Levanto com o som do alarme tocando, o desligo coçando os olhos e bocejo, hoje tinha baile aqui no morro, mas não atava afim de ir. As meninas estão ansiosas e somente por isso que cogitei ir, para falar a verdade ja tem quase três meses que não vou a um baile e eu não ligo. Ainda era cedo então me permitir ficar fazendo hora extra na cama, eu poderia ir para academia ou até mesmo na casa da tia Anne, mas eu só queria ficar aqui, na segurança da minha coberta onde ninguém poeira me ferir ou me tocar, onde só a minha mãe ou os meninos vinham, não queria sair e da razão as vozes na minha cabeça. Por ser cedo eu pensei em ir até a laje e ficar por la e ver o sol sair das sombras que as nuvens faziam, mas não queria me expor aos olhares de pena que alguns vapores me davam quando passava por eles nesse mesmo horário há quase um ano, hoje eu queria braços me abarcando com força me mantendo segura a todo instante, com isso em mente eu me levantei ainda com a minha coberta e fui até o quarto a minha frente e entrei sem bater, Gabriel nunca trancava aporta mesmo.
Fazia exatamente três dias desde o meu quase afogamento e desde então as coisas ficaram estranhas em casa, mamãe insiste em me fazer comer um pouco mais do que suporto e sempre tenho que ta nas vistas dela ou de um dos meninos, no fundo, eu sei que ela percebeu, sei que ela sabe o que ando fazendo e agora ta tentando me consertar com cuidados constantes, não lembro qual o último momento que fiquei sozinha em casa, sempre tem alguém comigo e isso até que é bom. Gabriel tinha o sono leve por isso assim que entrei no quarto ele acordou, mas não tinha problema porque eu tenho certeza que ele não vai conseguir descansar o suficiente antes de ir ajudar o Christian com os computadores roubados, ele só levantou a coberta e permitiu-me deitar nos seus braços, me abraçando tão forte que me incomodou, mas não tinha problema, o meu corpo relaxava melhor assim, então eu caí no sono pesado e relaxante.
[...]
Os meus olhos abriram-se assim que ouvir um celular tocar ao meu lado, e não era o meu. Tentei me virar, mas notei que tinha braços me mantendo no lugar, mas esses braços não eram do Biel, disso eu tinha certeza, me remexi na tentativa de sair do aperto, mas o que conseguir foi me virar um pouco dando de cara com Alex. Não lembro a última vez que ele dormiu comigo assim, é algo bem raro para se acontecer num péssimo dia como hoje, suspirei cansada e tentei espantar a sonolência que ainda se apossava do meu corpo, peguei o celular dele que não parava de tocar por nada e vi que era a Sabrina ligando e vi também que ja passava das 18 horas. O que quer dizer que dormir o dia todo e não me alimentei hora nenhuma, por que ninguém me acordou?
_ Bruna? Volta a dormir ta cedo ainda.
_ Se cedo for prestes a bater 19 da noite então temos um problema _ Digo ja me sentando na cama, ainda estávamos no quarto do Gabriel e eu me perguntei em que momento ele saiu do meu lado que não percebi. _ O baile só começa as 22:00 né? Da tempo de fazer muita coisa ainda.
_ Sim. Como, por exemplo, explicar-me que diabos foi aquilo no banheiro com o Lorenzo? Não tem como negar porque eu vi ele entrando la depois que você ja tinha passado _ A voz do Alex estava baixa e rouca, mas para mim soava como o trovão, era óbvio que alguém viu, da próxima eu mato o Lorenzo _ O Biel e o papai também comentou o que viram quando encontraram vocês la. Ainda tô esperando.
Tento sair da cama no impulso de não lhe dar respostas, mas fui parada pela tontura que me atingiu e um braço me arrastando para me sentar na cama novamente. O olhei perdida e me perguntei que mentira deveria inventar para que ele saia do meu pé, eu sabia que tudo estava muito quieto esses dias, e não foi só porque eu cai na piscina. Garantiram que o Alex iria me interrogar, que burra eu fui.
_ Não foi nada demais, caso nao saiba eu ja tenho 19 anos e posso fazer e ficar com quem eu quiser _ Digo embirrada.
