Pré-visualização gratuita O acordo que estava preste a acabar
Capítulo 1 — O Acordo que Estava Prestes a Acabar
O relógio marcava oito horas da manhã quando Clara abriu lentamente os olhos.
A enorme cama parecia fria, apesar dos lençóis macios. Virou a cabeça para o outro lado, encontrando apenas o espaço vazio.
Leonardo já tinha saído.
Como em quase todos os dias.
Ela suspirou baixinho, levantando-se e caminhando até à enorme janela da mansão. Lá em baixo, dezenas de homens armados patrulhavam o jardim.
Viver ao lado de um dos mafiosos mais perigosos do mundo significava nunca conhecer uma vida normal.
Mesmo assim...
Ela já se tinha habituado.
Ou pelo menos era isso que tentava acreditar.
Enquanto se preparava para descer, o seu olhar caiu sobre um envelope pousado na cómoda.
Era o contrato.
Faltavam apenas trinta dias para terminar.
Ela sorriu de forma triste.
— Mais um mês... Depois cada um segue a sua vida...
Aquelas palavras apertaram-lhe o coração.
Ela nunca deveria ter-se apaixonado.
Nunca.
Porque para Leonardo tudo aquilo sempre tinha sido apenas um negócio.
...
No escritório da mansão...
Leonardo analisava vários documentos enquanto alguns homens aguardavam ordens.
— O carregamento chega hoje à noite.
— Reforcem a segurança.
— Ninguém entra sem autorização.
A sua voz era firme, fria e autoritária.
Todos obedeciam sem questionar.
Marco entrou na sala.
— Preciso falar contigo.
Os restantes homens perceberam o tom e saíram imediatamente.
Quando ficaram sozinhos, Marco cruzou os braços.
— Vais continuar a fingir?
Leonardo nem levantou os olhos.
— Não sei do que estás a falar.
— Sabes perfeitamente.
Silêncio.
— O contrato acaba daqui a um mês.
Leonardo continuou a assinar os papéis.
— E então?
— E então vais deixá-la ir?
Pela primeira vez, a caneta parou.
Mas apenas por um segundo.
— Foi esse o acordo.
Marco soltou uma pequena gargalhada.
— És mesmo burro.
Leonardo lançou-lhe um olhar gelado.
— Cuidado com a forma como falas comigo.
— Mata-me se quiseres. Continuas apaixonado por ela.
Silêncio novamente.
Leonardo levantou-se.
— Eu não me apaixono.
— Pois... Só passas noites inteiras a verificar as câmaras para saber onde ela está. Mandas guarda-costas segui-la sem ela perceber. Cancelaste três operações porque ela estava doente.
Leonardo permaneceu imóvel.
Marco aproximou-se.
— Tu amas a Clara.
A mandíbula de Leonardo contraiu-se.
Mas nenhuma palavra saiu da sua boca.
...
Na cozinha...
Clara preparava o pequeno-almoço para si.
Algumas empregadas sorriam para ela.
— Bom dia, senhora Clara.
— Bom dia.
Ela devolvia sempre o sorriso.
Era impossível tratá-las m*l.
Nesse momento, saltos altos ecoaram pelo corredor.
Vitória apareceu.
Elegante.
Confiante.
Com aquele sorriso cheio de veneno.
— Ainda estás aqui?
Clara olhou para ela.
— Bom dia.
Vitória riu.
— Continuas educada... Impressionante.
Clara baixou os olhos.
Não queria problemas.
Vitória aproximou-se lentamente.
— Sabes... ouvi dizer que falta apenas um mês.
Clara ficou em silêncio.
— Deve ser triste saber que vais voltar a ser uma desconhecida quando o contrato acabar.
As palavras atingiram-na como uma faca.
Mesmo assim...
Ela sorriu educadamente.
— Espero que tudo corra bem para todos.
Vitória revirou os olhos.
— És mesmo ingénua.
Ela inclinou-se ligeiramente.
— Nunca foste a mulher dele.
— Foste apenas uma funcionária bem paga.
Clara apertou discretamente a chávena nas mãos.
O sorriso começou a desaparecer.
Vitória continuou.
— Quando fores embora... finalmente o lugar ao lado dele ficará vazio.
— E eu estarei pronta para ocupá-lo.
Antes que Clara pudesse responder, passos firmes aproximaram-se.
Leonardo entrou na cozinha.
O ambiente congelou.
Vitória mudou imediatamente de expressão.
— Bom dia, Leonardo.
Ele nem sequer olhou para ela.
Os seus olhos passaram apenas por Clara durante um breve instante.
— Vamos sair dentro de vinte minutos.
— Há um evento.
Clara assentiu.
— Está bem.
Leonardo virou-se e saiu da cozinha sem dizer mais nada.
Vitória sorriu com superioridade.
— Vês?
— Nem sequer consegue falar contigo.
Ela também saiu.
Clara permaneceu imóvel.
Olhou para a chávena de chá já fria.
E, pela primeira vez em muito tempo...
Uma lágrima caiu silenciosamente sobre a mesa.
Enquanto isso, do lado de fora da cozinha, Leonardo permanecia parado no corredor.
Tinha ouvido parte da conversa.
As mãos fecharam-se em punhos.
O olhar tornou-se perigosamente frio.
Mas, incapaz de dizer o que realmente sentia...
Limitou-se a continuar a caminhar, convencendo-se de que o silêncio era a melhor forma de protegê-la.
Sem imaginar que esse mesmo silêncio poderia ser a razão de perdê-la para sempre.