sobre tudo o que acontecia. Ele, por sua vez, respondia sempre com interesse, perguntando sobre os detalhes e fazendo questão de demonstrar que, mesmo de longe, continuava presente.
No último dia da conferência, enquanto Ana estava em um dos intervalos entre palestras, recebeu uma ligação inesperada. Era Lucas.
— Ei — ela atendeu, sorrindo. — Você nunca liga durante o dia.
— Eu sei — ele respondeu, a voz um pouco hesitante. — Mas eu queria ouvir sua voz.
Ana sentiu o coração disparar.
— Está tudo bem?
Lucas suspirou.
— Sim… Só estou com saudade.
Ela sorriu, sentindo o peito aquecer.
— Eu volto amanhã.
— Eu sei. Mas parece que já faz uma eternidade.
Ana mordeu o lábio, hesitando antes de perguntar:
— Você acha que sente minha falta porque estamos longe, ou porque finalmente percebeu o que quer?
Houve um breve silêncio do outro lado da linha, até que Lucas respondeu:
— Talvez um pouco dos dois.
Ana riu suavemente.
— Isso já é um bom começo.
Eles ficaram em silêncio por alguns segundos, apenas ouvindo a respiração um do outro. Lucas, então, murmurou:
— Estou ansioso para te ver.
— Eu também — Ana respondeu, sentindo um calor confortável tomar conta de seu peito.
Quando voltou para a cidade, Lucas estava esperando por ela no café.
Assim que Ana entrou, ele se levantou e caminhou até ela, envolvendo-a em um abraço firme e silencioso. O aroma do café ao redor, as luzes suaves do ambiente e o som das conversas pareciam desaparecer. Naquele momento, tudo o que importava era que estavam ali, juntos, prontos para tentar.
— Bem-vinda de volta — ele sussurrou.
Ana sorriu contra seu ombro.
— É bom estar de volta.
E, pela primeira vez, ela sentiu que talvez, só talvez, tudo realmente pudesse dar certo.
Lucas afastou-se ligeiramente, mas manteve as mãos nos braços de Ana, como se quisesse garantir que ela estava realmente ali. Seus olhos a estudaram por um instante, absorvendo cada detalhe, como se temesse que ela desaparecesse a qualquer momento. Ana sentiu o peso daquele olhar e sorriu suavemente, tentando transmitir a segurança que ele parecia precisar.
— Você está bem? — ele perguntou, sua voz baixa, quase hesitante.
— Sim — Ana respondeu com sinceridade. — Foi uma experiência incrível, mas eu senti falta disso.
Lucas arqueou uma sobrancelha.
— Disso?
Ana olhou ao redor, indicando o café, o ambiente acolhedor e, por fim, pousando o olhar nele.
— De você.
O sorriso que surgiu nos lábios de Lucas foi genuíno e aliviado, como se ele tivesse esperado por aquelas palavras mais do que gostaria de admitir.
Eles caminharam juntos até a mesa de sempre, e Marcos, como se já soubesse que aquele momento era especial, trouxe os cafés sem que precisassem pedir. Ana pegou sua xícara, mas antes de dar o primeiro gole, sentiu os dedos de Lucas tocarem levemente sua mão. Ela olhou para ele, e seu olhar carregava uma mistura de convicção e ternura.
— Eu pensei muito enquanto você estava fora — ele começou, sua voz firme, mas carregada de emoção. — E percebi que estou cansado de viver com medo.
Ana franziu o cenho, curiosa.
— Medo de quê?
Lucas respirou fundo antes de continuar.
— Medo de me entregar de verdade. Medo de que, se eu deixar isso acontecer, vou acabar me decepcionando. Mas acho que estou pronto para arriscar.
Ana sentiu seu coração acelerar, não de incerteza, mas de expectativa.
— E o que isso significa?
Lucas entrelaçou os dedos aos dela sobre a mesa, ignorando tudo ao redor.
— Significa que eu quero tentar, de verdade. Sem dúvidas, sem hesitação. Só eu e você.
Ana sorriu, sentindo uma onda de calor preencher seu peito.
— Então, acho que estamos finalmente na mesma página.
O olhar de Lucas brilhou de alívio, e ele levou a xícara aos lábios antes de acrescentar, com um sorriso de canto:
— Era só uma questão de tempo.