Primeira vitória

2022 Palavras
Relatório de Progresso Situação atual: Missão bem-sucedida. Resumo da operação: Max e Olivia Blackwood finalmente entenderam que não são mais os comandantes da casa. Eles começaram a me respeitar. Danos colaterais: Nenhum. Nada quebrado, ninguém gritando, nenhum acidente de última hora. Status da missão: Vitória total. Alice sorriu enquanto terminava de escrever o relatório sobre seus primeiros dias com os gêmeos. Os pequenos tiranos finalmente haviam entendido a mensagem. Ela não caia fácil. Ela fechou o caderno com um suspiro de satisfação e olhou pela janela, para o jardim perfeitamente cuidado onde as crianças estavam brincando. Era uma cena completamente diferente da que ela havia encontrado na manhã de sua chegada, onde os gêmeos estavam fazendo uma guerra e tudo o que ela conseguia ouvir era o som de uma guerra de poderosas e olhares meticulosos. Agora, havia algo no ar. Algo… calculado. Era estranho como o caos podia ser silencioso quando se sabia controlar o volume. Era o que os dois faziam no jardim. Eles só não sabiam que Alice já sabia disso. Olivia estava empoleirada em uma árvore, observando com um olhar calculista enquanto Max estava no chão, mexendo em um pedaço de madeira que servia de “plano estratégico”. O tipo de coisa que, antes, teria gerado uma bagunça generalizada. Agora, era tudo extremamente organizado. Como se tudo tivesse sido parte do plano deles o tempo inteiro. Alice não podia deixar de sorrir. Aquilo podia ser divertido. Alice andou até o jardim, parando apenas quando Max a viu de longe. Ele olhou para Olivia, então olhou de volta para Alice, como se estivesse fazendo uma análise rápida e rigorosa. Ele se levantou lentamente, deu um tapinha na madeira e se aproximou, seguindo uma linha de conduta tão impecável que Alice praticamente ouviu os sinos de vitória tocando na sua cabeça. — Eu… nós fizemos uma pausa. — Max falou, de maneira muito mais civilizada do que qualquer um esperaria. Alice ficou intrigada. — Uma pausa? Do que? — Ela perguntou, tentando conter o sorriso. Max fez um gesto amplo para a árvore onde Olivia estava. — Sim, estamos criando um plano de contingência para a nossa próxima operação. Olivia desceu da árvore com a agilidade de um gato, a expressão mais séria do que qualquer adulto que Alice conhecesse. Ela parecia uma mini empresária, com a mente sempre afiada, pronta para resolver qualquer problema. — Você tem mais alguma ideia para isso?— Olivia perguntou diretamente. Alice quase teve que se segurar para não cair na risada. Eles estavam falando sobre “operação” e “contingência” como se fossem uma organização criminosa em miniatura. A diferença era que, dessa vez, ela estava do lado deles. — Hmm, estou pensando em alguns ajustes. Talvez uma nova estratégia para evitar a repetição dos erros do passado. Max e Olivia se entreolharam, então concordaram com a cabeça, como se fosse um conselho de guerra. — Acho que podemos melhorar, sim.— Max disse, com um tom de voz sério, quase paternal. Alice ficou paralisada por um momento. Ela olhou para os gêmeos, que estavam ali, discutindo algo sério sobre como melhorar a execução dos planos. Ela pensou no quanto a situação tinha mudado desde que ela entrou na casa. Dois pirralhos travessos, que só queriam testar seus limites, agora estavam fazendo planejamento estratégico. Antes que eles pudesse terminar de escutá-lo, escutou o barulho do portão da entrada. Os três olharam. Ethan desceu do carro magestosamente. Ele estava ali, observando a cena. Ele não dizia uma palavra, mas seus olhos estavam fixos nela, com uma mistura de admiração e inquietação vendo os três parados no jardim. Quietos e juntos. Aquilo era paz? Alice se virou lentamente, e viu que Ethan estava analisando cada movimento, como se tentasse decifrar como tudo aquilo tinha acontecido. — O que estão fazendo? — Ethan perguntou, mais