O escritório de Ethan Blackwood estava impecável, como sempre. Cada papel estava no lugar, cada caneta disposta com precisão cirúrgica. Era um espaço que refletia perfeitamente sua personalidade: controlado, frio e sem margem para caos.
Ou pelo menos, tinha sido assim até aquela manhã.
Agora, o carpete bege importado estava completamente encharcado de suco de laranja. Uma pilha de documentos importantes tinha marcas de pegadas infantis e chocolate derretido. E, no canto da sala, seu laptop ultramoderno estava mergulhado em um aquário.
Ethan Blackwood, um dos homens mais influentes do mercado financeiro, estava à beira de um colapso nervoso.
Por segundo quis saber se aquela coisa de paz era tudo mentira.
Max e Olivia, os responsáveis pelo desastre, estavam parados na frente dele com expressões absolutamente tranquilas.
— Acho que o peixe ficou feliz com a companhia.— Max comentou, observando as bolhas subindo do fundo do aquário.
— E olha pelo lado bom, tio. Pelo menos agora o carpete tem um cheiro mais agradável. — Olivia acrescentou, cruzando os braços.
Ethan respirou fundo, o maxilar travado.
Eles desafiaram ele.
Duas crianças.
Enquanto a cidade respirava o respeito com ele. Duas crianças acabavam com sua paz.
— Vocês dois…— Sua voz estava carregada de ameaça contida. — Onde está...
Mas antes que ele pudesse terminar a frase, a porta do escritório se abriu com um estrondo.
Alice entrou como uma tempestade, sem pedir permissão, sem bater, sem medo.Ela olhou para a cena e soltou um assobio baixo.
— Então era aqui que vocês estavam. Céus, não deviam ter feito isso! — Ela comentou, analisando o caos ao redor.
Então ela entendeu que o novo alvo depois da conversa com os dois, era o tio.
Aquilo iria ser problema.
Era dever dela cuidar para que aquilo não acontecesse.
As duas crianças não sabiam onde enfiaram a nova Babá.
Ethan virou-se para ela com a fúria de um executivo que não está acostumado a ser desafiado.
— Não devia estar cuidando deles, Alice?!
— Eu estou, mas não sei como eles fizeram isso tão rápido.
Max e Olivia riram baixinho, mas disfarçaram quando Ethan lançou um olhar fulminante.
Ele se virou para Alice e anunciou, como se estivesse decretando o fim de uma era:
— Quer saber, até ontem achava que seus métodos iriam resolver. Mas olha para isso? — Apontou para o Aquário. — Você está demitida.
Disse ele, com raiva e rispidez.
Então não seria pelas crianças que ela sairia. Mas pelo tio.
O silêncio tomou conta do ambiente. Max e Olivia arregalaram os olhos sem acreditar. Alice… arqueou uma sobrancelha.
— Demitida?— Ela repetiu, piscando algumas vezes, como se estivesse tentando processar a idiotice do bilionário.
— Sim. Você é a babá deles, e claramente falhou em mantê-los sob controle. Olhe para isso! Tenho uma reunião importante e meus papéis estão na poça de suco deles — Ethan apontou para o aquário, depois para os documentos destruídos. — Meu laptop está morto, Alice. Morto!
Ela olhou para o objeto submerso.
— Ah, talvez ele só precise de um tempo para refletir sobre a vida.
Ethan cerrou os punhos.
— Sem piadas. Pegue suas coisas e saia da minha casa. Agora.
Alice, em vez de se abalar, cruzou os braços e suspirou como se ele fosse uma criança birrenta.
— Bom, isso vai ser um problema, porque eu já assinei um contrato. Você pode gritar, espernear e até fazer beicinho, mas eu só saio daqui se Max e Olivia quiserem que eu vá, não é crianças?
Max e Olivia trocaram olhares. Então, ao mesmo tempo, deram um passo à frente e disseram:
— Ela fica.
Ethan endureceu.
Não entendeu como aquilo era possível.
Céus, o que ela havia feito com eles?
Não podia paz para ele também?
— Não foi uma pergunta. Além disso sou eu quem paga seu salário. Não eles.
Olivia revirou os olhos.
— E a gente também não está pedindo.
— É, tio Ethan. — Max deu um sorriso maroto. — Se a Alice for embora, vamos… fazer da sua vida um inferno de novo.
