Pré-visualização gratuita [CAPÍTULO 1] ROTINAS QUE ENGANAM
Lorenzo Bianchi caminhava pelos corredores do hospital preenchidos pelos sons dos monitores a que os seus pacientes estavam ligados. O cheiro a desinfetante misturava-se com o cheiro do café que Lorenzo tirava.
Era madrugada e ele já não sentia o peso das horas, ou talvez sentisse e o ignorasse.
- Doutor Bianchi – diz uma enfermeira de forma calma – O paciente da cama três está estável – diz-lhe ela a sorrir
Lorenzo apenas fez um leve movimento com a cabeça e continua o seu caminho pelos corredores. Ele era assim, não parava, era metódico, quase que mecânico.
Talvez fosse isso que o tornava tão bom profissional. Um médico direto, eficiente e indispensável naquele hospital de prestígio.
Para ele salvar vidas não era apenas o seu trabalho, era a sua identidade.
Ele tinha pouco tempo livre, como agora e vai até à sala de descanso onde ele vai muito pouco. Ele fecha os olhos por um segundo, e foi o suficiente para vir ao seu pensamento a sua família, Isabella e Sofia, a sua esposa e a sua filha.
Ele abre os olhos de imediato e olha para o seu relógio de pulso. Ele estava em falta com elas, ele já devia ter ligado, pois ele já devia ter ido para casa.
Mas havia sempre mais um paciente, mais um caso complicado, mais uma vida para salvar.
Ele no fundo acreditava, mesmo sem o dizer, que Isabella entenderia, como sempre.
Na casa Vitale, a luz da manhã entrava pelas grandes janelas, iluminando os tons dourados das madeiras, e em todos os objetos elegantes que eles tinham em cada uma das divisões. Naquela casa respirava-se elegância, luxo, sofisticação, aliado a um bom gosto acima da média.
Isabella estava na cozinha, tranquila como sempre a preparar o pequeno-almoço.
- Mamã! – diz Sofia no corredor com a sua voz alegre e mesmo antes de se virar, Isabella sorri.
Sofia entrava na cozinha a correr, cabelos desalinhados de quem tinha acabado de acordar, e como os olhos brilhantes de como se cada dia fosse uma nova aventura.
- Bom dia, meu amor – responde Isabella, ajoelhando-se para a abraçar e a segurar ao colo
- O papá já chegou? – pergunta Sofia com naturalidade, mas aquilo caiu como um peso no peito de Isabella, mas ainda assim ela sorriu
- Ainda não, ele deve ter tido uma noite muito longa no hospital – responde Isabella e a filha faz uma careta de desagrado
- Ele disse que hoje vinha tomar o pequeno-almoço connosco – diz Sofia cruzando os pequenos braços em cima do peito e Isabella passa as mãos pelos cabelos da filha com carinho
- E vai tentar vir – diz Isabella pensativa – Às vezes o trabalho dele demora mais – responde ela
Sofia assentiu com a cabeça, aceitando a explicação da mãe com a facilidade.
É o bom de ela ser uma criança, elas acreditam em tudo com mais facilidade.
Isabella serve o pequeno-almoço à filha, mas ela estava pensativa.
A ausência do marido era muito constante, e começava a ser muito constante, demasiado constante.
Lorenzo sai do hospital, o sol já ia bem alto. Os olhos dele piscam, ajustando-se à luz do dia.
O telemóvel dele vibra no bolso. Eram mensagens, chamadas perdidas, todas da mesma pessoa, Isabella, a sua esposa.
Ele olha para o ecrã e observa-o, como que aquilo exigisse mais energia que uma cirurgia. Lorenzo suspira.
Ele liga a Isabella, e o telefone dela chama um, duas, três vezes, e ela atende por fim.
- Lorenzo – ela diz do outro lado da linha, de forma calma, mas não era leve como era habitual
- Desculpa – diz ele imediatamente – Tive uma noite muito complicada – diz ele e Isabella fica em silêncio
- Foi o que eu imaginei – responde ela de forma curta, mas carregada – Mas está tudo bem? – pergunta ela no final, como sempre, era ela sempre que perguntava primeiro.
Lorenzo passa a mão pelo rosto cansado.
- Sim, estou apenas cansado – responde ele de forma direta
- A Sofia perguntou por ti – diz Isabella e Lorenzo fecha os olhos por um instante e respira fundo.
- Eu prometi estar aí – diz ele sabendo que a filha devia estar desiludida, mais uma vez, ele não cumpriu
- Ainda podes vir – responde Isabella de forma suave – Ainda estamos na mesa – conclui ela.
Lorenzo olhou para o carro no parque de estacionamento, e, depois para trás, para o edifício do hospital. Ele hesitou.
- Eu tenho mais cirurgias daqui a pouco – responde ele
Isabella fica em silêncio, mais uma vez, de forma prolongada.
- Claro – diz ela após um silêncio pesado com uma calma pouco natural – Nós entendemos – diz ela – Pelo menos eu entendo - reformula ela e Lorenzo sentiu algo a apertar dentro do peito, mas ele empurra essa sensação para longe
- Eu compenso – responde ele de forma automática – Logo jantamos juntos – diz ele, mas Isabella ficou em silêncio
- Está bem – responde ela por fim, mas não de forma imediata como era habitual e num tom que não era o que ele estava acostumado.
Sofia estava sentada à mesa, mexendo no leite de forma distraída.
- O papá vem? – pergunta ela e Isabella tem de forçar o sorriso
- Hoje não, meu amor – diz Isabella e Sofia baixa o olhar para a mesa
- Ele nunca vem – diz Sofia num tom baixo, inocente, mas que carregava uma verdade que Isabella se recusava a admitir e ela senta-se ao lado da filha.