Capítulo 37 — Ecos de um Passado
Dois dias passaram.
A rotina na mansão de Augusto Moreira tornou-se cada vez mais intensa.
Os funcionários andavam de um lado para o outro.
Os jardineiros preparavam os jardins.
Os cozinheiros experimentavam novos pratos.
Decoradores chegavam com flores, peças de cristal e toalhas luxuosas.
A grande receção aproximava-se.
---
Clara levantou-se antes das seis da manhã.
Vestiu o uniforme cuidadosamente.
Prendeu o cabelo num coque simples.
Olhou para o espelho por alguns segundos.
Ainda havia tristeza nos seus olhos.
Mas agora também havia determinação.
— Vamos começar mais um dia...
sussurrou para si mesma.
---
Assim que chegou à cozinha, Helena já distribuía tarefas.
— Atenção, todos!
Os funcionários pararam para ouvi-la.
— Daqui a dois dias teremos a maior receção do ano.
— O patrão receberá convidados muito importantes.
— Quero tudo impecável.
Ninguém pode cometer erros.
Todos responderam em uníssono:
— Sim, senhora Helena!
A governanta olhou para Clara.
— Clara.
— Hoje vais ajudar na limpeza do salão principal.
— Depois vais organizar os quartos destinados aos convidados.
— Está bem.
---
Durante horas, Clara limpou enormes lustres de cristal, mesas de madeira nobre e janelas que davam para os jardins.
Enquanto trabalhava, observava discretamente a movimentação da casa.
Seguranças por toda a parte.
Carros de luxo a entrar e a sair.
Empregados sempre ocupados.
Era uma mansão tão protegida quanto aquela onde vivera durante um ano.
A diferença...
era que agora ela fazia parte da equipa de funcionários.
---
Enquanto dobrava toalhas na sala de jantar, uma colega aproximou-se.
Era Sofia, a mesma jovem que a tinha levado até ali.
— Estás a adaptar-te bem?
Clara sorriu.
— Sim.
Muito melhor do que esperava.
Sofia sorriu.
— Fico feliz.
Pausa.
— Sabes...
a senhora Helena nunca elogia ninguém.
Se ela gostou do teu trabalho...
é porque realmente trabalhas bem.
Clara sorriu, um pouco envergonhada.
— Obrigada.
---
Enquanto isso...
no escritório do último piso...
Augusto Moreira analisava alguns documentos.
Um dos seus homens entrou.
— Senhor.
— Todos os preparativos estão praticamente concluídos.
Augusto assentiu.
— E os funcionários novos?
— Algum problema?
— Nenhum.
— Há uma jovem chamada Clara.
— A governanta está muito satisfeita com ela.
Augusto apenas respondeu:
— Ótimo.
Que continue.
Mais uma vez...
o nome não lhe dizia absolutamente nada.
---
Ao final da manhã...
Clara recebeu uma nova tarefa.
— Helena chamou-te.
Ela foi imediatamente.
— Sim, senhora Helena?
A governanta entregou-lhe uma lista.
— Preciso que leves estes lençóis limpos para a ala privada.
— Mas lembra-te...
não entras em nenhum escritório.
— Apenas deixas tudo onde eu indicar.
— Está bem.
---
As duas caminharam pelos corredores.
Quanto mais avançavam...
mais silenciosa a casa ficava.
Aquela parte da mansão era diferente.
Muito mais reservada.
Helena abriu uma porta.
— Deixa tudo aqui.
Clara entrou apenas o suficiente para pousar os lençóis sobre uma mesa.
Enquanto saía, ouviu vozes ao fundo do corredor.
Homens discutiam assuntos de negócios.
Ela não prestou atenção.
Limitou-se a sair e fechar a porta.
Helena observou-a.
Percebeu que Clara era realmente discreta.
Isso agradou-lhe.
---
Na hora do almoço...
Os funcionários reuniram-se na sala de refeições.
Sofia sentou-se ao lado de Clara.
— Já encontraste apartamento?
Clara abanou a cabeça.
— Ainda não.
— Mas agora não tenho tanta pressa.
Como posso dormir aqui...
consigo guardar dinheiro.
Sofia sorriu.
— Fazes bem.
Clara baixou os olhos por um instante.
— Quero construir uma vida estável.
Mesmo que demore.
Sofia assentiu.
Sem imaginar o verdadeiro motivo daquela necessidade.
---
Na Mansão do Norte...
Marco entrou no escritório.
Leonardo estava diante da janela.
— Temos novidades.
Leonardo virou-se imediatamente.
— O quê?
— Ela parece estar a adaptar-se muito bem.
— Os funcionários gostam dela.
— A governanta também.
Leonardo fechou os olhos por um breve instante.
Era um alívio saber que Clara estava a ser bem tratada.
Mas continuava no pior lugar possível.
Marco continuou:
— Ainda não foi reconhecida.
— Pelo menos até agora.
Leonardo respondeu em voz baixa:
— Espero que continue assim.
---
Ao mesmo tempo...
num dos corredores da mansão de Augusto...
Clara terminava de limpar uma mesa quando um pequeno porta-retratos caiu ao chão.
Ela apanhou-o imediatamente.
O vidro não partira.
Dentro da moldura havia uma fotografia.
Mostrava Augusto ao lado de vários homens.
Entre eles...
Clara reconheceu um rosto.
Não sabia de onde.
Mas tinha a certeza de que já o tinha visto antes.
Franziu ligeiramente a testa.
— Estranho...
Antes que pudesse pensar melhor...
Helena apareceu.
— Clara.
Ela colocou imediatamente a fotografia no lugar.
— Desculpe.
Estava só a limpar.
— Não há problema.
Vamos.
Ainda temos muito trabalho.
Clara assentiu.
Mas, enquanto caminhava pelo corredor...
aquela imagem continuava na sua cabeça.
Ela ainda não conseguia lembrar-se.
Mas aquele rosto...
de alguma forma...
pertencia ao seu passado recente.
Sem perceber...
Clara acabava de dar o primeiro passo para descobrir que a mansão onde trabalhava escondia muito mais do que um simples emprego.