O corredor do trem parecia mais estreito agora. As paredes de madeira vibravam com o ritmo dos trilhos. Enquanto eu caminhava, sentia olhares curiosos em minha direção. Mas mantive o queixo erguido e o passo firme, como alguém que sabe exatamente para onde está indo.
Encontrei o funcionário que nos ajudara antes. Ele estava encostado em uma divisória de metal. Ele levantou o rosto ao me ver, com um brilho de reconhecimento e cortesia nos olhos.
—Deseja algo, senhorita Johnson? — perguntou ele, com a voz calma sob o ruído da locomotiva.
—Sim. Gostaria de uma recomendação. Algum hotel onde possamos nos hospedar com segurança e conforto? — pedi, observando-o ficar pensativo por um instante.
—A Praça do Conselho é o coração de Brasov. É onde os melhores restaurantes e hotéis se concentram. Eu recomendo o Hotel Stevens. É um lugar de família, sólido. Se desejar, quando chegarmos, posso mostrar o caminho.
Fiquei hesitante. Minha cautela disparou um sinal de alerta.
—Não quero incomodá-lo, ainda mais estando em serviço.
—Esta é a minha última parada na plataforma — ele explicou com um sorriso gentil. — Depois fazemos uma pausa longa e só voltamos à noite. Conheço os proprietários do Stevens pessoalmente. Se isso a deixar mais tranquila, faço questão de acompanhá-las.
— Sendo assim, aceito. Muito obrigada.
Voltei para o nosso assento e encontrei Bonnie revisando algumas fotos na câmera. Ela me olhou com expectativa assim que me sentei.
— E então? Algum progresso na logística?
—O funcionário, Adam, recomendou o Hotel Stevens. Ele se ofereceu para nos guiar até lá assim que o turno dele acabar.
Bonnie franziu o cenho, com ceticismo no rosto.
—Megan, isso não é perigoso? Aceitar escolta de um estranho em uma cidade que m*l conhecemos? Como sabemos que ele é quem diz ser?
—Eu sou cautelosa, Bonnie. Ele trabalha para a ferrovia, conhece os moradores. Em cidades pequenas, a reputação é tudo. Além disso... — apontei para a janela, onde a paisagem se tornava cada vez mais densa e sombria — prefiro um guia local do que vagar por essas vielas com três malas rosa choque e um mapa que não entendo.
Ela deu de ombros, voltando-se para a janela. O balanço do trem acabou por me vencer. Fechei os olhos por apenas um segundo, ou assim pensei, até sentir uma cutucada persistente na minha barriga.
—Apenas te dando o troco pelo avião — Bonnie riu. —De acordo com o Adam, estamos chegando.
— Adam? — Pisquei, tentando dissipar o nevoeiro do sono.
— O rapaz. Ele veio aqui enquanto você dormia para nos deixar tranquilas. Mostrou a identidade de morador e até me deu este panfleto do hotel. Ele pareceu... bem solícito.
Peguei o papel de suas mãos. O Hotel Stevens parecia encantador nas fotos, com sua arquitetura gótica e sacadas de madeira. O barulho alto do freio metálico e uma cortina de fumaça branca anunciaram nossa chegada. As pessoas começaram a se movimentar como sombras frenéticas na plataforma. Adam estava lá fora, indicando a saída com eficiência.
—Muito obrigado, Adam — eu disse ao passar por ele.
—O prazer é meu, Megan Johnson — ele respondeu, mantendo um tom educado.
Esperar pelas bagagens na Transilvânia era uma experiência sensorial. O cheiro de carvão, a umidade da noite e o som de idiomas que pareciam carregar séculos de história. Quando o rapaz do vagão de carga apareceu, entreguei nossos bilhetes com uma expressão neutra.
—Todas as bagagens do grupo 18 estão aqui — ele anunciou, desviando o olhar.
Bonnie estava em uma luta hercúlea com suas três malas monumentais. Adam apareceu logo em seguida, já sem o uniforme oficial.
— Deixe-me ajudar com isso — ele disse, pegando a maior mala de Bonnie. Ele fez menção de pegar a minha, mas eu o impedi com um gesto suave.
—Estou tranquila, Adam. Ajude a Bonnie; ela carrega o mundo dentro dessas malas rosa.
Caminhamos em direção aos portões da cidade. O Portão de Catarina era parte da antiga muralha que protegia Brasov de invasões. Adam falava como um guia apaixonado, apontando para a imponente Igreja n***a que se erguia contra o céu de chumbo.
