Pré-visualização gratuita Capítulo 1 - Jogando com a sombra
Lily
O gosto metálico do sangue na minha boca era a única certeza que eu tinha naquela escuridão.
O ar saía queimando dos meus pulmões a cada respiração desajeitada que eu dava. A poeira do galpão abandonado dançava lentamente sob a luz fraca do luar que cortava as frestas do telhado. Minhas mãos, calejadas por anos de treino na Ordem e por empurrar a cadeira de rodas de Jorge no final de sua vida tremiam levemente, mas não de medo, e sim pelo esforço de manter o cabo da minha espada firme.
À minha frente, passos lentos e calculados ecoavam contra o concreto frio.
_ Você ainda luta bem, minha querida Lily… _ A voz dele ressoou, grave, abafada pelo couro n***o da máscara que cobria completamente o seu rosto. _ Mas raiva cega não substitui a precisão. Você está me atacando como um bicho encurralado, não como a mercenária que foi treinada para ser a melhor.
_ Cale a boca! _ Rosnei, cuspindo o sangue do lábio cortado.
A dor no meu corpo não se comparava ao vazio no meu peito. Eu tinha perdido tudo. Jorge estava morto, vítima do maior vilão que assola o mundo inteiro, sem que eu pudesse sequer tentar salva-lo. Eu fui fraca, entreguei meu coração a um homem que já havia entregue o dele a outra mulher, que teve o mesmo destino, e agora estava despedaçada. E como punição por minha fraqueza, a Ordem me cobrava e me entregava como um troféu para aquele monstro. O Homem Sem Rosto. O pesadelo que reivindicou minha vida antes mesmo que eu pudesse chorar o luto pelo homem que amei.
Ele deu mais um passo em minha direção. Ele não usava armas visíveis, apenas luvas táticas e uma postura impecável, de quem sabia que dominava cada centímetro daquele ambiente. Ele me observava pelas aberturas escuras da máscara. A sensação de ter o olhar dele sobre mim não era nova, eu a sentia há anos, como um fantasma na minha nuca, mas só agora entendia a gravidade daquela obsessão que eu jurei que passaria com o tempo, mas não aconteceu.
_ Você acha que este casamento é uma prisão… _ Disse ele, parando a menos de três metros. _ Mas eu sou a única coisa entre você e a morte, minha amada. A Ordem queria sua cabeça, e eu lutei para me tornar líder, deixei você ir e exigi somente o seu corpo e seu coração.
_ Eu prefiro morrer a pertencer a você! Nunca terá meu coração, porque ele foi enterrado junto com o único homem que eu amei! _ Cuspi as palavras, ajustando minha postura de combate.
_ Minta para si mesma o quanto quiser.
Aquele foi o estopim.
Avancei com toda a velocidade que me restava. Fingi um golpe direto no peito dele com a espada. Como esperado, ele ergueu o antebraço esquerdo para bloquear, calculando o movimento com a frieza de sempre. Mas era exatamente isso que eu queria.
No último milésimo de segundo, torci o corpo, deslizando por baixo do braço dele. A lâmina da minha segunda faca, que mantinha escondida na manga direita, rasgou a lateral da jaqueta dele. Não esperando por um ataque duplo, ele perdeu o equilíbrio por uma fração de segundo.
Foi o suficiente.
Girei atrás dele, prendendo seu pescoço com o braço esquerdo enquanto cravava a ponta da faca exatamente na junção entre o pescoço e a mandíbula dele, sob a borda da máscara. Pressionei o aço frio contra a pele quente dele, o bastante para tirar uma gota de sangue.
Nossos corpos ficaram colados. Eu podia sentir o peito dele subindo e descendo contra minhas costas, o calor sufocante que emanava daquele homem.
_ Renda-se! _ Murmurei em seu ouvido, ofegante, sentindo uma onda avassaladora de vitória. _ Um movimento errado e eu r***o sua carótida. Você perdeu, maridinho!
Ficamos em silêncio por dois segundos eternos. Consegui… Eu tinha derrubado a lenda inatingível do que fazia muitos homens tremerem. Eu tinha o controle. Finalmente, eu arrancaria aquela máscara e descobriria quem era o homem que me persegue há anos, que me vigia.
Minha mão livre subiu devagar, tocando a borda inferior da máscara de couro.
E então, o mundo girou.
Não houve hesitação. Não houve dor. Com uma velocidade assustadora que desafiava até a física, ele não tentou afastar a faca. Ele simplesmente segurou meu punho com uma força esmagadora, torcendo-o para fora. O estalo do meu pulso fez a faca cair no chão com um baque metálico.
Antes que eu pudesse gritar, ele girou o corpo, prendeu meus dois braços atrás das minhas costas com apenas uma das mãos e me prensou violentamente contra a parede de concreto mais próxima.
O impacto tirou todo o ar dos meus pulmões.
Senti o peso do corpo dele esmagando o meu contra a parede fria. Mas o verdadeiro choque não foi a dor física.
Foi quando ele se inclinou, colando a boca mascarada ao lado do meu ouvido, e sussurrou algo que fez meu sangue gelar na mesma hora.
_ Você realmente achou que me pegou de surpresa, Lily? _ Ele soltou uma risada baixa, sombria e terrivelmente íntima. _ Eu deixei você chegar tão perto só para sentir a sua respiração no meu pescoço. E para ver se você ainda usava o perfume de jasmin que eu deixei na sua janela... na noite em que o moribundo daquele Jorge morreu.
Meus olhos se arregalaram.
Na noite em que Jorge morreu…
Então… ele realmente viu tudo? Até mesmo a situação em que Jorge se encontrava no fim de sua vida? Ele tinha visto tudo? E a surpresa final ainda estava por vir, pois antes que eu pudesse absorver o golpe mental, ouvi o estalo frio de metal contra metal.
Com um pequeno clique, um par de algemas pesadas prendeu meu punho direito ao dele.
Ele se afastou ligeiramente, apenas o suficiente para que eu visse o reflexo dos meus próprios olhos apavorados na superfície lisa de sua máscara.
_ Agora, minha tão esperada esposa … _ Ele murmurou, acariciando meu rosto com os dedos enluvados. _ … o nosso casamento começa de verdade.
Eu sei, eu havia prometido, havia pedido que ficasse com Jorge pelo menos até que ele partisse, mas eu não pretendia cumprir a promessa… pelo menos, não dessa forma.
A morte seria muito bem vinda, mas um casamento com esse homem? Jamais.