- Um conflito interno

996 Palavras
POV – Isabela Eu sempre imaginei como seria voltar. Na minha cabeça, os corredores seriam menores. Eu pisaria ali mais firme. O passado ficaria quieto, como algo finalmente resolvido. Nada acontece como eu imaginei. Assim que entro no prédio da faculdade, sinto o chão vibrar sob meus pés, como se o lugar respirasse. Como se me reconhecesse — e duvidasse de mim ao mesmo tempo. A porta automática se abre, e o cheiro me atinge em cheio: café queimado, desinfetante barato, livros antigos. O mesmo cheiro de antes. Um dia, aquilo significou começo. Hoje, significa memória. Pessoas passam por mim rindo, reclamando de horários, chamando para festas. Um veterano grita algo sobre um open bar. Um grupo de meninas se posiciona em frente ao mural para tirar foto. A faculdade está viva. Eu me sinto deslocada no meio dela. Ajeito a alça da mochila no ombro. Minhas mãos tremem levemente, mas controlo. Aprendi a controlar. Não deixo mais nada escapar. Não voltei para ser acolhida. Voltei para cumprir algo. Enquanto caminho pelo corredor central, escuto risadinhas atrás de mim. — Você viu o novo professor? — Dizem que ele é absurdo. — Alto, barba, cara fechada… — E exigente. — Melhor ainda. Reviro os olhos, sem virar o rosto. Claro. O professor bonito. Mesmo assim, algo se fecha no meu estômago. Não é curiosidade. É alerta. Homens assim sempre vêm acompanhados de problemas — e eu já paguei caro demais por confiar. Acelero o passo. No mural, confiro minha grade mais uma vez. Bloco C – Sala 204 Ética, Sociedade e Comportamento nas Finanças Professor: Arthur Valente Irônico. Subo as escadas sentindo cada degrau pesar mais do que deveria. A sala já está quase cheia quando chego. Risadas, celulares, vozes sobrepostas. Pessoas que parecem saber exatamente onde estão. Escolho uma carteira perto da janela. Meio da sala. Nem invisível, nem exposta demais. Coloco o caderno sobre a mesa, o estojo ao lado, o celular no silencioso. Respiro fundo. Você prometeu, lembro. Para ela. O burburinho muda de tom de repente. — É ele. — Nossa… — Meu Deus. Levanto os olhos. Arthur Valente entra. Ele não caminha. Ele ocupa o espaço. Alto. Ombros largos. Camisa azul clara com as mangas dobradas até os antebraços. Um relógio discreto no pulso. Barba bem aparada. Cabelo castanho levemente desalinhado. Mas é o olhar que me desarma. Frio. Analítico. Afiado. Ele não sorri. Não cumprimenta ninguém. Apenas vai até a mesa, coloca a pasta, pega o marcador e escreve no quadro: PROF. ARTHUR VALENTE Eu deveria olhar para o nome. Mas meus olhos ficam presos nele. Ridícula. Você não está aqui pra isso. Quando ele se vira para a sala e seus olhos percorrem as fileiras, sinto o impacto antes mesmo de acontecer. Quando encontram os meus, algo em mim vacila. Castanhos intensos. Não acolhedores. Observadores. Como se ele visse além do que deveria. — Bom dia — diz, com a voz grave. — Bem-vindos à disciplina de Ética, Sociedade e Comportamento nas Finanças. Começa a chamada. — Marcos Mendonça. — Presente — responde um rapaz simpático algumas cadeiras à frente. Nada em mim reage além do normal. Arthur segue. — Isabela Duarte. Levanto a mão. — Presente. O olhar dele permanece em mim um segundo além do necessário. Eu sustento. Não abaixo os olhos. Não depois de tudo. Algo passa pelo rosto dele. Rápido. Indecifrável. Ele limpa a garganta e continua. Tento prestar atenção na explicação da disciplina. Tento mesmo. Mas minha mente insiste em escapar. Penso na minha mãe sentada à mesa, dizendo que tempo não é sentença. Penso no dia em que vi a foto de Lucas Moretti se formando, sorrindo para uma vida que seguiu sem mim. Penso em como precisei juntar meus pedaços sozinha. Arthur escreve no quadro: O MAIOR ERRO QUE VOCÊ JÁ COMETEU — E O QUE ELE FEZ COM VOCÊ. — Primeira atividade — diz. — Uma redação. Pode ser anônima. Mas precisa ser honesta. Meu estômago afunda. Honestidade me custou tudo uma vez. Mesmo assim, minha mão começa a escrever. Escrevo sobre confiança quebrada. Sobre um vídeo que nunca deveria ter saído de um quarto. Sobre vergonha. Sobre fuga. E sobre a morte da minha mãe. Quando termino, minhas mãos tremem. Você não devia ter escrito isso. Mas escrever foi como sangrar depois de tempo demais segurando o corte aberto. Arthur recolhe os papéis. Quando pega o meu, nossos dedos se tocam. Rápido. Mas forte demais para ser ignorado. Ele levanta o olhar na mesma hora. — Obrigado — diz, baixo. A aula termina. — Ei — Marcos se inclina na minha direção. — Sou o Marcos. Se precisar de ajuda com a matéria, é só falar. — Obrigada — respondo. Ele é gentil. Normal. Seguro. Meu olhar, no entanto, vai para a mesa da frente. Arthur está lendo as redações. Quando pega a minha, reconheço na hora. O rosto dele muda enquanto lê. Primeiro neutro. Depois tenso. A mandíbula se fecha. Ele dobra o papel com cuidado, como se estivesse lidando com algo delicado demais. Levanta os olhos. Em mim. A sala já está quase vazia quando ele fala: — Senhorita Duarte. Meu corpo reage antes da mente. — Sim, professor? Ele segura minha redação entre os dedos. — Da próxima vez que decidir entregar a sua verdade a alguém… — o olhar dele baixa por um segundo e volta — escolha melhor quem terá esse poder. Meu coração dispara. Eu deveria recuar. Mas sorrio, torto. — Não se preocupe, professor. Eu aprendo rápido com os meus erros. Algo quebra no controle dele. Por um instante, parece que Arthur considera atravessar a sala. Então se recompõe. — Está dispensada, senhorita Duarte. Saio sem olhar para trás. Mesmo assim, sinto o olhar dele queimando minhas costas. Eu deveria correr. Me afastar. Ignorar. Mas tudo o que penso é: Eu não deveria desejar o professor. E ele definitivamente não deveria desejar a aluna. Só que algo me diz que isso… já começou.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR