O toque não voltou de uma vez.
Ele reaprendeu o caminho.
Percebi isso na manhã seguinte, quando acordei antes de Rafael e fiquei alguns minutos observando o teto do quarto, sentindo a presença dele ao meu lado sem encostar. Havia algo novo naquela distância mínima, quase imperceptível. Um respeito que não esfriava. Uma proximidade que não invadia.
Levantei devagar para não acordá-lo. Fui até a cozinha, preparei café, organizei a mente como pude. O dia prometia ser cheio, mas eu ainda estava presa à noite anterior, à forma como ele havia segurado minha mão no sofá — sem urgência, sem expectativa escondida.
Quando Rafael apareceu, ainda sonolento, vestindo uma camiseta simples e o cabelo levemente bagunçado, algo dentro de mim se aqueceu.
— Bom dia — ele disse, a voz rouca.
— Bom dia.
Ele se aproximou da bancada, pegou uma xícara, serviu café. Nossos movimentos se encaixavam com naturalidade, como se tivéssemos ensaiado aquilo por anos. Quando ele me entregou a xícara, seus dedos tocaram os meus por um segundo a mais do que o necessário.
Foi ali.
Não um arrepio exagerado.
Não um choque dramático.
Foi um reconhecimento silencioso.
— Dormiu bem? — ele perguntou.
— Dormi — respondi. — E você?
— Melhor do que eu esperava.
Sorri.
Não falamos sobre a noite. Nem sobre o quase. Nem sobre o que pairava entre nós como algo vivo. Saí para o projeto com a sensação estranha de estar levando comigo um segredo bom demais para dividir.
O dia correu rápido. Atividades, reuniões, conversas com os adolescentes sobre futuro, escolhas, limites. Falei mais do que ouvi, talvez porque eu mesma estivesse tentando entender o que estava sentindo.
À tarde, enquanto organizava materiais na sala administrativa, Rafael me ligou.
— Estou passando aí — ele disse. — Se não for atrapalhar.
— Não atrapalha — respondi, surpresa. — Aconteceu algo?
— Não — ele falou. — Só quero ver você.
A simplicidade da frase me desarmou.
Quando ele chegou, as crianças o reconheceram imediatamente. Não como o CEO, mas como o homem que sentava no fundo da sala e escutava. Ele cumprimentou todos, elogiou os murais, fez perguntas sinceras. Em nenhum momento tentou ocupar um espaço que não era dele.
Observá-lo ali mexeu comigo.
— Você mudou — falei, quando ficamos sozinhos por alguns minutos.
— Estou tentando — ele respondeu. — Ainda erro bastante.
— Eu sei.
Saímos juntos no fim da tarde. O sol já se escondia entre os prédios, e a cidade parecia menos dura naquele horário. Caminhamos sem pressa, lado a lado, conversando sobre coisas simples. Em um momento, ao atravessarmos a rua, Rafael segurou minha mão para me puxar para perto.
O gesto foi instintivo.
Mas ele não soltou.
Olhei para nossos dedos entrelaçados, depois para ele. Rafael me encarou, como se estivesse pedindo permissão sem palavras.
Eu não disse nada.
Apertei sua mão de volta.
O toque voltou ali.
Na rua.
À vista de todos.
E, ainda assim, foi íntimo.
No apartamento, o clima mudou. Não abruptamente. Não como uma tempestade. Foi como uma maré subindo devagar.
— Quer jantar fora? — ele perguntou.
— Não — respondi. — Quero ficar.
Pedimos algo simples. Comemos sentados no tapete da sala, rindo de pequenas coisas, compartilhando histórias que nunca tínhamos contado. Havia uma leveza nova, como se a tensão tivesse dado lugar a uma curiosidade mútua.
Em algum momento, a conversa cessou.
Não porque faltavam palavras, mas porque elas ficaram pequenas demais.
Rafael se aproximou primeiro. Não me puxou. Não me cercou. Apenas diminuiu a distância até que nossos joelhos se tocassem. Seu olhar não tinha pressa. Nem cálculo.
— Se eu estiver indo rápido demais… — ele começou.
— Você não está — interrompi.
A sinceridade saiu antes do medo.
Ele ergueu a mão, devagar, como se me desse a chance de recuar. Seus dedos tocaram meu rosto com cuidado, como quem aprende um território novo. Quando ele se inclinou, o beijo não veio faminto.
Veio inteiro.
Um beijo que perguntava.
Que escutava.
Que respeitava.
Minhas mãos encontraram seu pescoço, depois seus ombros. O mundo se reduziu àquele espaço entre nós, à respiração compartilhada, ao silêncio que dizia mais do que qualquer promessa.
Quando nos afastamos, nossas testas ainda estavam encostadas.
— Eu não quero que isso vire algo que você sinta que precisa corresponder — ele disse, baixo.
— Não é isso — respondi. — É algo que eu escolhi sentir.
As palavras ficaram ali, entre nós, como um acordo invisível.
Mais tarde, deitados lado a lado, sem pressa de dormir, percebi que o toque havia mudado não só a forma como nos aproximávamos, mas a forma como eu me sentia comigo mesma. Não havia medo de desaparecer. Não havia urgência de definir.
Havia presença.
Antes de fechar os olhos, pensei na proposta fora da cidade. No fórum. Nas possibilidades. Em Rafael ao meu lado, sem me segurar, sem me empurrar.
Talvez amar fosse isso.
Não perder o toque consigo mesma ao permitir o toque do outro.