_ Sim, tem 19 e continua burra. _ O olhei ofendida e quando iria retrucar ele me interrompe _ O Lorenzo? Ele praticamente cresceu connosco Bruna! Ou melhor, a gente viu ele crescer. Ele é bem mais novo e tem aquilo tudo que aconteceu no passado, não da para esquecer algo daquele nível.
O baque foi maior do que eu pensava, o Lorenzo não é parente, mas realmente cresceu connosco por conta do Christian e da Leticia estarem sempre connosco ou com a mamãe, mas apelar para o ocorrido que me marcou, era demais para mim. Não olhei no seu rosto quando me levantei novamente, dessa vez segui firme até a porta, não iria permitir que ele visse como ainda estava quebrada com a situação, não era justo, eu sei o quanto isso me marcou e me acompanha até hoje como uma sombra infeliz na minha vida, mas, não poder tentar achar uma válvula que me ligue ao mundo é como pedir para morrer, não ter Lorenzo é como não ter oxigénio para respirar, como se o mundo parasse de rodar. Ouvir os seus passos ao fundo e quando cheguei na porta ele me alcançou, puxou-me pela cintura e me fez olhar nos seus olhos, estava segurando o choro a muito contido e não sabia quanto mais dessa façanha iria conseguir.
_ Ele é muito novo, entende? Mais que eu só um ano. Ele não precisa focar em algo que está fadado ao fim Bruna, ele tem uma vida, não pode brincar com os sentimentos dele assim _ Soltei-me dos seus braços e tentei passar por ele sem o responder _ Para Bruna. Escuta droga, você iria querer que algo do tipo acontecesse comigo? Que alguém traumatizada e fragilizada me usasse? Que mesmo eu amando ela profundamente ela nunca estaria pronta para mim? Que nunca seria minha de verdade por conta de um passado conturbado?
Baixei os meus olhos com as suas palavras, ele estava certo em partes, mas uma pessoa quebrada também merece ser amada, uma pessoa fragilizada também pode amar novamente, uma pessoa traumatizada pode superar o medo constante que anda na sua sombra, os meus olhos transbordaram em lágrimas gordas, era como uma cascata caindo e o som delas chegando ao chão era os meus soluços. Eu senti raiva, raiva do Alex por me dizer essas baboseiras, raiva pelo Gabriel e o Ryan deixaram isso na mão do meu irmão caçula que não entende nada da dor, que nunca precisou saber o que era sofrer na vida, mamãe não deixava nada acontecer connosco, mas eu via o medo nos olhos dela, o medo de algo poderia acontecer a qualquer momento, o Alex não viu isso, não viu nada, não tem o direito de me dizer essas palavras.
_ Me solta.
_ Bruna... eu...desculpa eu
_ Falei para me soltar _ Murmuro puxando o meu braço do seu aperto.
_ Me ouve, eu não queria falar assim com você eu... eu
_ Me larga Alex, me solta _ Grito puxando o meu braço com força, na tentativa de me segurar no lugar para não me machucar ficamos um puxando o outro até que ele caiu com em cima da escrivaninha do Biel derrubando tudo, inclusive eu, um copo e a fotografia de nós três juntos.
Tudo aconteceu muito rápido, eu não pensei que o Alex fosse me soltar quando o empurrei, não achei que ele tentaria me segurar no momento da queda, e por isso estávamos ambos no chão. Os vidros espalhados ao nosso redor não me permitiu sair da posição meia sentada em cima dele, mas o sangue que apareceu em baixo do seu braço me fez cair num torpor, eu sabia que tinha que sair e pedir ajuda ou então ver onde era o machucado para tentar parar o sangramento, mas eu estava congelada.
Meu mundo parou com os barulhos altos que surgiram nos meus ouvidos, o ar me faltou junto com a enxurrada de lembranças que gostaria de esquecer por um momento na minha vida, a porta se abriu num baque, então braços arrastaram-me de cima do Alex e então eu percebi que gritava. Gritava alto enquanto tentava limpar o sangue que manchou as minhas mãos, as lágrimas nunca pararam de cair e eu jurava que o inferno veio aqui atormentar-me com lembranças tão agourentas.
_ Aí meu deus, Biel vai chamar o seu pai. Anda!
_ Tô indo.