Existem feridas que não sangram mais, mas ainda doem quando tocadas.
Eu descobri isso no dia em que o passado decidiu voltar sem pedir licença.
Depois do evento beneficente, algo silencioso havia mudado entre mim e Rafael. Não era um acordo, nem uma promessa. Era um cuidado novo, quase frágil, que nos obrigava a caminhar com atenção. Ele não me puxava. Não me pressionava. Apenas estava ali — e isso, por si só, já era assustador.
Passei a me perguntar quando foi que a presença dele deixou de me ferir e começou a me desafiar.
Naquela manhã, eu organizava documentos no pequeno escritório do projeto social quando recebi a ligação do hospital. Minha mãe precisava retornar para exames de rotina. Nada grave, garantiram. Ainda assim, meu corpo reagiu com um medo antigo, enraizado.
Rafael insistiu em me acompanhar.
— Não como CEO — disse. — Como alguém que se importa.
Aceitei, mesmo com receio. O hospital sempre fora o ponto de origem de tudo. Onde o contrato nasceu. Onde minha vida tomou um rumo que nunca escolhi completamente.
Enquanto esperávamos no corredor, senti aquele aperto conhecido no peito. Rafael percebeu. Sempre percebeu mais do que demonstrava.
— Foi aqui que tudo começou, não foi? — perguntou, baixo.
Assenti.
— Foi aqui que eu aprendi que amor e necessidade podem se confundir.
Ele ficou em silêncio, respeitando o peso das palavras.
Quando minha mãe entrou para os exames, ficamos sozinhos. E foi então que o passado resolveu nos alcançar.
— Helena Duarte?
A voz era feminina, firme, profissional demais.
Virei-me devagar.
A mulher usava um tailleur escuro, postura segura, olhar avaliador. Demorei alguns segundos para reconhecê-la. Tempo suficiente para o estômago se revirar.
— Camila Montez — disse ela, estendendo a mão. — Irmã do Rafael.
O mundo pareceu perder o eixo por um instante.
Rafael congelou ao meu lado.
— Camila… — murmurou. — O que você está fazendo aqui?
— O mesmo que vocês — respondeu. — Resolvo coisas.
O aperto na mão dele foi quase imperceptível, mas eu senti. Pela primeira vez, vi Rafael não como CEO, nem como homem confiante. Vi como alguém diante de algo m*l resolvido.
— Precisamos conversar — Camila continuou. — Os três.
Não era um pedido.
Sentamos em uma sala reservada do hospital. O ambiente era claro demais para o peso que se instalou ali dentro.
— Fiquei sabendo do seu projeto social — disse Camila, olhando para mim. — Interessante. Combina com você.
— Imagino que não tenha sido por isso que nos chamou — respondi, cautelosa.
Ela sorriu de leve.
— Direta. Gosto disso. — Voltou-se para o irmão. — A imprensa voltou a falar dela, Rafael. E isso reabre questões que você preferiu enterrar.
Ele cruzou os braços.
— Minha vida pessoal não diz respeito à empresa.
— Sempre diz — rebateu. — Principalmente quando envolve o contrato que salvou a reputação da família há três anos.
Meu coração disparou.
— Que reputação? — perguntei.
Camila respirou fundo, como se decidisse quanto da verdade liberar.
— Nosso pai estava envolvido em um escândalo financeiro. Precisávamos de uma imagem sólida, familiar, confiável. Um CEO casado, estável, sem distrações. — Olhou diretamente para mim. — Você não foi escolhida por acaso.
O ar me faltou.
— Eu sabia que o casamento era estratégico — falei, com a voz trêmula. — Mas não sabia que era para encobrir algo.
Rafael se levantou abruptamente.
— Chega, Camila.
— Não — ela respondeu. — Chega de mentiras. Helena tem o direito de saber tudo.
Olhei para ele, sentindo algo se quebrar lentamente.
— Você sabia disso quando me fez a proposta? — perguntei.
O silêncio dele foi a resposta mais dolorosa que eu já recebi.
— Eu precisava proteger a empresa — disse, por fim. — E achei que estava te protegendo também.
Levantei-me, o coração batendo forte demais.
— Me protegendo ou me usando?
Ele não conseguiu responder.
Camila se levantou.
— O escândalo foi abafado. Nosso pai morreu sem condenação formal. A empresa sobreviveu. — Fez uma pausa. — Mas agora, com você de volta, tudo pode ressurgir. E eu não vou permitir que isso destrua o que reconstruímos.
— Está me ameaçando? — perguntei.
— Estou sendo realista.
Saí da sala antes que as lágrimas vencessem.
No estacionamento, o ar parecia pesado demais para respirar. Rafael veio atrás de mim.
— Helena, espera.
— Quantas verdades mais você decidiu esconder para meu próprio bem? — perguntei, sem olhar para ele.
— Eu errei — admitiu. — Mas nunca te vi como peça descartável.
— Mas me tratou como uma.
Ele deu um passo à frente, mas eu ergui a mão.
— Não se aproxime.
As lágrimas escorriam livres agora.
— Eu aceitei aquele contrato porque precisava salvar minha mãe — continuei. — Eu aceitei me apagar. Mas nunca aceitei ser enganada.
— Eu não sabia como consertar — disse ele, a voz quebrada. — E quando você foi embora… eu perdi a chance.
— Não — corrigi. — Você fez uma escolha.
Afastei-me sem esperar resposta.
Passei dias sem atender ligações. Rafael respeitou. Não insistiu. E isso doeu ainda mais.
Foi minha mãe quem trouxe a clareza que eu evitava.
— Você está sofrendo de novo — disse ela, com a serenidade de quem já viu a vida demais.
— Eu fui usada, mãe.
Ela segurou minha mão.
— Você foi necessária. E foi forte. Mas agora… você não precisa mais aceitar menos do que a verdade.
Naquela noite, recebi um envelope embaixo da porta.
Dentro, havia uma cópia do contrato. Rasgado em vários pedaços.
E um bilhete, escrito à mão.
“Eu não posso mudar o passado.
Mas posso assumir tudo o que fiz.
Amanhã, às dez, estarei em frente à imprensa.
Sem você. Sem contrato.
Só com a verdade.”
— Rafael
Meu coração acelerou.
No dia seguinte, todos os portais noticiaram a coletiva inesperada do CEO do Grupo Montez. Assisti pela televisão, mãos trêmulas.
Rafael apareceu sem roteiro. Sem advogados ao lado. Sem escudos.
Assumiu os erros do passado da empresa. Assumiu o casamento estratégico. Assumiu a própria covardia emocional.
— Helena Duarte não foi uma peça — disse, olhando direto para a câmera. — Foi a mulher mais honesta da minha vida. E eu falhei com ela.
Camila observava ao fundo, tensa.
— Se houver consequências, eu as enfrentarei — continuou. — Mas não construirei mais nada sobre mentiras.
Desliguei a TV com lágrimas nos olhos.
Naquele momento, percebi algo essencial:
ele estava pagando o preço.
sozinho.
sem me usar como escudo.
E talvez…
só talvez…
isso fosse o começo do perdão.