— Mais do que já fazem?— Ethan zombou, mas havia um leve tom de desespero na voz.
— Ah, você ainda não viu nada. — Olivia respondeu com um brilho m*****o nos olhos.
— Bom, parece que temos um impasse.
Ethan cerrou os dentes. Ele não era do tipo que aceitava ser contrariado, muito menos por uma babá atrevida e duas crianças que claramente haviam herdado o pior lado da família.
Mas ele não podia arriscar. Se Alice fosse embora, Max e Olivia fariam exatamente o que haviam prometido. E ele não tinha tempo nem paciência para lidar com rebeliões infantis.
Então, com um suspiro pesado, ele passou a mão pelo rosto e fechou os olhos, tentando não enlouquecer.
— Certo. — Ele finalmente disse, cada palavra saindo como se fosse veneno. — Você fica. Mas dessa vez são vocês dois que vão arrumar o que fizeram, entenderam? Ah, antes que me esqueça. Isso vai para anotação Alice, mais uma dessa comigo e você está fora.
— Sim, senhor - Apenas Max respondeu e Olivia o seguiu.
— Vamos pegar os panos e os produtos de limpeza!— Olivia anunciou, enquanto Max marchava atrás dela.
Ethan ergueu uma sobrancelhae se recostou na cadeira, ainda processando o que havia acabado de acontecer.
— Eles estão… aceitando um castigo?
Alice sorriu, satisfeita.
— Bom, tecnicamente, não é um castigo. Eu apenas informei a eles que se querem viver como agentes do caos, também precisam aprender a reparar o estrago que causam.
Ethan estreitou os olhos.
— E eles obedeceram? Assim, sem gritar, sem questionar, sem tentar me envenenar no café da manhã?
— Eu sei, é chocante. Ainda tenho medo de passar por baixo das portas — Alice brincou, sentando-se casualmente na cadeira de frente a mesa. — Mas, veja bem, Ethan… posso te chamar de Ethan? Ou prefere "Lorde Supremo das Planilhas" e "Executivo do Apocalipse"?
Ele suspirou exausto.
— Ethan está ótimo.
— Ótimo. — Alice bateu palmas e cruzou as pernas, analisando-o. — Você já parou para pensar por que essas crianças têm esse comportamento tão… anárquico?
— Porque são possuídas pelo espírito do caos? Falta do que fazer? Talvez minha irmã deixou eles caírem ao mesmo tempo.
— Não. — Alice riu. — Bom, talvez um pouco. Mas o ponto é que elas nunca tiveram estabilidade. O que me difere das outras sempre foi a minha leitura da situação, do problema e da solução.
Ethan se recostou na cadeira, analisando-a com mais atenção.
— E desde quando você virou especialista em psicologia infantil?
Alice ergueu um dedo.
— Desde que passei os últimos dias evitando ser assassinada por duas crianças de oito anos.
Ele bufou.
— Olivia e Max não são assassinos. São apenas… intensos.
— Intensos? Eles querem chamar sua atenção. Devem achar que você é mais legal irritado — Alice riu. — Ethan, eles colocaram seu laptop dentro de um aquário. Se isso não é um chamado por atenção, eu não sei o que é.
Ele passou a mão pelo rosto, claramente frustrado.
— A mãe deles deveria estar aqui.
Alice assentiu lentamente.
— Deveria. Mas não está. Está na Europa, atrás do quarto marido, sem se importar que os filhos dela ficaram aqui, sem opção, morando com um tio que só sabe se comunicar com cifras e relatórios. Eles não são seu negócios.
— Eu trabalho para dar a eles um futuro estável. Sem mim eles estariam em um colégio.
— E quantas vezes já explicou isso para eles? Resolveu? — Ethan abriu a boca para responder, mas fechou em seguida. Alice sorriu. — Exato. Você não fala com eles, não se envolve. Então, eles encontraram outra forma de chamar sua atenção.
Ele ficou em silêncio por um momento, processando o que ela dizia. Alice não queria admitir, mas ele parecia realmente afetado.
Mas, como um bom magnata do mercado financeiro, rapidamente recuperou a postura.
— Então, o que você sugere, já que aparentemente agora você é a especialista em educação infantil?
