✝ Capitulo 3

1504 Palavras
O aeroporto internacional era um organismo vivo, pulsando com o vaivém incessante de passageiros, mas para mim, cada som — o eco dos passos no mármore, o anúncio metalizado dos portões — soava como a a******a de uma sinfonia de mistérios. Enquanto Bonnie descarregava nossas malas com uma agilidade ansiosa, eu pagava o motorista do Uber, agradecendo-lhe pela ajuda com a bagagem excessiva. Conseguir um carrinho para as malas foi como ganhar um troféu de guerra; empurramos nosso arsenal de câmeras e roupas em direção ao terminal. —Megan, olhe aquele painel! — Bonnie exclamou, apontando para as letras garrafais que indicavam nosso destino. Aproximei-me do balcão de informações para confirmar os detalhes técnicos, sentindo uma eletricidade percorrer minha espinha. A cada minuto, a realidade da viagem se tornava mais palpável. Como ainda tínhamos tempo antes do embarque, decidimos que uma última refeição em solo familiar seria prudente. Sentamos em uma lanchonete local, onde o aroma de café fresco tentava acalmar os nervos de Bonnie. Um atendente jovem se aproximou, bloco de notas em punho. —O que desejam, senhoritas? —Um hambúrguer caprichado e suco de laranja natural — pedi, sentindo meu estômago reclamar da ansiedade. —O mesmo para mim — Bonnie completou, batucando os dedos na mesa. Assim que ele se afastou, Bonnie inclinou-se para frente, a expressão subitamente séria. —Megan, falando de forma prática... já sabe exatamente onde vamos ficar? —Vou descobrir os detalhes finais assim que pousarmos — respondi com uma segurança que eu esperava transparecer. —Em cidades como Brasov, sempre há uma hospedagem acolhedora à espera de viajantes. Não será difícil. —E as camponesas? Você já tem a localização delas? — A curiosidade de Bonnie era quase profissional, moldada por anos convivendo comigo e com outros jornalistas. —Sim. Pelo que apurei, elas vivem em uma cabana rústica, nos limites do vilarejo, quase tocando a orla da floresta densa. Bonnie ergueu as sobrancelhas, um misto de fascínio e temor. —E quando vamos confrontá-las? —Hoje o foco é sobrevivência básica: cama e comida — brinquei, tentando encerrar o interrogatório. Bonnie parecia surpresa; ela sabia que eu era metódica até o último fio de cabelo, mas, desta vez, eu estava deixando que a intuição guiasse parte do caminho. Talvez a Transilvânia exigisse esse tipo de entrega. Após pagarmos o lanche, seguimos para o portão de embarque. O anúncio soou como um chamado ancestral: "Voo com destino à Transilvânia, Romênia. Embarque imediato". Enquanto aguardávamos na fila, um homem idoso, cujas roupas pareciam carregar o ** de décadas e cuja barba grisalha ocultava metade do rosto, aproximou-se de nós com passos arrastados. —Vocês vão para a Transilvânia? — a voz dele era um sussurro rouco, carregado de um sotaque pesado. —Sim — respondi com polidez, embora sentisse Bonnie se encolher ao meu lado. —O que garotas como vocês buscam em um lugar onde o tempo esqueceu de passar? — Ele insistiu, seus olhos nublados fixos nos meus. —Apenas trabalho, senhor — retruquei, sentindo o mau humor florescer. Eu não queria que ele alimentasse os medos latentes de Bonnie. —Estranho... — ele murmurou, olhando para o vazio. —Esse voo está sempre tão vazio. Os que vão para lá raramente têm pressa de chegar. E os que estão lá... bem, eles nunca saem. Um calafrio percorreu meu corpo, mas o ignorei. —Vamos, Bonnie. Estão chamando — arrastei minha amiga para longe daquela figura lúgubre. —Megan, o que foi aquilo? Ele parecia ter saído de um filme de terror! — Bonnie olhava para trás, verificando se ele nos seguia. —Apenas um velho excêntrico querendo assustar turistas...Esqueça isso. O interior do avião era surpreendentemente moderno, um contraste gritante com o encontro que acabáramos de ter. Acomodamos nossas bolsas de mão e nos sentamos. O voo de Londres para a Romênia seria direto — pouco menos de três horas de travessia. Assim que os motores rugiram e ganhamos altitude, o cansaço finalmente venceu Bonnie. Ela, que partilhava com minha irmã Sarah a aversão por despertares precoces, "capotou" no assento. Chamei a aeromoça e pedi uma manta e um travesseiro. Cobri-a com cuidado, observando seu rosto relaxar. Enquanto o mundo passava lá embaixo, abri meu caderno de anotações. Minha mente voava mais rápido que a aeronave. Transilvânia. Do latim, "Além da Floresta". Uma região montanhosa envolta em brumas medievais, onde cidades como Sinaia e Brasov conservavam uma atmosfera que parecia congelada no século XVII. Eu precisava ligar para meu pai assim que chegasse e, claro, tranquilizar Sarah. Meus planos se desenhavam no papel: manhã para reconhecimento da cidade; tarde para a entrevista com as camponesas; e, se o tempo permitisse, uma visita ao Castelo de Bran, o imponente monumento que alimentava a lenda de Drácula. Senti um toque leve no ombro. Era a aeromoça avisando que iniciaríamos a descida. —Bonnie, acorde. Estamos chegando — cutuquei sua bochecha. —O quê? Já? — Ela abriu um olho, totalmente desorientada, o que me fez rir. —Vou ao banheiro lavar o rosto. Já volto, "mamãe" —Debochou indo para o banheiro desnorteada e caio na risada. Quando Bonnie voltou, estava mais esperta e se sentou espreguiçando toda. —Megan, quanto tempo dormi? — Pergunta bocejando. —Desde quando entramos. —Hum! — Ouvi seu resmungo e voltei minha atenção ao meu caderno aonde anotava o que estava organizando em minha mente. —Então! Já sabe o que vamos fazer amanhã? — Bonnie olhava meu caderno. —Estava pensando, que tal de manhã conhecermos a cidade e depois do almoço falamos com as camponesas? — Digo esperando que ela gostasse, pois, precisarei dela para tirar as fotos. —Pode ser, cidade pequena não vai demorar em ver tudo — Falou rindo e reviro os olhos por ela saber tão pouco do lugar aonde iriamos. —Bonnie, o país da Romênia é muito maior, a cidade da Transilvânia, por exemplo... são na parte centro-norte da Romênia, com cidades características como Sinaia, Sibiu, Sighisoara e Brasov aonde ficaremos — Digo e ela continuo rindo, contudo, era agora do meu discurso. Ao desembarcarmos em Brasov, o ar noturno nos recebeu com uma carícia gélida. O aeroporto era pequeno e funcional. Bonnie deu um grito de alegria ao ver sua mala rosa choque despontar na esteira — um ponto de cor berrante naquele cenário de tons sóbrios. Descobrimos que a melhor forma de chegar ao coração da cidade naquela hora era pelo sistema ferroviário. Fomos até o guichê de passagens. —Duas passagens para Brasov, por favor — pedi à atendente, que nos entregou os bilhetes com um sorriso protocolar. —Pronto, Brasov... estamos chegando — Digo animada e Bonnie balançou a cabeça descrente. —Desculpa não estar tão animada como você, sendo que estou indo para a região misteriosa da Transilvânia, onde foi criada a tão famosa história de terror — Bonnie fica dramática quando envolve algo que é aterrorizante para ela. —Nós vamos de trem? — Bonnie parecia ter recuperado toda a sua animação. —Eu nunca andei de trem! E você, Megan? —Uma vez, quando minha mãe ainda era viva — respondi, e por um breve segundo a melancolia nublou minha visão. Bonnie apertou minha mão em um gesto silencioso de apoio. O trem chegou com um chiado metálico e uma nuvem de fumaça que conferia à plataforma um ar de filme noir. Um funcionário prestativo nos ajudou a despachar as malas maiores no vagão de carga. —Obrigado, você é muito gentil — eu disse, enquanto ele sorria galante para nós. Subimos a bordo e encontramos nossos assentos, 18 e 19. Bonnie correu para a janela, os olhos brilhando enquanto o trem começava a tremer e a deslizar para fora da estação. Como o vagão não estava cheio, pedi permissão ao condutor para me sentar na poltrona da frente, também junto à janela. Bonnie rapidamente tirou sua câmera profissional da bolsa. —Nunca saio sem minha "extensão de braço" — brincou ela, começando a fotografar a paisagem que passava. Montanhas cobertas por pinheiros escuros, vilarejos com telhados íngremes e uma lua que parecia nos vigiar por entre as nuvens. —É lindo demais, Megan. Não dá para acreditar que um lugar assim guarde histórias tão terríveis — comentou ela, maravilhada. —A beleza muitas vezes serve para ocultar o que não estamos prontos para ver, Bonnie — refleti, olhando para as sombras que se alongavam lá fora. —Mas Megan... quando saltarmos na estação, vamos ter que caminhar no escuro procurando hotel? — Bonnie voltou à realidade prática. Olhei ao redor, observando os poucos passageiros. Meu olhar cruzou com o do condutor gentil que passava pelo corredor. —Vou resolver isso agora — afirmei, levantando-me com meu melhor sorriso de jornalista. Era hora de usar minha persuasão para garantir que nossa primeira noite "além da floresta" não fosse ao relento, mas sob a p******o de um teto firme, antes que o sol se pusesse e as lendas locais ganhassem vida.
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