—Vieram como turistas? — Adam perguntou, quebrando o silêncio da caminhada.
—A trabalho — respondi, observando Bonnie fotografar cada gárgula e cada arco de pedra.
—Para desvendar os segredos da cidade, imagino — ele sorriu de lado, um brilho enigmático nos olhos. —É raro alguém vir morar aqui. Geralmente são curiosos atraídos pelos castelos e pelas vielas sombrias. Transilvânia tem esse... clima de filme de terror. Vielas que terminam em cemitérios, florestas onde o uivo dos lobos não é lenda. Mas há lugares sagrados e escondidos que poucos conhecem. Se precisarem de um guia para o que é “invisível", avisem-me.
Bonnie estremeceu. Eu apenas assenti, guardando aquela informação.
Chegamos rapidamente ao Hotel Stevens. Era uma construção charmosa, com estilo medieval e uma varanda convidativa. Por dentro, o tempo parecia ter parado. Móveis de madeira maciça, tapeçarias pesadas e o calor reconfortante de uma lareira.
Na recepção, fomos atendidas por Rachel, uma jovem de cabelos negros e olhos castanhos profundos.
—Oi, Adam — ela cumprimentou, sorrindo para ele antes de se voltar para nós. —Estrangeiras? Sejam bem-vindas.
—Um quarto com duas camas de solteiro e suíte — pedi, enquanto Rachel anotava nossos dados. O valor foi acertado em ron, “a moeda local”. Quando fui pegar minha carteira, Adam interveio.
—Faço questão de pagar a estadia — ele disse, surpreendendo a todos nós.
— Agradeço a gentileza, mas nossa empresa cobre todas as despesas — respondi firmemente. —Mas obrigada por nos trazer em segurança.
Adam não tirava os olhos de Bonnie. Era quase cômico ver como ele estava fascinado por ela.
—De nada — ele sussurrou, visivelmente sem graça.
—Vou esperar vocês na sala principal — ele disse, afastando-se.
Enquanto preenchíamos as fichas, Bonnie se inclinou para mim.
—Megan, ele não parava de olhar para mim. Isso é... estranho. Você sabe que eu tenho namorado.
—Ele está encantado, Bonnie. Faz parte do seu charme — sussurrei de volta, rindo baixo.
—Aqui está a chave — Rachel entregou o objeto de bronze, mas antes que eu pudesse pegá-lo, outra presença se fez notar.
—Adam! — Uma voz masculina, vibrante e confiante, ecoou pelo saguão.
—Leo! Meninas, este é meu amigo, Leonard Stevens. O pai dele é o dono do hotel.
Leonard era a antítese do ambiente sombrio lá fora. Cabelos pretos bagunçados, olhos castanhos intensos e uma postura que exalava uma masculinidade rústica. Ele apertou minha mão, e por um instante, o contato foi longo demais.
—Somos de Londres — respondi à sua pergunta que tinha feito, e sentindo seu olhar me escanear como se eu fosse uma peça rara em sua coleção.
—Londres... já ouvi falar — ele sorriu, um sorriso que beirava a insolência.
—É melhor subirmos — Bonnie interveio, percebendo meu desconforto. —Precisamos descansar.
Rachel nos conduziu até o quarto. Quando a porta se abriu, senti que tínhamos voltado no tempo. Era um aposento digno de uma princesa medieval: cortinas de veludo roxo, camas de madeira entalhada e um tapete cor de areia que abafava qualquer som. A janela mostrava a Brasov noturna — se de dia era um conto de fadas, à noite a cidade tornava-se um labirinto de sombras reclusas.
Enquanto guardávamos as roupas, Bonnie não resistiu:
—Megan, aquele tal de Leonard... ele quase babou em você.
—Ele me olhou como se eu fosse um pedaço de carne, Bonnie. Foi agoniante.
—Ah, qual é! Ele é lindo, parece que vive na academia. Por que não dá uma chance ao flerte local?
—Não estou aqui para isso — respondi, fechando a porta do guarda-roupa com um baque seco. —Amanhã cedo começa a investigação. Preciso de foco, não de romances de balcão de hotel. Vamos dormir. A Transilvânia só revela seus segredos para quem está com os olhos bem abertos.
Bonnie riu, mas foi se aprontar. Deitei-me na cama, sentindo o peso do silêncio daquela cidade. Lá fora, entre as árvores da floresta búlgara, eu sabia que algo — ou alguém — estava à espera da minha primeira pergunta.