— Ecos do que não dorme

871 Palavras
POV – Isabela A casa estava escura quando cheguei. Não silenciosa — escura. Como se a ausência de luz deixasse tudo mais pesado. Isabela largou a bolsa no sofá, tirou os sapatos e ficou parada no meio da sala por alguns segundos, sem saber exatamente o que fazer com o próprio corpo. A aula ainda vibrava nela. O olhar dele. A voz. A pergunta. Ela foi até a cozinha, acendeu apenas a luz sobre a pia e serviu um copo d’água. Bebeu devagar, como se o gesto simples pudesse organizar algo por dentro. Não organizou. Sentou-se à mesa. A cadeira à frente estava vazia. O lugar da mãe. Por reflexo, quase falou em voz alta. — Você acredita que eu respondi na aula hoje? O silêncio respondeu primeiro. Isabela engoliu seco. — Você ia gostar… — murmurou. — Eu não abaixei a cabeça. A lembrança do sorriso orgulhoso da mãe veio inteira demais. Do jeito que ela inclinava a cabeça quando ouvia algo importante. Do jeito que sempre dizia não se diminui pra caber. Isabela apoiou os cotovelos na mesa e fechou os olhos. Então o rosto que veio não foi o da mãe. Foi o de Lucas Moretti. O sorriso confiante. O celular na mão. A frase dita como quem não entende o estrago que causa. Confia em mim. O estômago dela revirou. Era assim que o passado funcionava: não pedia licença. Apenas voltava. Ela levantou rápido demais, foi até o quarto e abriu a gaveta da cômoda. Lá no fundo, ainda existia um envelope amassado. Nunca teve coragem de jogar fora. Pegou. Abriu. Não havia fotos. Nem provas. Só papéis antigos, anotações, uma impressão borrada de uma notícia online que ela nunca terminou de ler. Lucas já tinha seguido. Se formado. Vivido. Ela ficou. Isabela dobrou tudo de novo, com mãos firmes dessa vez, e guardou. — Não mais — disse em voz alta. Foi até a cama, sentou-se e pegou o celular. Abriu a agenda da faculdade. Releu o nome da disciplina. O nome dele. Arthur Valente. Sentiu um aperto estranho no peito. Não era desejo puro. Nem medo. Era algo mais confuso — como se aquele homem tivesse tocado em uma ferida antiga sem saber onde pisava. — Isso é só admiração m*l colocada — sussurrou para si mesma. Mas o corpo não concordou. Deitou-se sem trocar de roupa. Olhou para o teto, lembrando do olhar dele quando ela falou de ética. Do silêncio que caiu depois. Ética só existe quando custa alguma coisa. Ela fechou os olhos. — Eu tô pagando — murmurou. — Todo dia. O sono veio quebrado, inquieto, povoado por rostos que ela tentava esquecer e por um olhar que ela não deveria lembrar. ⸻ POV – Arthur Arthur Valente chegou em casa mais cedo do que o habitual. Tirou o paletó, pendurou com cuidado, afrouxou a gravata e passou a mão pelo rosto como se quisesse apagar o dia inteiro. A cozinha já estava arrumada demais. — Você chegou cedo — a voz veio da sala. Ele parou. — Mãe? Ela apareceu na porta, com uma bolsa no braço e um sorriso atento demais para ser casual. — Resolvi aparecer. Faz tempo que você não janta comigo. Arthur sorriu de leve. — Eu avisei que o semestre ia ser puxado. — Faculdade nova, alunos novos… — ela o observou com cuidado. — Imaginei. Sentaram-se à mesa alguns minutos depois. A comida era simples. Caseira. Familiar. — Então — ela começou, servindo o vinho — como foi a primeira aula? Arthur levou a taça à boca, ganhou tempo. — Normal. Ela arqueou uma sobrancelha. — Arthur… eu te pari. Normal nunca foi sua resposta verdadeira. Ele suspirou, pousando a taça. — Os alunos são atentos. Questionadores. — Algum problema? — Não. Mentira limpa. Treinada. A mãe inclinou a cabeça, estudando o rosto dele. — Você está tenso. — É só responsabilidade — respondeu rápido demais. — Responsabilidade eu conheço — ela disse. — Isso aí é outra coisa. Arthur se levantou, foi até a pia, fingiu arrumar algo que não precisava. — Teve uma aluna — disse, por fim. — Muito articulada. Inteligente. Com… bagagem. A mãe não interrompeu. — Ela respondeu uma pergunta — ele continuou. — De um jeito que… tocou num ponto sensível da matéria. — Ou seu — a mãe completou, calma. Arthur fechou os olhos por um segundo. — Eu sei onde estou pisando — disse. — Não vou errar de novo. A mãe se levantou e se aproximou. Tocou o braço dele com cuidado. — O que aconteceu no passado não te condena a viver em guerra, filho. Mas também não te dá licença pra esquecer os limites. Ele assentiu. — Eu sei. Mas quando a mãe foi embora e a casa voltou ao silêncio, Arthur ficou sozinho com o copo de vinho intacto e um pensamento que não o deixava. Isabela Duarte. A forma como ela sustentou o olhar. A voz firme. A dor organizada. Arthur passou a mão pelo rosto outra vez. — Não — disse para o vazio. Mas o vazio não respondeu. E naquela noite, dois quartos diferentes abrigaram a mesma certeza incômoda: Alguns encontros não pedem permissão. Eles apenas acontecem. E cobram.
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