baixo do que o habitual. Abrindo um botão do terno e se aproximando. Alice fez um gesto vago, com as mãos e as crianças saíram correndo. — Nada de mais. Só precisei mostrar que quem tem o comando sou eu. Ethan olhou de Max a Olivia entrando em casa, então voltou os olhos para Alice. — Você não deveria estar tão… satisfeita com isso. Eles são apenas crianças. Eles podem estar enganando você. Acho que já vi isso antes. Alice deu uma risada curta. — E quem disse que isso significa que não posso vencê-los? Crianças precisam de limites, Ethan. E eu só mostrei para eles que existem regras e os planos dele não pegam em mim. Ethan ainda estava tentando entender a complexidade do que acontecia diante de seus olhos. Ele não gostava de admitir que Alice, com seu estilo irreverente e pouco ortodoxo, tinha encontrado uma maneira de dominar a situação sem usar força ou ameaças. Ele ainda só não sabia como. Bem que falaram que ela era boa naquilo. — Você tem muito mais jeito com eles do que pensava. Mesmo tendo uma língua afiada. Alice sorriu, mas foi um sorriso irônico e bem-humorado. — Bem, todo mundo tem suas habilidades secretas. Eu só precisei descobrir qual era a minha com você e seus sobrinhos. Ainda mantenho nossa conversa. São crianças. Ethan resmungou algo inaudível e se afastou, mas seus olhos ainda estavam nela. Alice soubera que ele não estava apenas impressionado, mas também desconcertado. Ela sabia que o equilíbrio de poder na casa tinha mudado, e ele m*l tinha começado a perceber. — Vou almoçar com eles. Se me der licença. Enquanto Ethan se afastava, Alice voltou a olhar para ele, dessa vez de costa. Ethan tinha uma b***a linda. Ela devia admitir. Era hora de uma pausa para ela. Ainda tinha metade do dia pra resolver com os gêmeos. Queria ver onde eles iriam com mais calma e prudência. ~~ Mais tarde, naquele dia depois de Ethan voltar para empresa. Os dois gêmeos se aproximaram de Alice e pediram uma reunião com ela. Surpresa, ela se colocou diante os dois. O sol estava começando a se pôr, tingindo o céu de tons alaranjados enquanto Alice e os gêmeos se acomodavam no jardim. Max e Olivia, agora mais calmos e focados em seus “planos”, começaram a soltar algo que Alice não esperava ouvir tão cedo: eles começaram a se abrir. Primeiro foi Max, com um suspiro exagerado, como se estivesse prestes a declarar um grande segredo do qual ninguém sabia: — Sabe… — Ele olhou para Alice com um brilho um pouco triste nos olhos, o que fez a babá levantar uma sobrancelha. — A gente tem que te contar uma coisa. Alice, com seu ar impassível, olhou para ele, mas não perdeu a oportunidade de brincar. — Se for sobre como você planeja invadir a casa do vizinho e construir uma base secreta para dominá-los, já ouvi antes. Pode contar outra. Max deu um risinho baixo, mas o sorriso desapareceu logo em seguida. Ele deu uma olhada rápida em Olivia, que parecia relutante, mas acenou com a cabeça, incentivando-o a continuar. — Não, é sério. A gente… sente falta da nossa mãe. — Max parecia hesitar, como se fosse a coisa mais difícil do mundo para ele admitir. Alice ficou em silêncio por um momento, absorvendo o que ele dizia. Era difícil imaginar o que passavam, considerando que ela mesma havia se afastado da família desde que era adolescente, mas de uma maneira bem diferente. A mãe deles, aparentemente mais interessada em trocar de maridos do que cuidar dos filhos, não era exatamente uma referência positiva. — Você sente falta dela? — Ela perguntou com sinceridade, sentindo um pequeno aperto no peito. Max deu um leve aceno de cabeça. — Aham. — Ele olhou para o chão, como se tivesse que engolir um pedaço amargo da verdade. — Não é que ela fosse uma mãe incrível, mas… às vezes eu só queria que ela estivesse aqui. Pensamos que tirar você daqui ou as outras trariam ela de volta. Olivia se aproximou, cruzando os braços. Ela estava com o