Eu cheguei ao prédio da empresa antes do que havia planejado.
Não porque estivesse ansiosa para falar com Rafael, mas porque precisava ganhar tempo comigo mesma. O relógio ainda não marcava nove horas, e o saguão estava mais silencioso do que de costume. Pessoas circulavam com passos rápidos, pastas nas mãos, expressões concentradas. Aquele mundo sempre me pareceu distante, quase artificial. E, ainda assim, agora fazia parte da minha realidade de alguma forma.
Anunciei meu nome na recepção. Enquanto aguardava, observei meu reflexo no vidro espelhado do elevador. Eu parecia calma. Mas por dentro, tudo estava em movimento.
O elevador subiu rápido demais.
Quando as portas se abriram no andar executivo, algo estava diferente. Não havia o clima habitual de controle absoluto. Vozes baixas demais. Olhares desviados. Uma tensão invisível, mas presente.
— Helena — disse a assistente de Rafael, levantando-se rápido. — Ele está em reunião.
— Eu posso esperar — respondi.
Ela hesitou por um segundo.
— Talvez seja melhor.
Sentei no sofá próximo à sala envidraçada. Através do vidro, vi parte do conselho reunido. Camila estava lá. Outros nomes importantes também. Rafael permanecia em pé, mãos apoiadas na mesa, postura firme, mas o rosto sério denunciava cansaço.
Não consegui ouvir as palavras, mas reconheci o tom. Aquela não era uma reunião comum.
Meu celular vibrou na bolsa. Uma mensagem de número desconhecido.
“Helena, sou Laura, da instituição que te fez a proposta. Precisamos de uma resposta hoje. O conselho se reúne à tarde.”
Fechei os olhos por um instante.
Hoje tudo acontece, pensei.
A reunião terminou abruptamente. As portas se abriram. Os conselheiros saíram um a um, expressões fechadas. Camila passou por mim sem dizer nada, apenas um aceno quase imperceptível.
Rafael me viu imediatamente.
— Helena — ele disse, vindo na minha direção. — Você está bem?
— Estou — respondi. — E você?
Ele soltou o ar devagar.
— Depois eu te explico.
Entramos na sala dele. A porta se fechou atrás de nós, abafando o mundo exterior. Pela primeira vez desde que o conheci, Rafael parecia… vulnerável de um jeito diferente. Não emocional. Estratégico.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntei.
— O conselho quer mudanças — ele respondeu. — E não são pequenas.
Meu estômago se contraiu.
— Que tipo de mudanças?
Ele hesitou. Caminhou até a janela, ficou alguns segundos em silêncio antes de falar.
— Querem que eu me afaste temporariamente da presidência executiva — disse, finalmente.
O chão pareceu se mover sob meus pés.
— O quê?
— Nada oficial ainda — ele continuou. — Estão usando uma série de justificativas técnicas. Pressão externa. Imagem. Estabilidade.
— E você? — perguntei. — O que você quer?
Rafael se virou para mim.
— Eu quero enfrentar — disse. — Mas sei que isso pode afetar tudo ao redor.
Tudo ao redor.
Eu.
— Eles sabem sobre a proposta fora da cidade? — perguntei.
— Não — ele respondeu. — Mas desconfiam de qualquer coisa que pareça… mudança.
Sentei devagar. A ironia da situação era quase c***l. Eu estava prestes a decidir se ficava por escolha. E o mundo ao redor parecia querer me empurrar para fora.
— Helena — Rafael se aproximou. — Se você decidir ir agora, eu vou entender ainda mais.
— Não diga isso como se fosse um alívio — respondi, mais dura do que pretendia.
Ele sorriu de leve, cansado.
— Não é alívio. É cuidado.
Ficamos em silêncio. Eu pensava no e-mail aberto, na resposta não enviada, na mala que eu não tinha feito. Pensava no projeto, nas crianças, na cidade. Pensava nele, ali, enfrentando um conselho inteiro sem usar ninguém como escudo.
— Você não está me afastando — falei. — Eles estão tentando.
— Eu sei.
— E você não está usando isso para me pedir que fique — continuei.
— Nunca faria isso.
Essa era a diferença.
Levantei-me. Caminhei até a janela ao lado dele. A cidade parecia pequena lá de cima.
— Eu vim hoje para te dar uma resposta — falei.
Ele ficou tenso, mas não interrompeu.
— Mas antes disso, eu precisava ver se, diante da primeira crise real, você ainda seria quem tem sido comigo.
— E sou? — ele perguntou.
Olhei para ele.
— É.
Meu celular vibrou novamente. O mesmo número.
“Precisamos da confirmação agora.”
Respirei fundo.
— Eu ainda não sei o que vou responder — confessei. — Mas sei uma coisa.
— O quê?
— Eu não vou embora fugindo — falei. — Nem vou ficar por pena ou medo.
Ele assentiu.
— Seja qual for sua escolha… — ele começou.
— Vai ser minha — completei.
Saí do prédio com o coração acelerado, mas a mente surpreendentemente clara. Não havia resposta ainda. Mas havia algo novo: a certeza de que eu não precisava decidir sozinha, nem contra mim.
Antes de entrar no carro, olhei para o celular mais uma vez.
O cursor piscava na tela.
Esperando.