CIÚMES NÃO É POSSE

980 Palavras
O convite chegou numa manhã em que eu estava particularmente cansada. Não do corpo — esse eu conhecia bem —, mas da mente. Aquela exaustão silenciosa que vem de pensar demais, de pesar escolhas, de sustentar decisões que ainda não se materializaram por completo. O celular vibrou enquanto eu organizava alguns documentos do projeto, e eu quase ignorei. Quase. “Gostaríamos de convidá-la para participar do Fórum Nacional de Impacto Social…” Li devagar. Uma, duas, três vezes. O convite vinha acompanhado de uma proposta clara: eu apresentaria o trabalho desenvolvido no projeto, participaria de mesas de debate e, ao final, de um jantar institucional com investidores e representantes de grandes empresas. Meu nome vinha em destaque. Meu trabalho, reconhecido. Minha voz, solicitada. Senti um orgulho tímido, daqueles que a gente tenta conter para não parecer presunção, mas que insistem em crescer por dentro. À noite, contei a Rafael enquanto jantávamos. — Recebi um convite hoje — falei, casualmente, tentando observar sua reação sem parecer que observava. — Sim? — ele respondeu, atento. — Sobre o quê? Expliquei tudo. O fórum. A importância. O alcance. O jantar. Rafael ouviu em silêncio, cortando o alimento com calma. Quando terminei, ele assentiu. — Parece uma oportunidade excelente. Sorri. — Você acha? — Acho — respondeu. — E acho que você deveria ir. A resposta veio fácil demais. — Só isso? — perguntei, antes de conseguir me conter. Ele levantou os olhos para mim. — O que mais eu deveria achar? Respirei fundo. — O jantar é formal. Vai ter empresários. Gente influente. — E? — Um deles… — hesitei. — Um deles é Daniel Rocha. Ele também atua com projetos sociais. Já tentamos parceria antes. O nome não era desconhecido para Rafael. Vi isso no breve enrijecer de sua expressão. Nada exagerado. Nada explícito. Apenas um detalhe que eu talvez não percebesse se não estivesse tão atenta a ele. — Entendo — disse Rafael, após alguns segundos. O silêncio se estendeu por tempo suficiente para que eu sentisse o peso da pergunta não feita. — Isso te incomoda? — perguntei. Ele pousou os talheres, limpou as mãos no guardanapo com cuidado. — Incomoda — admitiu. — Mas não da forma que você está pensando. — Como, então? — Não me incomoda você ir. Nem conversar. Nem ser vista. Me incomoda perceber que eu não tenho controle sobre o que sinto. A honestidade me pegou desprevenida. — Você está com ciúme — falei, mais como constatação do que acusação. — Estou — ele confirmou. — Mas isso é um problema meu, não seu. Meu peito apertou de um jeito inesperado. Não era a primeira vez que alguém sentia ciúme de mim. Mas era a primeira vez que alguém assumia isso sem transformar o sentimento em cobrança. — Eu não quero ser sua posse — continuei, com cuidado. — Nem quero que você se sinta ameaçado por oportunidades que são minhas. — Eu sei — ele respondeu. — E é exatamente por isso que estou dizendo isso em voz alta. Para não deixar virar outra coisa. Aquilo era novo. Para nós dois. No dia do evento, escolhi um vestido simples, elegante, que me fazia sentir confortável e segura. Não pensei em Rafael enquanto me arrumava — e, ao mesmo tempo, pensei nele o tempo todo. Não como alguém que precisava de aprovação, mas como alguém que fazia parte da minha vida de um jeito silencioso e crescente. Rafael me desejou boa sorte antes de eu sair. — Se divirta — disse. — E seja você. Nada mais. O fórum foi intenso. Apresentei o projeto, respondi perguntas, participei de debates que me fizeram pensar em novas possibilidades. Senti-me no lugar certo. Não como convidada decorativa, mas como alguém que tinha algo real a dizer. Daniel Rocha se aproximou depois da minha apresentação. Educado. Inteligente. Interessado no trabalho, não em mim — pelo menos não naquele primeiro momento. — Seu projeto é impressionante — ele disse. — Gostaria de conversar melhor no jantar, se você se sentir à vontade. — Claro — respondi. O jantar foi formal, mas leve. Conversas fluíram, ideias surgiram. Daniel se mostrou interessado em uma possível parceria, falou de expansão, de novos núcleos, de investimento a longo prazo. Em outro contexto, talvez aquilo tivesse me empolgado de imediato. Mas, naquela noite, eu me percebi mais consciente. Mais atenta a mim mesma. Quando voltei para casa, já passava da meia-noite. Rafael estava acordado, sentado no sofá, lendo algo no tablet. Levantou os olhos quando entrei. — Como foi? — Bom — respondi. — Muito bom. Sentei-me ao seu lado, tirando os sapatos. — Você está bem? — perguntei. Ele assentiu. — Estou. Pensei em você o dia inteiro, mas não no sentido r**m. — Como assim? — Pensei em como você estava provavelmente ocupando um espaço que é seu por direito. E isso… isso me orgulha. Aquelas palavras me tocaram mais do que eu esperava. — Daniel falou em parceria — continuei. — Nada fechado. Só possibilidades. — E você? — Eu gostei da ideia — respondi. — Mas vou pensar com calma. Ele sorriu de leve. — Eu confio em você. Confiança. Era disso que se tratava. Naquela noite, quando nos aproximamos no sofá, o toque veio diferente. Não urgente. Não faminto. Era um toque consciente, carregado de escolha. Quando seus dedos encontraram os meus, não houve promessa. Só presença. E, pela primeira vez, entendi que ciúme não precisa ser prisão. Pode ser apenas sinal de que algo importa — desde que venha acompanhado de respeito. Antes de dormir, deitada ao lado dele, pensei em como as coisas estavam mudando sem que eu percebesse. Não havia contrato que previsse aquilo. Nenhuma cláusula sobre confiança, maturidade ou crescimento conjunto. Mas era exatamente ali que tudo começava a ficar perigoso. Porque eu não estava apenas me permitindo sentir. Eu estava começando a ficar.
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