olhar endurecido, mas era claro que ela também estava sentindo a ausência de alguém que deveria ser sua figura protetora. — Eu não sei porque ele fica com essa carinha de cachorro abandonado. Eu não ligo para a nossa mãe. — Ela disse, com um tom quase desdenhoso, mas a leve mudança na sua expressão dava a entender o contrário. — Mas morar aqui com o tio… não foi exatamente o que eu esperava. Ele é sério e só sabe falar e fazer negócios. Alice ergueu uma sobrancelha, não conseguindo deixar de sorrir. — Ah, claro. Porque viver em uma casa com piscina, servindo como apoio emocional de um bilionário que não quer mandá-los para um colégioe com uma babá maravilhosa não é o sonho de todas as crianças. Max e Olivia trocaram olhares e, apesar da tensão, houve um pequeno sorriso involuntário entre eles. Era um sorriso cúmplice, o tipo de sorriso que só aparece entre pessoas que estão, por alguma razão, se entendendo. — Bom, eu preferia mil vezes estar no colégio interno.— Olivia disse, tentando manter a postura, mas a brincadeira no tom de voz ainda era óbvia. Max fez um gesto exagerado de desespero. — Ah, claro! O lugar onde as pessoas falam "sim, senhor" o tempo inteiro, usam uniformes horríveis e têm disciplina militar. Sério, não quero nem saber. Alice não pôde evitar um risinho baixinho. — Entendi… Vocês preferiam estar num colégio interno, onde a diversão seria tão emocionante quanto um dia de aula de álgebra com um supervisor chato observando cada movimento. Olivia *lfez uma careta. — É, não é uma escolha das mais atraentes, não. Alice deu um pequeno suspiro, o que fez os dois se aquietarem, imaginando o que viria a seguir. Ela cruzou os braços e observou-os com um olhar pensativo. — Ok, ok. Vamos fazer um trato. — Ela falou, agora mais séria, mas sem perder a leveza no tom. — Vou ceder em algumas coisas. Tipo… vou tentar não fazer vocês se sentirem como se estivessem sendo tratados como criminosos em um campo de reeducação. Max deu um grande sorriso, claramente aliviado. Olivia, por outro lado, ainda parecia desconfiada, mas a expressão de quem estava atenta, mas sem demonstrar muito entusiasmo. — E o que você quer em troca? — Olivia perguntou com a mesma atitude de sempre, desafiadora, mas com uma pitada de curiosidade. Alice olhou diretamente para ela, quase com uma aura de ironia divertida. — Eu só quero que vocês me tratem com um mínimo de respeito, e que, de vez em quando, me deixem dormir por mais de 4 horas sem ser acordada por gritos ou pelo som de um sofá sendo quebrado. Max fez um gesto exagerado de juramento. — Fechado! Eu prometo que nunca mais vamos destruir o sofá do seu quarto. Além disso tio Ethan quase nos puniu. Olivia o olhou com uma expressão de quem sabia que a promessa seria quebrada logo, mas a ironia no olhar de ambos não passou despercebida. Alice fez um gesto teatral, erguendo o dedo, como se estivesse criando um contrato de paz internacional. — E eu… vou me comprometer a ser uma babá mais legal. Vou até tentar rir das piadas ruins de vocês. Max bateu palmas, visivelmente satisfeito com a conclusão. Olivia, no entanto, só fez uma careta, mas um sorriso curto, como um consentimento tácito, apareceu em seus lábios. — Acho que podemos viver com isso. — Ela disse, mas o tom não era mais desafiador. Era… algo mais suave. E, naquele momento, algo parecia ter mudado. O caminho da convivência estava finalmente sendo pavimentado. Os três estavam começando a se entender, de maneira descontraída e irônica, como se o respeito fosse algo que surgiria entre eles, mesmo com os altos e baixos. Alice observou os dois, sentindo uma leve sensação de apego. Não era amor, não ainda. Mas uma conexão. Algo entre o carinho pela situação e a diversão das ironias trocadas. Algo que, de certa forma, a aquecia. E isso, de alguma maneira, era a luz no fim do túnel.
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