- Uma decisão e uma perda.

1132 Palavras
O cheiro de café fresco foi a primeira coisa que Isabela sentiu ao acordar. Não foi o despertador. Nem um pensamento r**m. Foi aquele cheiro antigo, familiar, que sempre vinha antes de qualquer conversa difícil. Ela caminhou até a cozinha ainda de meia, cabelo preso de qualquer jeito. A mãe estava de costas, mexendo a panela no fogão. — Bom dia, dorminhoca — disse, sem virar. — Bom dia. Isabela se sentou à mesa. A toalha era a mesma de sempre, clara, com pequenas flores desbotadas. A mãe colocou duas xícaras, serviu o café e empurrou o pote de manteiga em direção a ela. — Come — disse. — Você fica irritada quando sai sem comer. — Eu fico irritada com tudo — Isabela respondeu, sorrindo de leve. A mãe riu baixo. — Verdade. Elas ficaram alguns segundos em silêncio, mastigando, ouvindo apenas o barulho da colher batendo na xícara. — Você acordou diferente hoje — a mãe comentou, por fim. — Diferente como? — Menos pesada. — Ela se sentou de frente para Isabela. — Como se tivesse tomado uma decisão. Isabela respirou fundo. Olhou para a mesa, para as próprias mãos. — Ontem eu fiquei pensando no que você disse. — Eu disse muita coisa — a mãe respondeu, calma. — Sobre não voltar pro mesmo lugar. Sobre começar de outro ponto. A mãe inclinou a cabeça, atenta. — E…? — E eu acho que quero tentar. O silêncio que veio não foi de surpresa. Foi de cuidado. — Tentar o quê, exatamente? — a mãe perguntou. — Voltar pra faculdade. A mãe não sorriu de imediato. Primeiro, soltou o ar devagar. Depois, apoiou as duas mãos na mesa. — Tem certeza? — Não — Isabela respondeu, sincera. — Mas eu nunca tenho. A mãe observou o rosto da filha como quem decora detalhes. — O medo não é o problema — disse. — O problema é quando ele manda em você. Isabela assentiu. — Eu sei que não vai ser fácil. Não sei nem se vou conseguir validar tudo. Nem se vou me adaptar de novo. Eu só… — ela engoliu em seco — não aguento mais sentir que minha vida ficou parada num lugar que eu nem escolhi. A mãe estendeu a mão por cima da mesa e segurou a dela. — Então não fica. Isabela levantou os olhos. — Eu tenho medo de falhar de novo, mãe. — E eu tenho medo de você não tentar — respondeu. — Um medo não anula o outro. Isabela riu fraco, emocionada. — Você sempre fala essas coisas simples que doem. — Porque a verdade costuma ser simples — a mãe disse. — O complicado é fugir dela. Elas terminaram o café com calma. A mãe lavou a louça, Isabela secou. Nenhuma das duas tinha pressa. Como se o tempo tivesse, por um instante, concordado em esperar. — Hoje eu entro mais tarde — a mãe avisou. — O hospital tá com troca de plantão. — Vai chover — Isabela comentou, olhando pela janela. O céu já estava cinza, pesado. — Eu sei. Vou com cuidado. Isabela assentiu, mas sentiu um aperto estranho no peito. Afastou o pensamento rápido demais. Depois que a mãe saiu do banheiro, pronta para o trabalho, Isabela ficou sozinha na sala. O notebook ainda estava fechado em cima da mesa desde a noite anterior. Ela passou a mão pela tampa antes de abrir. A tela acendeu devagar. Isabela digitou o nome da universidade com mais cuidado do que o necessário, como se qualquer erro pudesse mudar tudo. Página de login. Esqueceu a senha. Riu de si mesma. — Claro que esqueceu — murmurou. Criou uma nova. Atualizou dados. Leu cada informação com atenção excessiva. Parou quando chegou na parte: situação acadêmica. Trancado. Ela ficou olhando para aquela palavra como se fosse uma pessoa que conhecia demais. — Não pra sempre — disse em voz baixa. Clicou em “reanálise de matrícula”. Preencheu formulário. Anexou documentos. O cursor piscava, impaciente. Quando apareceu o botão ENVIAR, Isabela hesitou. — Vai — falou para si mesma. Clicou. Nada explodiu. Nada mudou ao redor. Mas algo dentro dela se mexeu. O celular vibrou na mesa. Bom dia, filha. Já cheguei. Vai chover bastante mais tarde. Não esquece o guarda-chuva. Isabela sorriu e respondeu: Boa tarde, mãe. Já tô com saudade. A resposta veio quase imediata: - Boba. O dia passou rápido demais. No trabalho, Isabela se concentrou como não fazia há tempos. Organizou arquivos, resolveu pendências, ajudou colegas. — Você tá inspirada hoje — alguém comentou. — Talvez — respondeu, sem explicar. À noite, o barulho da chuva começou cedo. Isabela estava no sofá quando ouviu o trovão. Forte. Próximo. Olhou para o relógio. — Mãe já devia estar saindo… Pegou o celular. Nenhuma mensagem nova. Outro trovão. Ela caminhou até a janela. A chuva caía grossa, sem delicadeza nenhuma. O tipo de chuva que engole a rua. O celular tocou. Isabela atendeu rápido demais. — Mãe? Não era a voz dela. — Isabela Duarte? — Sou eu — respondeu, o coração disparando. — Quem tá falando? — Aqui é do Hospital Central. Houve um acidente na rodovia. Seu número estava no contato de emergência. O mundo ficou estreito. — Minha mãe? — Isabela perguntou, quase sem voz. Houve uma pausa curta demais. — Ela sofreu uma colisão. A senhora precisa vir pra cá. — Ela tá… — Isabela não conseguiu terminar. — Venha o mais rápido possível. A ligação caiu. Isabela ficou parada, o celular escorregando da mão. O som da chuva parecia distante agora. Tudo parecia distante. Ela pegou a bolsa, saiu de casa sem fechar direito a porta. O caminho até o hospital foi um borrão de luzes vermelhas e sirenes. As mãos tremiam no volante. No corredor, alguém a reconheceu pela foto do documento. — Você é a filha da Maria? Isabela assentiu. — Ela deu entrada há alguns minutos. — Posso ver ela? — perguntou, desesperada. A enfermeira baixou o olhar. — Me acompanhe. O médico falou coisas que Isabela não entendeu. Palavras técnicas. Horários. Impacto lateral. Chuva intensa. Ela só ouviu uma frase. — Nós fizemos tudo que era possível. O chão não se abriu. O teto não caiu. O mundo não acabou de forma dramática. Ele apenas seguiu sem a mãe. Isabela sentou numa cadeira de plástico. O choro veio depois. Primeiro baixo. Depois sem controle. A última conversa. O café. O “boba”. Ela levou a mão ao peito como se pudesse segurar algo ali dentro. Não conseguiu. Algumas decisões mudam o rumo da vida. Outras chegam tarde demais para serem compartilhadas. E naquela noite, Isabela entendeu que crescer também é aprender a continuar mesmo quando quem te ensinou a caminhar não está mais ali para ver.
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