QUANDO O PASSADO COBRA SEU PREÇO

1105 Palavras
Existem feridas que não sangram mais, mas ainda doem quando tocadas. Eu descobri isso no dia em que o passado decidiu voltar sem pedir licença. Depois do evento beneficente, algo silencioso havia mudado entre mim e Rafael. Não era um acordo, nem uma promessa. Era um cuidado novo, quase frágil, que nos obrigava a caminhar com atenção. Ele não me puxava. Não me pressionava. Apenas estava ali — e isso, por si só, já era assustador. Passei a me perguntar quando foi que a presença dele deixou de me ferir e começou a me desafiar. Naquela manhã, eu organizava documentos no pequeno escritório do projeto social quando recebi a ligação do hospital. Minha mãe precisava retornar para exames de rotina. Nada grave, garantiram. Ainda assim, meu corpo reagiu com um medo antigo, enraizado. Rafael insistiu em me acompanhar. — Não como CEO — disse. — Como alguém que se importa. Aceitei, mesmo com receio. O hospital sempre fora o ponto de origem de tudo. Onde o contrato nasceu. Onde minha vida tomou um rumo que nunca escolhi completamente. Enquanto esperávamos no corredor, senti aquele aperto conhecido no peito. Rafael percebeu. Sempre percebeu mais do que demonstrava. — Foi aqui que tudo começou, não foi? — perguntou, baixo. Assenti. — Foi aqui que eu aprendi que amor e necessidade podem se confundir. Ele ficou em silêncio, respeitando o peso das palavras. Quando minha mãe entrou para os exames, ficamos sozinhos. E foi então que o passado resolveu nos alcançar. — Helena Duarte? A voz era feminina, firme, profissional demais. Virei-me devagar. A mulher usava um tailleur escuro, postura segura, olhar avaliador. Demorei alguns segundos para reconhecê-la. Tempo suficiente para o estômago se revirar. — Camila Montez — disse ela, estendendo a mão. — Irmã do Rafael. O mundo pareceu perder o eixo por um instante. Rafael congelou ao meu lado. — Camila… — murmurou. — O que você está fazendo aqui? — O mesmo que vocês — respondeu. — Resolvo coisas. O aperto na mão dele foi quase imperceptível, mas eu senti. Pela primeira vez, vi Rafael não como CEO, nem como homem confiante. Vi como alguém diante de algo m*l resolvido. — Precisamos conversar — Camila continuou. — Os três. Não era um pedido. Sentamos em uma sala reservada do hospital. O ambiente era claro demais para o peso que se instalou ali dentro. — Fiquei sabendo do seu projeto social — disse Camila, olhando para mim. — Interessante. Combina com você. — Imagino que não tenha sido por isso que nos chamou — respondi, cautelosa. Ela sorriu de leve. — Direta. Gosto disso. — Voltou-se para o irmão. — A imprensa voltou a falar dela, Rafael. E isso reabre questões que você preferiu enterrar. Ele cruzou os braços. — Minha vida pessoal não diz respeito à empresa. — Sempre diz — rebateu. — Principalmente quando envolve o contrato que salvou a reputação da família há três anos. Meu coração disparou. — Que reputação? — perguntei. Camila respirou fundo, como se decidisse quanto da verdade liberar. — Nosso pai estava envolvido em um escândalo financeiro. Precisávamos de uma imagem sólida, familiar, confiável. Um CEO casado, estável, sem distrações. — Olhou diretamente para mim. — Você não foi escolhida por acaso. O ar me faltou. — Eu sabia que o casamento era estratégico — falei, com a voz trêmula. — Mas não sabia que era para encobrir algo. Rafael se levantou abruptamente. — Chega, Camila. — Não — ela respondeu. — Chega de mentiras. Helena tem o direito de saber tudo. Olhei para ele, sentindo algo se quebrar lentamente. — Você sabia disso quando me fez a proposta? — perguntei. O silêncio dele foi a resposta mais dolorosa que eu já recebi. — Eu precisava proteger a empresa — disse, por fim. — E achei que estava te protegendo também. Levantei-me, o coração batendo forte demais. — Me protegendo ou me usando? Ele não conseguiu responder. Camila se levantou. — O escândalo foi abafado. Nosso pai morreu sem condenação formal. A empresa sobreviveu. — Fez uma pausa. — Mas agora, com você de volta, tudo pode ressurgir. E eu não vou permitir que isso destrua o que reconstruímos. — Está me ameaçando? — perguntei. — Estou sendo realista. Saí da sala antes que as lágrimas vencessem. No estacionamento, o ar parecia pesado demais para respirar. Rafael veio atrás de mim. — Helena, espera. — Quantas verdades mais você decidiu esconder para meu próprio bem? — perguntei, sem olhar para ele. — Eu errei — admitiu. — Mas nunca te vi como peça descartável. — Mas me tratou como uma. Ele deu um passo à frente, mas eu ergui a mão. — Não se aproxime. As lágrimas escorriam livres agora. — Eu aceitei aquele contrato porque precisava salvar minha mãe — continuei. — Eu aceitei me apagar. Mas nunca aceitei ser enganada. — Eu não sabia como consertar — disse ele, a voz quebrada. — E quando você foi embora… eu perdi a chance. — Não — corrigi. — Você fez uma escolha. Afastei-me sem esperar resposta. Passei dias sem atender ligações. Rafael respeitou. Não insistiu. E isso doeu ainda mais. Foi minha mãe quem trouxe a clareza que eu evitava. — Você está sofrendo de novo — disse ela, com a serenidade de quem já viu a vida demais. — Eu fui usada, mãe. Ela segurou minha mão. — Você foi necessária. E foi forte. Mas agora… você não precisa mais aceitar menos do que a verdade. Naquela noite, recebi um envelope embaixo da porta. Dentro, havia uma cópia do contrato. Rasgado em vários pedaços. E um bilhete, escrito à mão. “Eu não posso mudar o passado. Mas posso assumir tudo o que fiz. Amanhã, às dez, estarei em frente à imprensa. Sem você. Sem contrato. Só com a verdade.” — Rafael Meu coração acelerou. No dia seguinte, todos os portais noticiaram a coletiva inesperada do CEO do Grupo Montez. Assisti pela televisão, mãos trêmulas. Rafael apareceu sem roteiro. Sem advogados ao lado. Sem escudos. Assumiu os erros do passado da empresa. Assumiu o casamento estratégico. Assumiu a própria covardia emocional. — Helena Duarte não foi uma peça — disse, olhando direto para a câmera. — Foi a mulher mais honesta da minha vida. E eu falhei com ela. Camila observava ao fundo, tensa. — Se houver consequências, eu as enfrentarei — continuou. — Mas não construirei mais nada sobre mentiras. Desliguei a TV com lágrimas nos olhos. Naquele momento, percebi algo essencial: ele estava pagando o preço. sozinho. sem me usar como escudo. E talvez… só talvez… isso fosse o começo do perdão.
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