- Dois lados

796 Palavras
POV – Arthur Arthur Valente percebe a sala antes de entrar. Sempre percebe. O volume das vozes, o tipo de riso, a pressa típica do primeiro dia. Ele para por um segundo do lado de fora, ajusta a pasta de couro sob o braço e respira fundo. Disciplina. É isso que o mantém inteiro. Ao abrir a porta, o burburinho diminui — não por respeito, mas por impacto. Ele está acostumado. Não gosta, mas não perde tempo combatendo. Caminha até a mesa sem cumprimentos. Coloca a pasta, pega o marcador e escreve seu nome no quadro. PROF. ARTHUR VALENTE Nada além disso importa agora. Quando se vira para a sala, faz o que sempre faz: observa. Não julga, não se envolve. Apenas registra. Até que a vê. Ela está sentada perto da janela. Postura rígida demais para quem tenta parecer tranquila. A mochila no lugar certo, o caderno alinhado, o celular já no silencioso. Controle. Arthur reconhece isso de longe. Quando os olhos dela encontram os dele, algo escapa do script. Não é atração imediata — é alerta. Um reconhecimento silencioso de alguém que carrega mais do que aparenta. Ele segue. — Bom dia. Começa a chamada, mantendo a voz firme, neutra. Nomes comuns. Rostos distraídos. — Marcos Mendonça. — Presente. Nada chama atenção. Até ouvir: — Isabela Duarte. Arthur levanta os olhos no mesmo instante. Ela ergue a mão. O olhar não desvia. Não desafia — sustenta. Isso o faz travar por um segundo a mais do que deveria. Erro. Ele limpa a garganta e segue a lista, irritado consigo mesmo. Professores não observam assim. Não permitem fissuras. Começa a apresentar a disciplina, mas algo nele permanece atento demais àquela presença. Arthur se obriga a focar no conteúdo. Ética. Sociedade. Comportamento. Ironia. Escreve a atividade no quadro: O MAIOR ERRO QUE VOCÊ JÁ COMETEU — E O QUE ELE FEZ COM VOCÊ. Alguns alunos riem nervosos. Outros suspiram. Ele mantém o tom profissional. — Pode ser anônima. Mas precisa ser honesta. Arthur acredita nisso. Sempre acreditou. Quando recolhe as redações, evita olhar para os rostos. Técnica antiga. Funciona. Até não funcionar. Os dedos dele encostam nos dela. Um toque breve. Elétrico. Totalmente inadequado. Arthur levanta o olhar no mesmo instante — e se arrepende. O choque não vem do contato físico. Vem do que ele vê nos olhos dela: contenção. Dor organizada. Um tipo específico de silêncio que ele conhece bem demais. — Obrigado — diz, baixo demais. Maldição. Quando a aula termina, ele permanece sentado enquanto os alunos saem. Não por cansaço, mas por estratégia. Precisa recuperar o eixo antes de ler qualquer coisa. Mesmo assim, abre a primeira redação. Genérica. A segunda também. Quando chega à dela, reconhece antes mesmo de ler. Não pelo nome — pelo peso do papel dobrado com cuidado. Arthur começa. E o mundo diminui. Não é a história em si — é a forma. A ausência de vitimização. A precisão da dor. A escolha das palavras. Confiança quebrada. Exposição. Vergonha. Fuga. E então… A mãe. Arthur para de ler. Fecha os olhos por um segundo que dura mais do que deveria. Ele conhece aquele tipo de perda. A que não pede atenção, mas muda tudo por dentro. Quando termina, dobra o papel com cuidado excessivo, como se pudesse machucar alguém se fosse brusco. Levanta os olhos. Ela ainda está ali. O erro acontece antes que ele consiga impedir. — Senhorita Duarte. A voz sai mais grave. Ela se vira. Atenta. Preparada. — Sim, professor? Arthur se odeia por precisar respirar fundo antes de falar. — Da próxima vez que decidir entregar a sua verdade a alguém… — ele mede cada palavra — escolha melhor quem terá esse poder. Não é uma crítica. É um aviso. Para ela. E para ele. O sorriso torto que ela devolve o desestabiliza mais do que qualquer confronto. — Não se preocupe, professor. Eu aprendo rápido com os meus erros. Aquilo atinge onde não deveria. Por um segundo perigosíssimo, Arthur imagina atravessar a sala. Não tocá-la — jamais isso —, mas dizer algo que ultrapassaria o papel de professor. Ele fecha os olhos. Disciplina. — Está dispensada, senhorita Duarte. Ela sai. Arthur permanece sentado, os dedos entrelaçados sobre a mesa, olhando para o nada. Isso não pode acontecer. Isso não vai acontecer. Ele guarda as redações na pasta com cuidado excessivo, como se estivesse lidando com algo inflamável. Ao se levantar, nota o reflexo no vidro da sala: postura firme, rosto impassível. A imagem de sempre. Mas por dentro, algo se moveu. E Arthur Valente sabe, com a precisão de quem já errou uma vez na vida, que quando algo assim começa… não basta ignorar. É preciso resistir. E ele não tem certeza se ainda é tão bom nisso quanto costumava ser.
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