POV – Isabela
O corredor do prédio de Finanças sempre teve aquele cheiro de papel velho misturado com café barato.
Mas hoje… parecia diferente.
Talvez fosse eu.
Talvez fosse essa sensação incômoda que vinha crescendo desde ontem — desde o momento em que os olhos dele encontraram os meus como se reconhecessem algo.
Como se eu fosse um problema.
Ou pior:
como se ele soubesse que não deveria desejar resolver.
Apertei os cadernos contra o peito, respirei fundo e empurrei a porta da sala. A turma já estava quase toda lá, espalhada, rindo, conversando, vivendo vidas normais.
Eu tentava parecer normal desde que voltei.
Mas nada em mim era realmente normal depois do que aconteceu.
— Isabela.
Marcos Mendonça levantou a mão discretamente, chamando minha atenção. Ele sempre fazia isso — como se tivesse medo de ocupar espaço demais. O sorriso era pequeno, gentil. Seguro.
— Senta aqui — disse, puxando a cadeira ao lado da dele.
Sentei.
Não porque eu precisasse de companhia, mas porque era confortável. Marcos nunca invadia meu espaço, nunca me olhava como se pudesse me despir com um pensamento.
Diferente de Arthur Valente.
A porta se abriu.
E o silêncio caiu como uma cortina pesada.
Ele entrou.
E eu senti.
O terno escuro, o passo firme, o controle absoluto estampado no corpo inteiro. Arthur Valente não entrava em ambientes — ele os dominava.
Quando passou perto de mim, algo no ar vacilou. Foi mínimo. Quase invisível.
Mas eu vi.
Eu sempre vejo.
Ele largou alguns papéis sobre a mesa e disse:
— Hoje vamos falar sobre ética profissional. E sobre o que acontece quando ela é colocada à prova.
A voz dele preencheu a sala. Grave. Precisa. Ele não olhou para mim de imediato, mas eu sabia — sabia — que estava consciente da minha presença.
Marcos falava alguma coisa ao meu lado. Não ouvi.
Eu estava ocupada demais observando como Arthur segurava a caneta.
Como a mandíbula ficava tensa ao ler uma anotação.
Como os olhos dele, inevitavelmente, encontraram os meus.
E não desviaram.
Frio.
Sério.
Proibido.
Meu estômago virou. Senti o pulso bater no pescoço.
Ele me olha como se eu fosse um risco.
E eu sustento o olhar como se não tivesse medo de queimá-lo.
— Senhorita Duarte — ele chamou, sem quebrar o contato visual. — Quer compartilhar sua visão sobre responsabilidade moral em ambientes de conflito?
A sala inteira se voltou para mim.
— Se você quiser, eu respondo… — Marcos sussurrou.
Mas não.
Essa versão nova de mim não foge.
Ergui o queixo, cruzei as pernas com calma — e vi os olhos dele acompanharem o movimento por um segundo.
Um segundo que ele não deveria ter permitido.
— Minha visão? — respondi. — Ética só existe quando custa alguma coisa. Quando exige sacrifício. Quando obriga alguém a abrir mão da própria reputação para fazer o que é certo.
Arthur ficou rígido.
Foi sutil.
Mas real.
— Qualquer pessoa é ética quando nada está em jogo — completei.
O silêncio ficou denso. Elétrico.
Ele piscou devagar, como se minhas palavras tivessem atravessado alguma defesa invisível.
E tinham.
— Interessante — murmurou. — Muito interessante, senhorita Duarte.
Meu corpo inteiro reagiu.
Naquele instante, eu entendi:
ele era perigoso para mim.
Mas eu também era para ele.
Quando a aula terminou, arrumei minhas coisas devagar. Eu sabia que ele observava, mesmo sem olhar diretamente.
Eu sentia.
E, contra qualquer lógica, eu gostava de sentir.
Marcos caminhou ao meu lado até a porta, falando algo sobre a próxima prova. Eu assenti, educada, mas minha atenção estava presa ao homem atrás da mesa.
Ao passar pela porta, deixei escapar, baixa, proposital:
— Boa noite, professor.
Não precisei olhar para saber que ele escutou.
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POV – Arthur
Eu deveria ter ignorado.
Deveria ter fingido que não senti nada quando ela entrou na sala. Que não percebi o perfume discreto. Que não notei o olhar atento de quem já aprendeu, cedo demais, que o mundo pode ser c***l.
Mas eu percebi.
Desde ontem.
E eu não posso.
Não depois do que aconteceu anos atrás.
Depois da acusação falsa.
Depois de quase perder tudo por algo que nunca fiz.
Nunca mais permiti que uma aluna me desequilibrasse.
Nunca mais deixei meu olhar demorar.
Nunca mais confundi presença com perigo.
Até Isabela Duarte.
O nome ecoava na minha mente de um jeito que já ultrapassava o aceitável.
Quando ela cruzou as pernas, senti o corpo reagir antes da razão — e odiei isso. Porque era errado. Porque era perigoso. Porque eu reconhecia aquele tipo de mulher.
A que quebra defesas.
Chamá-la para responder foi um teste.
Eu queria vê-la sob pressão.
Ela não recuou.
Falou com firmeza, sem medo, com a serenidade de quem já perdeu demais para temer julgamentos.
Quando disse que ética custa algo…
Meu peito travou.
Ela não fazia ideia do quanto aquilo me atingia.
Ou fazia?
Quando a aula terminou, esperei a sala esvaziar. Mas ela demorou. Movia-se devagar demais para ser acaso.
Quando passou pela porta e murmurou professor, algo em mim cedeu.
Isso não pode acontecer.
Isso não vai acontecer.
Minutos depois, ao sair do prédio, a vi descendo as escadas externas. A luz do poste iluminava o rosto dela.
Por um segundo, desejei que não olhasse para trás.
Ela olhou.
Como se soubesse exatamente onde eu estava.
Como se pudesse sentir meus pensamentos.
E sorriu.
Curto.
Perigoso.
Meu corpo inteiro reagiu.
Aquela mulher vai ser o meu limite.
E, pela primeira vez em anos, não tenho certeza se ainda sou capaz de respeitá-lo.