Algumas verdades não doem porque machucam.
Doem porque explicam.
Rafael esperou até que a casa estivesse em silêncio. As luzes baixas, a cidade distante do outro lado da janela, e nós dois sentados no sofá, próximos o suficiente para sentir o calor um do outro, mas sem tocar. Havia algo diferente no jeito como ele respirava. Um cuidado maior. Um peso que não cabia no peito.
— Eu preciso te contar uma coisa — ele disse.
Não era um pedido de atenção. Era um aviso.
Virei o corpo em sua direção. Esperei.
— Não é sobre a empresa — ele continuou. — É sobre mim. E… sobre por que minha família reage do jeito que reage.
Assenti. Meu coração desacelerou, como se soubesse que precisava ouvir sem interrupções.
— Eu cresci aprendendo que afeto era condicional — ele disse. — Você acerta, você permanece. Você falha, você é afastado.
A forma como ele falou a palavra afastado carregava memórias.
— Meu pai não era um homem c***l — Rafael continuou. — Mas era ausente mesmo estando presente. Tudo era desempenho. Resultado. Postura. Quando eu era criança, achava que amor vinha depois da aprovação.
Engoli em seco.
— Quando assumi a empresa, eu já estava treinado para não sentir — ele disse. — Para não precisar. Para não depender.
Ele passou a mão pelos cabelos, um gesto nervoso que eu já reconhecia.
— A primeira vez que eu me apaixonei de verdade… eu perdi tudo.
Meu corpo reagiu antes da mente. Inclinei-me um pouco mais.
— Ela trabalhava comigo — ele contou. — Inteligente, ambiciosa. Eu achei que poderia misturar as coisas sem consequências. Quando a relação terminou, virou munição. Conselho, imprensa, família. Usaram aquilo para me lembrar que sentimentos são fraquezas exploráveis.
O silêncio se estendeu entre nós.
— Desde então, eu prometi a mim mesmo que nunca mais permitiria que alguém tivesse poder emocional sobre mim — ele disse. — Até você.
A frase não soou romântica. Soou honesta.
— Eu não planejei me importar — ele continuou. — Nem planejei respeitar tanto o espaço de alguém. Mas você nunca tentou se encaixar no meu mundo. Você continuou sendo você. E isso… isso me desarmou.
Senti meus olhos arderem.
— Eu não quero que você pague o preço de escolhas que não foram suas — ele disse, finalmente me encarando. — Se você decidir ir embora… eu vou entender. Mesmo que doa.
Ali estava o medo.
Não o medo de me perder para outro homem.
Mas o medo de ser o motivo da minha perda de mim mesma.
— Rafael — falei, com cuidado. — Você sabe por que isso tudo me aproxima de você?
Ele negou com a cabeça.
— Porque você não está tentando me convencer a ficar — respondi. — Está me dando liberdade. E isso muda tudo.
Ele soltou o ar devagar, como se estivesse segurando havia anos.
— Eu tenho medo de repetir padrões — confessei. — De me moldar para caber. De desaparecer devagar. Mas também tenho medo de fugir sempre que algo se torna real.
Ele estendeu a mão. Não me puxou. Esperou.
Coloquei minha mão na dele.
— A diferença — continuei — é que agora eu sei quem eu sou. E sei que posso escolher sem me perder.
Os dedos dele se fecharam suavemente ao redor dos meus.
— Eu não preciso que você fique — ele disse. — Eu só quero que, se ficar, seja inteira.
Aquela frase foi um alívio.
Encostei a cabeça em seu ombro. Ficamos assim por alguns minutos, respirando juntos. Não havia urgência. Não havia promessa exagerada. Apenas presença.
— Você não é seu sobrenome — falei, baixo. — E eu não sou um risco calculável.
Ele sorriu, um sorriso pequeno, verdadeiro.
— Talvez seja por isso que isso assusta tanto — ele disse. — Porque não cabe em planilha nenhuma.
Rimos baixo.
Naquela noite, quando fomos para o quarto, não houve pressa. O toque veio com calma, com respeito, com a consciência clara de que i********e não é sobre posse. É sobre permissão.
Deitada ao lado dele, percebi que as verdades que mais nos aproximam não são as bonitas. São as que nos deixam expostos.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu não queria me proteger do que sentia.
Queria viver.