O aeroporto internacional era um organismo vivo, pulsando com o vaivém incessante de passageiros, mas para mim, cada som — o eco dos passos no mármore, o anúncio metalizado dos portões — soava como a a******a de uma sinfonia de mistérios. Enquanto Bonnie descarregava nossas malas com uma agilidade ansiosa, eu pagava o motorista do Uber, agradecendo-lhe pela ajuda com a bagagem excessiva. Conseguir um carrinho para as malas foi como ganhar um troféu de guerra; empurramos nosso arsenal de câmeras e roupas em direção ao terminal.
—Megan, olhe aquele painel! — Bonnie exclamou, apontando para as letras garrafais que indicavam nosso destino.
Aproximei-me do balcão de informações para confirmar os detalhes técnicos, sentindo uma eletricidade percorrer minha espinha. A cada minuto, a realidade da viagem se tornava mais palpável. Como ainda tínhamos tempo antes do embarque, decidimos que uma última refeição em solo familiar seria prudente. Sentamos em uma lanchonete local, onde o aroma de café fresco tentava acalmar os nervos de Bonnie.
Um atendente jovem se aproximou, bloco de notas em punho.
—O que desejam, senhoritas?
—Um hambúrguer caprichado e suco de laranja natural — pedi, sentindo meu estômago reclamar da ansiedade.
—O mesmo para mim — Bonnie completou, batucando os dedos na mesa.
Assim que ele se afastou, Bonnie inclinou-se para frente, a expressão subitamente séria.
—Megan, falando de forma prática... já sabe exatamente onde vamos ficar?
—Vou descobrir os detalhes finais assim que pousarmos — respondi com uma segurança que eu esperava transparecer. —Em cidades como Brasov, sempre há uma hospedagem acolhedora à espera de viajantes. Não será difícil.
—E as camponesas? Você já tem a localização delas? — A curiosidade de Bonnie era quase profissional, moldada por anos convivendo comigo e com outros jornalistas.
—Sim. Pelo que apurei, elas vivem em uma cabana rústica, nos limites do vilarejo, quase tocando a orla da floresta densa.
Bonnie ergueu as sobrancelhas, um misto de fascínio e temor.
—E quando vamos confrontá-las?
—Hoje o foco é sobrevivência básica: cama e comida — brinquei, tentando encerrar o interrogatório. Bonnie parecia surpresa; ela sabia que eu era metódica até o último fio de cabelo, mas, desta vez, eu estava deixando que a intuição guiasse parte do caminho. Talvez a Transilvânia exigisse esse tipo de entrega.
Após pagarmos o lanche, seguimos para o portão de embarque. O anúncio soou como um chamado ancestral: "Voo com destino à Transilvânia, Romênia. Embarque imediato". Enquanto aguardávamos na fila, um homem idoso, cujas roupas pareciam carregar o ** de décadas e cuja barba grisalha ocultava metade do rosto, aproximou-se de nós com passos arrastados.
—Vocês vão para a Transilvânia? — a voz dele era um sussurro rouco, carregado de um sotaque pesado.
—Sim — respondi com polidez, embora sentisse Bonnie se encolher ao meu lado.
—O que garotas como vocês buscam em um lugar onde o tempo esqueceu de passar? — Ele insistiu, seus olhos nublados fixos nos meus.
—Apenas trabalho, senhor — retruquei, sentindo o mau humor florescer. Eu não queria que ele alimentasse os medos latentes de Bonnie.
—Estranho... — ele murmurou, olhando para o vazio. —Esse voo está sempre tão vazio. Os que vão para lá raramente têm pressa de chegar. E os que estão lá... bem, eles nunca saem.
Um calafrio percorreu meu corpo, mas o ignorei.
—Vamos, Bonnie. Estão chamando — arrastei minha amiga para longe daquela figura lúgubre.
—Megan, o que foi aquilo? Ele parecia ter saído de um filme de terror! — Bonnie olhava para trás, verificando se ele nos seguia.
—Apenas um velho excêntrico querendo assustar turistas...Esqueça isso.
O interior do avião era surpreendentemente moderno, um contraste gritante com o encontro que acabáramos de ter. Acomodamos nossas bolsas de mão e nos sentamos. O voo de Londres para a Romênia seria direto — pouco menos de três horas de travessia.
Assim que os motores rugiram e ganhamos altitude, o cansaço finalmente venceu Bonnie. Ela, que partilhava com minha irmã Sarah a aversão por despertares precoces, "capotou" no assento. Chamei a aeromoça e pedi uma manta e um travesseiro. Cobri-a com cuidado, observando seu rosto relaxar.
Enquanto o mundo passava lá embaixo, abri meu caderno de anotações. Minha mente voava mais rápido que a aeronave. Transilvânia. Do latim, "Além da Floresta". Uma região montanhosa envolta em brumas medievais, onde cidades como Sinaia e Brasov conservavam uma atmosfera que parecia congelada no século XVII. Eu precisava ligar para meu pai assim que chegasse e, claro, tranquilizar Sarah.
