Alice já tinha visto muita coisa na vida. Crianças que se jogavam no chão do mercado fingindo desmaio para ganhar doces. Bebês que cuspiam comida direto no olho de um adulto com a precisão de um atirador de elite. Um menino de cinco anos que conseguiu hackear o tablet da escola para jogar um jogo proibido.
Mas nunca, jamais, em toda a sua gloriosa carreira de domadora de pestinhas, ela tinha visto algo como Max e Olivia Blackwood.
Os dois estavam parados no meio da sala de estar como generais planejando uma guerra. O que, considerando a expressão fria e calculista de ambos, não era uma metáfora exagerada.
Max, de oito anos, segurava um tablet como se fosse um cetro. O menino tinha cabelos escuros meticulosamente penteados, olhos afiados como os do tio e uma postura de quem já entendia a arte de manipular adultos para conseguir o que queria.
Olivia, também de oito anos, mas claramente o cérebro da operação, estava de braços cruzados, observando Alice como se estivesse analisando a nova funcionária de um império maligno. O cabelo preto dela era impecável, o vestido sem um único amassado. Mas a verdadeira estrela era sua expressão: pura presunção misturada com um leve toque de “vou acabar com você”.
Alice sorriu. Aquilo ia ser divertido.
— Então, vocês devem ser Max e Olivia! — Ela abriu os braços teatralmente. — Eu sou Alice, sua nova babá. Espero que possamos nos entender antes de qualquer coisa.
Max trocou um olhar com Olivia. Olivia revirou os olhos.
Max apertou um botão no tablet.
A porta atrás de Alice se fechou sozinha com um clique metálico. Somente aí ela percebeu a presença alta e cheirosa do homem ao seu lado.
Antes que pudesse falar, a voz fina soou.
Dois adultos e duas crianças.
O clima era quase de uma guerra silenciosa.
— Primeiramente,— Olivia começou, com um tom perigosamente maduro para uma criança de oito anos, — nós não precisamos de Babá. Tio Ethan sabe.
Max olhou para Alice com um sorriso que não alcançava os olhos.
— Nós já expulsamos sete antes de você. Quanto tempo acha que vai durar?
— Olivia — Ethan interviu.
Alice sorriu ainda mais largo.
— Bom, considerando que minha última chefe era uma mulher com três filhos e um pitbull obcecado por meias… eu diria que posso ficar o tempo que quiser.
Olivia inclinou a cabeça, parecia não acreditar no que ouvia.
— Aqui não temos cachorro! — Max disse e Olivia pisou no pé dele. — Ei?!
— A senhorita Alice está aqui para trabalhar. Espero que estejam ciente que essa e minha última vez contratando alguém. Então os dois tratem de se comportar. Eu quero ajudar, mas vocês precisam me ajudar para isso.
Alice percebeu rapidamente que Max e Olivia não eram crianças normais.
Os dois se colocaram na frente do homem. Como dois soldados dele.
Eles tinham uma organização digna de um cartel, um nível de planejamento que faria qualquer CEO orgulhoso. Se Ethan Blackwood era um tubarão de Wall Street, aqueles dois eram pequenos tubarõezinhos em treinamento.
Um bipe começou a soar e Ethan se moveu.
— Eu cuido daqui.
— Deixei um manual com as normas da casa e do trabalho e rotina dos dois. Está na mesa no meu escritório. Espero que corra tudo bem, estarei no telefone caso tenha uma emergência ou urgência com eles.
— Eu cuido de tudo.
Quando o homem saiu, ela pode encarar os dois irmãos.
E como qualquer dupla de vilões mirins que se preze, eles já estavam pensando em como sabotar Alice.
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Mais tarde, naquele mesmo dia, quando Alice foi abrir a porta do carro para levar as crianças à escola, um barulho ensurdecedor de cornetas de estádio explodiu no ar. As caixas de som no carro só aumentaram o efeito do som alto.
Ela não gritou. Não saltou para trás. Apenas piscou lentamente.
Max e Olivia espiaram de dentro do carro, esperando uma reação.
