— O LIMITE QUEBRADO

1809 Palavras
POV – Isabela Eu não fui para a biblioteca por causa dele. Eu repeti isso para mim mesma enquanto atravessava o campus com o vento frio batendo no rosto e a mochila pesando no ombro como se carregasse mais do que livros. Fui porque precisava estudar. Microeconomia. Prova marcada. Conteúdo acumulado. Uma matéria objetiva, fria — uma que não me olhava de volta. Em casa, o silêncio tinha ficado grande demais. A mesa vazia, a luz fraca, as lembranças sempre prontas para me puxar pelo tornozelo quando eu diminuía o passo. Eu precisava de um lugar onde a minha mente tivesse algo concreto para morder. E mesmo assim… enquanto eu caminhava, meu corpo ainda lembrava. O olhar do professor Arthur Valente. O modo como a voz dele preenchia a sala. A forma como, por segundos demais, ele parecia esquecer que existiam regras. Eu odiava isso. Porque eu tinha voltado para cumprir uma promessa. Minha mãe não me deixou muitas coisas além de força. E a última conversa com ela tinha virado uma espécie de juramento que eu carregava no osso. Então não fica. Eu não podia ficar presa numa memória. Mas eu também não podia fingir que um homem como Arthur Valente não tinha tocado algum lugar sensível dentro de mim — um lugar que eu jurava estar morto desde Lucas Moretti. Esse nome surgiu na minha cabeça como um reflexo amargo. O ex. A traição. O vídeo. A vergonha. Eu respirei fundo e empurrei a porta da biblioteca antes que o passado tentasse me convencer a voltar. Lá dentro, o ar era mais quente. Cheiro de papel velho, café barato, desinfetante. Luz baixa. O tipo de silêncio que costuma ser confortável. Naquela noite, parecia atento. Escolhi uma mesa no fundo, perto de uma área menos movimentada. Espalhei folhas, livro, caneta. Comecei a sublinhar como se minha vida dependesse disso. E, por uma hora… funcionou. Eu li. Anotei. Refiz contas. Rabisquei margens. A lógica das curvas de demanda e oferta era quase terapêutica — as coisas tinham motivo, causa, efeito. Um mundo onde alguém erra e aprende, e pronto. Mas o meu mundo nunca foi assim. Meu olhar escapou para o relógio. Dez e pouco. O campus lá fora já devia estar quase vazio. A biblioteca, também. Eu ouvi cadeiras sendo arrastadas ao longe, um sussurro de gente indo embora, a porta automática abrindo e fechando. Tentei voltar ao texto. Não consegui. Não porque eu estava cansada. Porque eu senti aquela presença — como se fosse uma intuição, uma certeza sem prova — rondando minha pele desde o momento em que eu decidi sair de casa. Fechei o livro com cuidado. Guardei tudo devagar, como se adiar a saída pudesse adiar o inevitável. Quando coloquei a mochila no ombro e caminhei pelo corredor lateral da biblioteca, as lâmpadas eram poucas e espaçadas. O tipo de iluminação que cria sombras onde não deveria haver segredos. Meus passos ecoavam baixo. E então eu senti. Antes de ouvir. Antes de ver. Senti ele. Parei. Meu corpo inteiro respondeu, quente e rígido ao mesmo tempo, como se reconhecesse perigo — e, pior, como se reconhecesse vontade. Virei devagar. Arthur Valente estava no fim do corredor. Não parado como alguém que passou ali por acaso. Parado como alguém que esperou. O paletó estava aberto, a camisa um pouco amassada, como se ele tivesse tentado manter o dia sob controle e o dia tivesse rido na cara dele. Os olhos… os olhos não eram frios agora. Eram escuros. E aquilo me gelou — e me incendiou. — Senhorita Duarte — ele disse. A forma como ele falou meu sobrenome não era protocolo. Era contenção. Eu não sorri. Não fiz charme. Respondi como se estivesse pisando em vidro: — Professor Valente. Ele deu um passo. Depois outro. E, a cada passo, eu percebia com clareza desconfortável que ele não estava vindo para me repreender. Nem para me ignorar. Ele estava vindo porque tinha perdido uma guerra interna. — Está tarde — ele disse, parando perto o bastante para eu sentir o calor dele. — A biblioteca já vai fechar. — Eu sei. — Veio estudar. — Microeconomia — respondi, como se o nome da matéria pudesse me proteger. — Não tem nada a ver com você. Arthur soltou um riso sem humor. — Ótimo. O silêncio pesou entre nós. Eu podia simplesmente ir embora. Passar por ele. Fingir que nada tinha acontecido desde a primeira aula. Mas meu corpo não se movia. E o dele também não. — Você não deveria estar aqui — eu disse, quase como acusação. — Eu sei. — Então por quê? Ele olhou para minha boca por um segundo — não como sedução, e sim como alguém observando uma linha prestes a ser cruzada. — Porque eu não consegui parar de pensar em você desde ontem. A verdade veio crua. Instintiva. Quase raivosa. Meu peito apertou. — Isso não é saudável — eu murmurei. — Não. — Ele concordou, a voz baixa. — E não é seguro. Eu engoli seco. — Você quer que eu vá embora? Ele demorou tempo demais para responder. Quando respondeu, foi como se se odiasse por isso: — Eu quero que você faça o que deveria. — E o que eu deveria? Arthur respirou fundo. Como se estivesse escolhendo palavras para não se destruir. — Ir embora. Agora. Eu fiquei. E o silêncio virou prova. — Você me manda ir embora… mas ficou esperando no corredor — eu disse. Os olhos dele estreitaram, como se eu tivesse acertado um nervo. — Não brinque comigo, Isabela. — Não é brincadeira. — Dei um passo à frente, e o corpo dele respondeu de um jeito imediato demais. — Eu só estou cansada de homens que dizem uma coisa e fazem outra. A sombra de Lucas Moretti atravessou minha mente por um segundo. Arthur pareceu perceber a mudança no meu rosto. Não entendeu o motivo, mas sentiu. — Eu não sou ele — disse, sem saber exatamente do que estava falando. Meu estômago revirou. — Não. Você não é. E foi isso que me assustou. Porque eu não estava diante de um homem irresponsável. Eu estava diante de um homem que sabia exatamente o peso de cruzar um limite… e mesmo assim estava à beira de cruzar. Ficamos tão perto que o ar entre nós parecia quente demais. Meu peito subia e descia rápido. Ele olhou para a minha boca, mas desviou no último segundo, como se beijar fosse ultrapassar uma linha que ele ainda tentava segurar. Mas o resto… O resto ele não segurou. Quando minha mão tocou o braço dele, senti o corpo inteiro dele endurecer — não de recusa. De pura, violenta contenção. Ele fechou os olhos, como se meu toque fosse um perigo que ele desejava demais. — Isabela… isso é errado. — Então para. Ele não parou. A mão dele veio para minha cintura — firme. Muito firme. Forte o suficiente para roubar meu ar, mas não o bastante para me afastar. Era força que eu queria. Força que eu convidei. E então ele me puxou de uma vez. Meu corpo colou no dele — no calor, na firmeza, no volume dele contra mim, pressionando, deixando claro o que ele tentava esconder. Eu prendi a respiração, sentindo o volume dele pulsar contra meu quadril, firme, duro, desesperado — como se o corpo dele estivesse traindo toda a racionalidade. Ele segurou minha nuca, meus cabelos entre os dedos, puxando de leve, não com carinho — com fome. — Não vai me beijar — eu sussurrei, provocando. — Não posso — ele murmurou, a voz rasgada. — Então faz… outra coisa. Foi como liberar um animal que estava preso dentro dele. A pressão nas minhas ancas aumentou. Ele me virou contra a parede com uma força que não machucava, mas deixava claro que ele estava perdendo o controle. E eu queria que ele perdesse. Meu corpo arqueou quando ele pressionou o quadril contra o meu — de novo, mais forte, como se estivesse descontando dias, meses, anos de frustração. O volume dele pressionou entre minhas coxas, numa linha de movimento que me fez arfar alto demais. Tão alto que ele prendeu minha cintura com mais força, como se estivesse me segurando para não fazer algo pior. — Não faz ideia do que está causando — ele rosnou no meu ouvido. — Estou percebendo — respondi, sentindo o corpo dele contra o meu, duro, quente, urgente. Ele deslizou as mãos pela minha cintura, descendo, subindo, apertando com intensidade suficiente para deixar marcas no dia seguinte. Marcas que eu queria. Eu senti a respiração dele bater no meu pescoço antes do toque — e quando ele encostou ali, não foi gentil. Foi brutal. Eu arfei. Ele prendeu meu quadril com as duas mãos e me puxou contra o corpo dele, fazendo meu corpo encaixar no dele como se ele estivesse me tomando ali mesmo, sem tirar nada, sem pedir nada. A cada movimento dele contra mim — com o volume firme, ereto, pulsando — meu corpo reagia sem pudor. Eu gemia baixo, apertando os dedos na camisa dele, puxando, arranhando, convidando. Ele estava violento de desejo. E eu estava sedenta por isso. Arthur empurrou o corpo contra o meu novamente — mais forte, mais rápido, como se estivesse descontando raiva, culpa, atração acumulada, tudo em mim. E cada choque do quadril dele contra o meu era uma promessa não cumprida, um ato interrompido, uma urgência que não tinha onde ir. A mão dele segurou minha coxa — alto — levantando-a, abrindo um espaço entre nossos corpos que ele preencheu imediatamente com o volume dele, pressionando onde eu mais queria e mais precisava. Meu corpo respondeu tão forte que ele soltou um gemido baixo — rouco, frustrado, quase dolorido. — Isso não deveria estar acontecendo — ele disse contra minha boca, sem beijar. — Então por que está? — respondi, arfando. — Porque eu quero demais — ele admitiu, como se fosse pecado. — Então me mostra. Ele pressionou meu corpo contra a parede, o quadril dele empurrando o meu num ritmo tenso, bruto, desesperado — enquanto eu segurava nos ombros dele para não afundar com a intensidade. Foi quente. Proibido. Cruel. Delicioso. Quando ele finalmente chegou no seu limite, gemendo tão alto - se afastou um centímetro, estava ofegante, a mão tremendo ao sair da minha coxa. Eu estava trêmula dos pés à alma. — Isso não vai acontecer de novo — ele disse, tentando respirar. — Vai sim — respondi, sem sombra de dúvida. Ele me olhou como se eu fosse sua ruína. E sua única salvação. — Boa noite, Isabela — murmurou, ainda sem ar. E foi embora. Eu fiquei encostada na parede, sentindo o eco do corpo dele no meu, sabendo que aquele homem acabou de cruzar um limite que nunca mais vai conseguir apagar.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR