Eu sempre soube que amar um homem como Rafael Montez significava dividir espaço com o mundo inteiro.
O que eu não sabia…
era que o mundo faria questão de me lembrar disso tão cedo.
Saí do prédio do Grupo Montez com a sensação incômoda de estar voltando para um lugar que já não me pertencia e, ao mesmo tempo, nunca tinha deixado de ser meu. A conversa com Rafael ainda ecoava na minha mente. “Vou aprender a te conquistar.” Ele havia dito aquilo com uma convicção perigosa, daquelas que desmontam defesas construídas com esforço.
Passei o resto do dia tentando me convencer de que não significava nada. Homens como ele sabiam falar exatamente o que precisávamos ouvir. Mas Rafael não havia falado com charme. Havia falado com medo. E isso era novo.
No dia seguinte, acordei com o celular vibrando sem parar.
Mensagens. Notificações. Ligações perdidas.
Abri a primeira notícia ainda sonolenta — e despertei de vez.
“CEO do Grupo Montez reacende rumores de reconciliação com ex-esposa misteriosa.”
Meu estômago afundou.
A foto era da festa. Um ângulo desfavorável, tirado à distância, mas nítido o suficiente para mostrar Rafael inclinado em minha direção, sério, intenso. Íntimo demais para quem deveria ser passado.
Rolei a tela. Outro portal. Outra manchete. Outro comentário especulativo.
Ela voltou.
Ele nunca esqueceu.
O contrato virou amor?
Fechei o celular com força.
Três anos sendo invisível.
E bastou uma noite para me tornarem manchete.
O telefone tocou novamente. Rafael.
— Você viu — ele disse assim que atendi. Não era pergunta.
— Vi — respondi. — E imagino que isso seja só o começo.
— Eu sinto muito. Não era minha intenção expor você.
— Mas expôs.
Houve um silêncio breve.
— Eu vou resolver — garantiu. — A imprensa não vai se aproximar de você.
— Não é só sobre a imprensa, Rafael — falei, tentando controlar a irritação. — É sobre o que isso significa. Eu saí da sua vida para ter paz.
— E eu estou pedindo para você voltar sabendo exatamente o que isso envolve.
Aquilo me calou por alguns segundos.
— Você sempre foi honesto — admiti. — Frio, distante… mas honesto.
— E agora?
— Agora eu não sei se estou pronta para esse mundo de novo.
— Então deixe-me ir devagar — pediu. — Sem te puxar para o centro. Sem pressão.
Respirei fundo.
— Tudo bem. Devagar.
Desligamos. Mas o desconforto permaneceu.
No fim da tarde, precisei sair para resolver pendências simples. Ainda assim, senti os olhares. Não sabia se era paranoia ou reconhecimento. Pela primeira vez, entendi o peso real de ter sido esposa de um homem público.
Na manhã seguinte, encontrei Laura Ferraz novamente.
Ela estava no café do prédio onde eu havia ido entregar documentos de um novo projeto social que começava a coordenar. Elegante demais para um encontro casual. Confiante demais para ser coincidência.
— Helena — chamou, sorrindo. — Que bom te ver.
Sentei-me por educação.
— Não sabia que você frequentava esse lugar — comentou.
— Não frequento — respondi. — Hoje foi exceção.
— Engraçado. — Ela inclinou a cabeça. — Rafael também costuma aparecer aqui quando precisa pensar.
O recado era claro.
— Imagino que ele precise pensar bastante — respondi, calma.
Laura me observava como quem analisa uma peça rara.
— Você marcou a vida dele — disse. — Mesmo sem perceber.
— Eu percebi — corrigi. — Só não fui correspondida.
Ela sorriu, mas havia algo duro por trás.
— Homens como Rafael não sabem amar do jeito comum — disse. — Precisam de mulheres que entendam isso.
— Ou aprendam — rebati.
O silêncio que se seguiu foi denso.
— Tenha cuidado — aconselhou. — O que ele sente agora pode ser apenas a dificuldade de aceitar perdas.
Levantei-me.
— E o que você sente? — perguntei antes de sair. — Expectativa ou posse?
Laura não respondeu.
Saí com o coração acelerado, não de medo, mas de clareza. Pela primeira vez, eu não me sentia menor. Não me sentia substituível.
Naquela noite, Rafael apareceu no meu apartamento.
Sem aviso. Sem seguranças. Sem a armadura de CEO.
— Eu precisava te ver — disse assim que abri a porta.
Ele parecia cansado. Não fisicamente. Emocionalmente.
— Laura falou comigo — contei.
Ele suspirou.
— Ela não deveria.
— Ela acha que você está confuso.
— E você?
Pensei antes de responder.
— Eu acho que você está aprendendo a sentir algo que sempre evitou.
Ele entrou, caminhando devagar, como se aquele espaço fosse sagrado.
— Quando você foi embora — começou —, eu perdi mais do que uma esposa. Perdi o silêncio confortável. Perdi alguém que me enxergava quando ninguém mais via.
Meu coração apertou.
— Isso não é amor, Rafael. Pode ser culpa. Pode ser medo.
Ele parou diante de mim.
— Então me ensine a diferença.
O pedido me desarmou.
— Eu não posso ser sua lição — falei. — Eu também estou aprendendo.
Ele assentiu.
— Eu não quero te prender. Quero caminhar ao seu lado.
Aproximei-me um passo. Não havia toque. Só verdade.
— Então comece respeitando meus limites — pedi. — Inclusive os públicos.
— Feito.
Ele saiu naquela noite sem beijo, sem promessa exagerada. E, estranhamente, aquilo significou mais do que qualquer declaração.
Nos dias seguintes, Rafael manteve distância visível. Nenhuma aparição conjunta. Nenhuma foto. Nenhuma pressão. A mídia esfriou.
Mas algo mudou.
Ele começou a aparecer de outras formas.
Um livro que eu havia comentado anos antes.
Um café entregue pela manhã com um bilhete simples: “Sem contrato. Só cuidado.”
Uma mensagem perguntando como eu estava e esperando resposta.
E, aos poucos, fui percebendo: o homem que sempre controlou tudo estava aprendendo a esperar.
A confirmação veio na reunião beneficente do meu projeto social, semanas depois.
Eu falava ao público quando o vi entrar discretamente, sentar no fundo, sem chamar atenção. Rafael Montez assistia em silêncio enquanto eu explicava sonhos que nunca tive coragem de dividir antes.
Quando nossos olhares se cruzaram, ele sorriu. Orgulhoso. Não possessivo.
Laura estava lá também. Observando. Avaliando.
No fim do evento, ela se aproximou de mim.
— Agora eu entendo — disse, sem hostilidade. — Ele não te quer porque perdeu. Ele te quer porque te viu.
Assenti.
— Eu também precisei me ver primeiro — respondi.
Naquela noite, Rafael segurou minha mão pela primeira vez sem câmeras, sem obrigação.
— Eu tenho ciúme — confessou. — Mas não de perder você para outro. De perder você para o medo.
Sorri, emocionada.
— Então não me apresse — pedi. — Me acompanhe.
Ele entrelaçou nossos dedos com cuidado.
E, naquele instante, eu soube:
o ciúme não havia revelado posse…
mas verdade.