Métodos de Alice

1237 Palavras
Relatório de Progresso Situação atual: Eu venci. Resumo da operação: Max e Olivia Blackwood não sabem, mas já estão no bolso da babá mais teimosa que esse palácio de mármore já viu. Danos colaterais: Um travesseiro destruído, três ovos quebrados (por mim, contra o chão, para efeito dramático), um Ethan Blackwood ainda mais insuportável do que antes. Status da missão: Controle quase adquirido. Alice sorriu para si mesma enquanto lia as anotações no caderno que começou a manter logo depois de perceber que aqueles gêmeos não eram crianças normais. Eram estrategistas. Pequenos magnatas do caos. E, se queriam guerra… iriam perdê-la. A chave para domar feras não era domá-las… era fingir que a jaula sempre foi delas.* Em três, ela já conhecia Max e Olivia melhor do que eles mesmos. Estava tão bravos com a situação que nem viam o que eles faziam. Max era o analista. Observador, meticuloso, cheio de planos mirabolantes que fracassavam apenas porque Olivia não conseguia seguir um roteiro. Olivia era explosiva. Impaciente, movida por impulso e sempre testando limites. Sua única lealdade era para com o caos absoluto e seu irmão. E foi assim que Alice descobriu sua carta na manga. — Vocês acham que são bons em pegadinhas? — Ela disse na manhã, com um olhar desafiador. Os gêmeos, sentados na mesa do café da manhã, pararam imediatamente. — Somos os melhores. — Olivia respondeu, cruzando os braços. Alice arqueou uma sobrancelha. — Mentira. Eu já vi crianças piores que vocês. Max piscou. Olivia franziu a testa. — Piores? Como assim? Alice pegou uma torrada, deu uma mordida e respondeu casualmente: — Simples. Se fossem mesmo tão bons, já teriam me feito desistir. Mas eu continuo aqui, tomando café, viva, sem um único arranhão. Parece que vocês não são tudo isso. A isca foi lançada. Os gêmeos se entreolharam, ofendidos no nível máximo. — Tá falando sério? — Max perguntou, desconfiado. Alice deu de ombros. — Querem provar que são mesmo os melhores? Então me mostrem algo que realmente me surpreenda. Algo que seja tão impressionante que eu precise admitir que perdi. Olivia arregalou os olhos. Max sorriu de canto. O jogo tinha virado. Agora, em vez de tentar expulsá-la, eles tentariam impressioná-la. E Alice era quase impossível de impressionar. ~~~~ Até o almoço, Max e Olivia já estavam planejando sua “prova de superioridade infantil” – o que, em resumo, significava que estavam ocupados tentando vencer um desafio imaginário que Alice inventou só para mantê-los sob controle. Ethan, que estava de passagem pela cozinha, observou os gêmeos sentados no chão, fazendo anotações frenéticas em um caderno. — O que vocês estão fazendo? — Ele perguntou, desconfiado. Max e Olivia se entreolharam antes de responderem em uníssono: — Nada. Ethan virou o olhar para Alice, que estava calmamente mexendo em um iogurte como se não tivesse nada a ver com aquilo. — O que você fez com eles? Alice sorriu, um sorriso cheio de segredos. — Magia. Ethan estreitou os olhos. — Eu deveria me preocupar? Alice tomou uma colherada do iogurte e o encarou com uma tranquilidade irritante. — Provavelmente. Ele não gostou da resposta. Mas também não pôde negar o óbvio: A casa estava silenciosa. Os gêmeos estavam ocupados. E pela primeira vez em muito tempo, Ethan Blackwood percebeu que alguém conseguiu fazer aqueles pequenos pesadelos funcionarem juntos para algo que não fosse destruição. O problema? Ele não sabia se gostava ou não dessa sensação. E Alice? Bem… Alice só estava começando. Ethan cruzou os braços, observando os gêmeos rabiscando freneticamente em um caderno. Não estavam gritando, brigando ou planejando algum desastre evidente. Não para ele. Aquilo o incomodava profundamente. — O que você fez com eles?