Alice sorriu triunfante.
— Eu já fiz um acordo com eles. Regras claras dos dois lados. Eu não sou uma ditadora, mas também não sou um capacho. Eles precisam me respeitar, e eu respeito o espaço deles.
— E isso está funcionando?
— Olhe ao redor. — Alice apontou para a porta. — Eles vão limpar o estrago que fizeram. Aposto que pra não te deixar com mais raiva e me mandar embora. Pra não deixá-lo mais irritado.
Ethan olhou para a cena. Pela primeira vez, ele percebeu que Alice realmente tinha ganhado o respeito das crianças.
E isso o incomodava.
Ele não podia ter o respeito também?
— Por que eles te escutam e não a mim? Vai ser assim agora? Vou ter que pedir pra intervir por mim para que minha vida não vire um inferno?
Alice sorriu de canto.
— Porque eu escuto eles. Faça isso ou tenta. Se quer eles perto e bem.
Ele a observou por alguns segundos. Pela primeira vez, não a via apenas como uma funcionária. Mas uma mulher sensata e profissional. Do tipo que ele poderia admirar.
Alice não era só irreverente e caótica.
Ela era inteligente, perspicaz… e perigosamente eficaz.
Ethan suspirou fundo e inclinou-se para frente, analisando Alice como se ela fosse um novo tipo de investimento de alto risco.
— Então você escuta eles.— Ele repetiu, o tom carregado de ceticismo. — E é por isso que eles te obedecem e pararam de perturbar você?
Alice arqueou uma sobrancelha.*
— Que conceito revolucionário, não? Conversar com crianças e tratá-las como seres humanos em desenvolvimento em vez de mini-terroristas incontroláveis. Eu deveria patentear essa ideia.
Ethan não riu.
— Eu converso com eles.
Alice abriu um sorriso cínico.
— Ah, claro. Com certeza. "Max, coma seu brócolis. Olivia, pare de jogar o controle remoto na cabeça do seu irmão." Você está realmente criando laços profundos com essas pérolas da comunicação. Sei que não é pai deles. Mas você é a figura mais próxima de família e pais que eles tem agora.
Ethan bufou, massageando as têmporas.
— Eu não tenho tempo para essas coisas.
— Claro que não.** — Alice balançou a cabeça com falsa compreensão. — Você está muito ocupado tentando impedir que a economia global entre em colapso. Esqueci que é um herói dos tempos modernos.
Ethan lançou-lhe um olhar severo, mas Alice apenas sorriu de volta, imune à sua expressão intimidadora.
Ele se recostou na cadeira e suspirou.
— Certo, gênio da pedagogia, se você é tão boa assim, como pretende garantir que eles parem de transformar minha casa em um cenário de guerra?
— Já garanti.
— Como?
— Eu fiz um pacto com eles.
Ethan franziu a testa.
— Um pacto?
— Sim. Eles concordaram em não transformar a mansão em um campo de batalha…— Alice fez uma pausa dramática antes de acrescentar: — Mas em troca, eles podem infernizar você.
O olhar de Ethan escureceu instantaneamente.
— O quê?
— Foi brincadeira…— Alice riu, levantado da cadeira. — Eu estabeleci limites. Nada que destrua seu trabalho ou que afete sua vida de forma irreversível. Pense nisso como um imposto pelo trauma emocional que você causou ao ignorar a existência deles.
Ethan olhou para ela, incrédulo.
— Então eu virei o novo alvo?
— Basicamente.
Ele respirou fundo, claramente se esforçando para não explodir.
— E por que, exatamente, eu deveria aceitar isso? Devia demiti-la.
Alice sorriu de lado, inclinando-se levemente para ele.
— Porque é melhor ser um alvo consciente do que um refém desesperado. E, vamos ser honestos, Ethan… você não é páreo para essas crianças sem a minha ajuda.
Ethan a analisou por alguns segundos.
Pela primeira vez, ele percebia que Alice não era só teimosa.
Ela era calculista, estratégica… e, de alguma forma, estava sempre um passo à frente.
— E se eu não concordar?— Ele perguntou, cruzando os braços.
Alice sorriu como um gato que tinha acabado de capturar um passarinho.
— Bom, nesse caso, eu espero que você tenha um ótimo seguro para os seus eletrônicos.