O PRAZO QUE MUDOU TUDO

751 Palavras
O e-mail chegou numa terça-feira comum demais para carregar um peso tão grande. Abri sem pensar. Li uma vez. Depois outra. Só então percebi que minhas mãos estavam frias. Prazo final: sete dias. Sete dias para decidir se eu ficaria ou partiria. Sete dias para escolher entre o que construí ali e o que poderia ser em outro lugar. Sete dias para provar, para mim mesma, que liberdade também exige coragem. Fechei o notebook e fiquei olhando para a janela do escritório do projeto. As vozes das crianças ecoavam no pátio, risadas misturadas com sonhos ainda m*l formulados. Tudo aquilo existia antes de Rafael. E continuaria existindo depois, com ou sem ele. Mas não era simples assim. Passei o dia em piloto automático. Reuniões, orientações, sorrisos automáticos. Por dentro, a pergunta girava sem parar: estou ficando porque quero ou porque tenho medo de ir? À noite, encontrei Rafael na cozinha, preparando algo improvisado para o jantar. A cena era tão comum que quase doeu. A i********e silenciosa, a forma como ele se movia no espaço como se também fosse meu. — Você está quieta — ele comentou. — Recebi resposta da proposta — falei. Ele parou. Não completamente. Apenas o suficiente para mostrar que tinha ouvido. — E…? — Tenho sete dias para decidir. Rafael assentiu. Não houve surpresa. Não houve drama. — E o que você está sentindo? — ele perguntou. Essa pergunta era típica dele. Não “o que você vai fazer?”, mas “o que você sente?”. — Confusão — respondi. — Medo de escolher errado. — Errado pra quem? — ele questionou, sem julgamento. — Pra mim — falei, depois de pensar um pouco. — Sempre pra mim. Ele se aproximou, encostou na bancada ao meu lado. Não tocou. Esperou. — Eu não quero ser o motivo de nenhuma escolha sua — ele disse. — Nem para ficar, nem para ir. — Eu sei — respondi. — E isso é o que mais complica. Sorri de canto. Ele retribuiu. Nos dias seguintes, a cidade pareceu me observar. Cada rua, cada esquina, cada lembrança recente ganhava um peso diferente, como se estivesse me perguntando se eu ainda pertencia ali. Conversei com amigos. Com colegas. Comigo mesma. Fiz listas mentais de prós e contras que nunca chegavam a conclusão alguma. Porque a verdade não cabia em tópicos. Na quinta-feira, visitei o lugar onde tudo começou: a pequena sala vazia que um dia virou projeto. Sentei no chão, encostada na parede descascada, e fechei os olhos. Eu lembrava da mulher que chegou ali pela primeira vez. Cheia de vontade, mas carregando um medo antigo de se repetir, de se perder em alguém, em algum lugar. Você cresceu, pensei. Mas crescer não tornava a decisão mais fácil. Na sexta-feira, Rafael precisou viajar para uma reunião fora da cidade. Foi estranho acordar sem ele, passar o dia sem sua presença silenciosa. Estranhamente… foi bom. Não porque senti alívio. Mas porque percebi que não havia dependência. À noite, sozinha no apartamento, abri o e-mail novamente. Li cada detalhe da proposta: cargo, estrutura, impacto social, visibilidade. Tudo o que eu sempre disse que queria. E, ainda assim, algo faltava. No sábado, Rafael voltou. Trouxe comigo um cansaço visível e uma delicadeza ainda maior. — Pensei em você o tempo todo — ele disse, simples. — Eu também — respondi. Sentamos no sofá, próximos, mas conscientes. Não falamos da decisão de imediato. Falamos de coisas pequenas. Do voo atrasado. Da reunião longa. Da comida r**m do hotel. Até que o silêncio pediu espaço. — Você não precisa me contar agora — ele disse. — Nem quando decidir, se não quiser. — Eu quero — respondi. — Mas preciso entender antes. — Entender o quê? — Se ficar é uma escolha de amor… ou de acomodação. Ele me encarou, sério. — Ficar pode ser amor — ele disse. — Mas só se não te diminuir. Assenti. Aquela resposta era tudo o que eu precisava ouvir. E, ao mesmo tempo, o que mais me assustava. Na última noite antes do prazo, dormi m*l. Sonhei com malas fechadas e portas abertas. Com despedidas sem lágrimas. Com futuros possíveis demais para escolher um só. Na manhã final, acordei decidida a não decidir por medo. Respirei fundo. Abri o e-mail. Comecei a digitar. Não apertei enviar. Fechei o notebook. Peguei a bolsa. Saí de casa. Eu precisava dizer minha decisão olhando para alguém. Não para uma tela. E, naquele momento, eu ainda não sabia qual seria.
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