— Ele repetiu, agora com um tom mais grave. Alice sorriu, saboreando a inquietação dele. — Controle mental. Uma pitada de bruxaria. Talvez um feitiço antigo que encontrei em um pergaminho medieval. Ethan bufou. — Não tenho tempo para suas piadas, senhorita Alice. Seja direta. Alice apoiou o cotovelo na bancada e girou levemente a colher no iogurte. — Ethan, querido, você não tem tempo para nada, essa é a questão. Ele franziu a testa. — Não mude de assunto. — Não estou mudando. Estou apenas apontando o óbvio. Eu disse a eles que eram ruins no que faziam. E agora estão tentando provar o contrário. Ethan arqueou a sobrancelha, visivelmente cético. — Então você basicamente manipulou duas crianças para ficarem quietas e produtivas?. Contra você mesma? Alice sorriu. — Exato. — Isso me parece… errado. Alice riu, um riso leve e insolente. — Ah, o bilionário do capitalismo selvagem agora tem dilemas morais? Que adorável. Isso vai me aproximar deles. Acredite em mim. Ethan apertou o maxilar. — Só acho que seu método não é exatamente pedagógico. Alice se inclinou, os olhos brilhando com diversão. — E eu acho que você não sabe absolutamente nada sobre seus próprios sobrinhos. Ele retesou os ombros. — Sei o suficiente. — Ah, claro. E é por isso que eles tentaram enfiar um rato na minha mala no segundo dia. Um plano brilhante, mas péssima execução. Ethan não conseguiu disfarçar um sorrisinho de canto, mas logo o reprimiu. — O ponto é: você está brincando com fogo. Eles vão acabar te virando contra você. Seria uma pena perder mais uma Babá. Alice ergueu a colher e apontou para ele. — E é aí que você se engana, senhor Blackwood. Eu não jogo para perder. Ethan a encarou por um instante, tentando decifrá-la. Mas Alice apenas deu uma piscadela e voltou ao seu iogurte. O problema? Ele não sabia se deveria estar preocupado… ou impressionado. Ethan Blackwood nunca foi de perder tempo analisando pessoas que não tinham uma função diretamente lucrativa na sua vida. Mas ali estava ele. Encostado na bancada da cozinha, observando Alice como se ela fosse um quebra-cabeça com peças trocadas de diferentes jogos. Ela não era o que esperava. Quando contratou uma babá, imaginou uma mulher discreta, submissa, vestindo roupas neutras e sempre pronta para acatar ordens sem discutir. Alguém invisível. Alice era qualquer coisa, menos invisível. Ela estava ali, sentada no balcão como se fosse a dona da casa, devorando um iogurte com um ar de triunfo estampado no rosto, usando uma camiseta larga com uma estampa ridícula de um gato astronauta e um short que não fazia absolutamente questão de ser formal. O cabelo bagunçado estava preso em um coque desleixado, com algumas mechas teimosas caindo sobre o rosto. Uma completa bagunça. E, no entanto, tinha controle absoluto sobre seus sobrinhos. Ethan não gostava disso. Ou talvez… gostasse demais. Ele franziu o cenho ao perceber que seus olhos estavam demorando tempo demais na curva das pernas cruzadas sobre o balcão. — Vai tirar uma foto ou só pretende continuar me encarando como se estivesse calculando meu valor de mercado? — Alice perguntou, sem nem precisar olhar para ele. Ethan cerrou os dentes. — Estou tentando entender como alguém tão desorganizada pode ter conseguido controlar Max e Olivia. Alice deu de ombros. — Talvez porque eu entenda crianças. — Ou porque seja tão infantil quanto elas. Ela sorriu. — O que só prova meu ponto. Você não faz ideia do que está fazendo, Ethan. E se não quer admitir isso para mim, pelo menos admita para si mesmo. Ele não respondeu. Porque, pela primeira vez desde que Alice apareceu naquela casa, Ethan Blackwood não tinha uma resposta inteligente para rebater.
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