Meus planos se desenhavam no papel: manhã para reconhecimento da cidade; tarde para a entrevista com as camponesas; e, se o tempo permitisse, uma visita ao Castelo de Bran, o imponente monumento que alimentava a lenda de Drácula.
Senti um toque leve no ombro. Era a aeromoça avisando que iniciaríamos a descida.
—Bonnie, acorde. Estamos chegando — cutuquei sua bochecha.
—O quê? Já? — Ela abriu um olho, totalmente desorientada, o que me fez rir.
—Vou ao banheiro lavar o rosto. Já volto, "mamãe" —Debochou indo para o banheiro desnorteada e caio na risada. Quando Bonnie voltou, estava mais esperta e se sentou espreguiçando toda.
—Megan, quanto tempo dormi? — Pergunta bocejando.
—Desde quando entramos.
—Hum! — Ouvi seu resmungo e voltei minha atenção ao meu caderno aonde anotava o que estava organizando em minha mente.
—Então! Já sabe o que vamos fazer amanhã? — Bonnie olhava meu caderno.
—Estava pensando, que tal de manhã conhecermos a cidade e depois do almoço falamos com as camponesas? — Digo esperando que ela gostasse, pois, precisarei dela para tirar as fotos.
—Pode ser, cidade pequena não vai demorar em ver tudo — Falou rindo e reviro os olhos por ela saber tão pouco do lugar aonde iriamos.
—Bonnie, o país da Romênia é muito maior, a cidade da Transilvânia, por exemplo... são na parte centro-norte da Romênia, com cidades características como Sinaia, Sibiu, Sighisoara e Brasov aonde ficaremos — Digo e ela continuo rindo, contudo, era agora do meu discurso.
Ao desembarcarmos em Brasov, o ar noturno nos recebeu com uma carícia gélida. O aeroporto era pequeno e funcional. Bonnie deu um grito de alegria ao ver sua mala rosa choque despontar na esteira — um ponto de cor berrante naquele cenário de tons sóbrios.
Descobrimos que a melhor forma de chegar ao coração da cidade naquela hora era pelo sistema ferroviário. Fomos até o guichê de passagens.
—Duas passagens para Brasov, por favor — pedi à atendente, que nos entregou os bilhetes com um sorriso protocolar.
—Pronto, Brasov... estamos chegando — Digo animada e Bonnie balançou a cabeça descrente.
—Desculpa não estar tão animada como você, sendo que estou indo para a região misteriosa da Transilvânia, onde foi criada a tão famosa história de terror — Bonnie fica dramática quando envolve algo que é aterrorizante para ela.
—Nós vamos de trem? — Bonnie parecia ter recuperado toda a sua animação. —Eu nunca andei de trem! E você, Megan?
—Uma vez, quando minha mãe ainda era viva — respondi, e por um breve segundo a melancolia nublou minha visão. Bonnie apertou minha mão em um gesto silencioso de apoio.
O trem chegou com um chiado metálico e uma nuvem de fumaça que conferia à plataforma um ar de filme noir. Um funcionário prestativo nos ajudou a despachar as malas maiores no vagão de carga.
—Obrigado, você é muito gentil — eu disse, enquanto ele sorria galante para nós.
Subimos a bordo e encontramos nossos assentos, 18 e 19. Bonnie correu para a janela, os olhos brilhando enquanto o trem começava a tremer e a deslizar para fora da estação. Como o vagão não estava cheio, pedi permissão ao condutor para me sentar na poltrona da frente, também junto à janela.
Bonnie rapidamente tirou sua câmera profissional da bolsa.
—Nunca saio sem minha "extensão de braço" — brincou ela, começando a fotografar a paisagem que passava. Montanhas cobertas por pinheiros escuros, vilarejos com telhados íngremes e uma lua que parecia nos vigiar por entre as nuvens.
—É lindo demais, Megan. Não dá para acreditar que um lugar assim guarde histórias tão terríveis — comentou ela, maravilhada.
—A beleza muitas vezes serve para ocultar o que não estamos prontos para ver, Bonnie — refleti, olhando para as sombras que se alongavam lá fora.
—Mas Megan... quando saltarmos na estação, vamos ter que caminhar no escuro procurando hotel? — Bonnie voltou à realidade prática.
Olhei ao redor, observando os poucos passageiros. Meu olhar cruzou com o do condutor gentil que passava pelo corredor.
—Vou resolver isso agora — afirmei, levantando-me com meu melhor sorriso de jornalista. Era hora de usar minha persuasão para garantir que nossa primeira noite "além da floresta" não fosse ao relento, mas sob a p******o de um teto firme, antes que o sol se pusesse e as lendas locais ganhassem vida.