Alice entrou no banco da frente como se nada tivesse acontecido.
— Isso é tudo, crianças? Pensei que ficariam na tentativa de me fazer beber suco com pimenta no almoço ou quando tentaram me pegar com aquela bexiga de farinha — perguntou. — Já vi um bebê de dois anos gritar mais alto.
Max e Olivia trocaram um olhar de frustração.
Ethan, que estava ao telefone no hall de entrada, gritou:
— MAS QUE DIABOS FOI ISSO?!
Olivia suspirou.
— Pelo menos assustamos o tio.
Os dois pestinhas olharam para fora e gritaram que estava tudo bem.
Alice percebeu que eles tinha, não respeito pelo tio, mas medo e receio. Isso dizia muito da situação de duas crianças.
E para primeiro dia, estava observando tudo.
— O que temos que fazer para você ir embora?
— Podem começar colocando o cinto. Pelo manual do seu tio, vocês tem que estar na escola em trinta minutos. Vocês ainda não sabem, mas sou péssima no trânsito. Ainda mais nessa Van feia.
Entrou na Van e puxou o cinto.
— Você tem uma licença?
— Vão ter que descobrir — Ela puxou o óculos e suspirou.
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À noite, quando Alice abriu a porta do seu quarto na área dos funcionários, uma explosão de glitter caiu do teto. Ela deu um passo para o lado e riu.
Ela parou, olhou para seu chão coberto de brilho e assentiu.
— Clássico.
Virou-se e encontrou Max e Olivia esperando no corredor.
— Agora você vai pedir demissão?— Max perguntou, esperançoso.
Alice cruzou os braços.
— Por causa de glitter? Querido, eu já tirei fezes de bebê do cabelo sem chorar. Glitter não é nada.
Olivia franziu a testa.
— Esse foi importado da Itália.
Alice arqueou uma sobrancelha. Alice colocou a mão na cintura.
Nem mesmo de noite eles davam uma pausa?
— E vocês pagaram como?
Os gêmeos não responderam e sairam correndo.
Alice sorriu. "Ah, esses dois eram realmente um problema."
Naquela noite, Alice foi até a biblioteca da casa para deixar o manual das crianças e encontrou Ethan Blackwood no telefone, visivelmente irritado.
Até pensou em não entrar, mas parou quando os olhos do homem pegaram a presença dela e com um gesto pediu um minuto.
— Você disse que ficaria três semanas na Europa! Já se passaram três meses! — Alice parou. Dava pra ver a raiva na voz dele e algo maior, como uma decepção. — ...Não, Julia, eu não estou julgando suas decisões. Apenas dizendo que talvez… talvez… — Ele respirou fundo, como se tentasse compreender a pessoa do outro lado da linha. — O QUARTO marido não fosse uma prioridade agora, mas a p***a dos seus filhos. Você é mãe!
Alice levantou uma sobrancelha.
Ethan Blackwood, o homem que nunca demonstrava emoção, parecia… exausto.
Ele desligou o telefone e olhou para Alice.
— Quer uma água?
— Não, não! Era minha irmã. — Disse apenas.
Alice já havia entendido tudo.
Julia Blackwood, a mãe ausente, estava ocupada procurando amor pela quarta vez enquanto os filhos dela tocavam o terror em casa com o tio.
Sem avós ou família próxima. Parecia fazer sentido. Não para Alice.
Ela cruzou os braços.
— Então, quando foi a última vez que as crianças falaram com ela?
Ethan hesitou.
E Alice percebeu que a resposta era: faz tempo demais.
Ela suspirou.
— Boa sorte, chefe. Porque aqueles dois são pequenos gênios do crime. Aqui está o manual. Já anotei ele no meu caderno. Tenho tudo que preciso.
Ethan passou a mão pelo rosto.
— Você sobreviveu ao primeiro dia. Isso já é um progresso.
Alice riu.
— E eu adoro desafios.
Max e Olivia achavam que podiam derrotá-la?
Eles não tinham ideia com quem estavam lidando.
— Então posso contar com você?
— Estarei aqui amanhã.