O DIA EM QUE EU QUASE FUI EMBORA

1031 Palavras
Eu não acordei pensando em ir embora. Na verdade, acordei pensando em café. O sol entrava pela fresta da cortina do quarto que, tecnicamente, também era meu agora, mas que ainda parecia emprestado. O apartamento de Rafael tinha essa característica estranha: tudo era impecável demais para parecer vivido. Bonito demais para ser lar. E silencioso demais para alguém que dividia o espaço comigo. Levantei devagar, tentando não acordar pensamentos que eu vinha evitando há dias. Andei até a cozinha descalça, sentindo o chão frio sob os pés, como se ele me lembrasse, em cada passo, que aquele lugar não era totalmente meu. Enquanto a cafeteira esquentava, meu celular vibrou sobre a bancada. Um e-mail. Nada que deveria mudar o rumo do meu dia. Mas mudou. “Gostaríamos de convidá-la para assumir a coordenação do projeto em nossa unidade fora da capital…” Li uma vez. Depois outra. E mais uma. Era uma proposta profissional. Real. Concreta. Daquelas que não aparecem duas vezes. Um reconhecimento pelo trabalho que eu vinha desenvolvendo havia anos, muitas vezes sem aplausos, sem visibilidade, sem patrocínio algum. Fora da cidade. Meu estômago se contraiu. A xícara de café ficou esquecida entre minhas mãos enquanto eu lia cada detalhe. Novo desafio. Mais autonomia. Um projeto maior, com impacto real. Algo que tinha tudo a ver comigo — comigo antes de Rafael, antes do contrato, antes de toda aquela nova vida que eu ainda não sabia se queria chamar de minha. O problema não era a proposta. Era o que ela acordava dentro de mim. O medo antigo. A sensação de que, se eu não tivesse cuidado, poderia desaparecer de novo dentro da vida de outra pessoa. Fechei os olhos por um instante, respirando fundo. Quando Rafael apareceu na cozinha, ajustando o relógio no pulso e falando algo sobre uma reunião cedo, eu ainda estava parada, como se o corpo não tivesse acompanhado a avalanche que se formava dentro da minha cabeça. — Bom dia — ele disse, a voz baixa, tranquila. — Bom dia. Ele percebeu. Sempre percebia. — Aconteceu alguma coisa? Levantei o celular, sem saber exatamente por quê. Talvez porque esconder não combinava mais comigo. Talvez porque eu estivesse cansada de engolir decisões sozinha. — Recebi um convite — falei. — Profissional. Ele não reagiu de imediato. Apenas encostou na bancada, cruzando os braços, atento. Não havia cobrança no olhar. Nem curiosidade invasiva. Só presença. — Fora da cidade — completei. Rafael assentiu lentamente. — Parece importante. — É — respondi. — Muito. O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi pesado. Como se os dois soubéssemos que aquela conversa ia além de trabalho. Ia além de logística. Ia direto para um lugar sensível demais para fingir indiferença. — Você quer ir? — ele perguntou. A pergunta era simples. A resposta, não. — Eu não sei — admiti. — E isso é o que mais me assusta. Ele se aproximou um pouco mais, mas manteve a distância respeitosa que vinha praticando desde que decidimos… não decidir nada. — Seja qual for sua escolha, Helena, ela precisa ser sua — disse. — Não minha. Não do contrato. Não da situação em que estamos. Aquilo me pegou desprevenida. Eu estava acostumada a homens que tentavam convencer. Que argumentavam. Que prometiam. Ou que simplesmente decidiam por mim. Rafael não fez nada disso. — Você não vai tentar me fazer ficar? — perguntei, quase num sussurro. Ele respirou fundo antes de responder. — Não. Porque eu sei exatamente como é perder a si mesmo tentando se encaixar na vida de alguém. Engoli em seco. Era estranho como ele conseguia dizer as coisas certas sem transformar aquilo em um pedido. Ou em uma armadilha emocional. Passei o dia inteiro com aquela proposta martelando na cabeça. No projeto social, nas conversas com as crianças, nos relatórios que eu m*l consegui revisar. Tudo parecia girar em torno da mesma pergunta: quem eu seria se fosse embora? E, talvez mais importante… quem eu seria se ficasse? À noite, voltei para o apartamento com a sensação de estar carregando uma decisão grande demais dentro do peito. Rafael já estava lá. Tinha tirado o paletó, arregaçado as mangas da camisa, e parecia mais humano daquele jeito. — Jantou? — ele perguntou. — Ainda não. — Posso pedir algo? Assenti. Jantamos conversando sobre coisas simples. Nada de empresa. Nada de contrato. Nada de futuro. Era quase como se estivéssemos fingindo que aquela tensão não existia. Mas ela estava ali, sentada entre nós. Quando a mesa foi recolhida, eu soube que não podia mais adiar. — Eu tenho medo — falei de repente. Rafael levantou os olhos para mim. — De ir embora? Balancei a cabeça. — De ficar… e me perder. De novo. As palavras saíram mais frágeis do que eu gostaria. Mas também mais verdadeiras. — Eu lutei muito para ser quem eu sou — continuei. — E às vezes sinto que esse lugar, essa vida… pode me engolir se eu não estiver atenta. Ele se aproximou devagar, parando a uma distância segura. — Eu não quero ser o motivo de você deixar de ser quem é — disse. — Nem quero ser o motivo de você ir embora se isso não for o que deseja. — E se eu for embora? — perguntei. Rafael sustentou meu olhar. — Eu vou respeitar. Simples assim. Nenhuma promessa vazia. Nenhum drama exagerado. Nenhuma tentativa de controle. E, naquele momento, eu entendi: o medo não era ele. Era o que eu ainda não tinha resolvido dentro de mim. Naquela noite, deitada na cama grande demais para apenas uma pessoa acordada, eu pensei em todas as versões de mim que já tinham existido. A que aceitou menos do que merecia. A que ficou quando deveria ter ido. A que foi quando deveria ter ficado. Peguei o celular mais uma vez. Abri o e-mail. Reli a proposta. Não respondi com um sim. Não respondi com um não. Digitei apenas: “Obrigada pelo convite. Preciso de um tempo para considerar.” Enviei. Apaguei a tela. Respirei fundo. Naquele dia, eu quase fui embora. Mas, pela primeira vez, não fugi — escolhi pensar. E isso, por si só, já era uma mudança.
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