Pré-visualização gratuita O Retorno.
O carro diminuiu a velocidade ao entrar na estrada estreita que levava ao Morro do Mirante.
Lívia Almeida observava a paisagem pela janela sem dizer uma palavra. Fazia quase oito anos desde a última vez que estivera ali, mas algumas coisas jamais mudavam naquele lugar.
As casas continuavam empilhadas umas sobre as outras.
As vielas estreitas.
As crianças correndo descalças.
O som alto de funk vindo de algum lugar que não dava pra identificar.
E a sensação de que todos sabiam quem estava chegando.
Aos vinte e dois anos, Lívia havia aprendido a esconder o medo.
Vestia uma calça jeans escura, uma regata branca e uma jaqueta preta leve. Os cabelos castanhos estavam presos em um coque despretensioso, mas alguns fios insistiam em cair sobre seu rosto, que observava tudo com atenção.
Ela respirou fundo.
— Faz tempo... — murmurou.
Ao volante, seu tio Marcelo lançou um olhar rápido para ela.
— Ainda dá tempo de desistir.
— Não. — respondeu mais do que de pressa.
— Você sabe que esse lugar não é mais o mesmo.
Ela sorriu de lado.
— Nem eu.
O silêncio voltou a dominar o carro.
Quando passaram pelo primeiro portal improvisado da comunidade, dois rapazes armados fizeram sinal para que o veículo parasse, é de costume todos que chegam ali serem barrados.
Marcelo abaixou o vidro.
— Boa tarde.
Um dos homens reconheceu imediatamente o motorista.
— E aí, Marcão. Respondeu Marcelo já com o vidro baixo.
Depois, seus olhos foram para Lívia.
A expressão dele mudou.
— Quem é ela?
Marcelo respondeu antes que ela pudesse abrir a boca.
— Família.
O rapaz continuou encarando Lívia por alguns segundos.
Pegou o rádio preso ao colete.
— Tem visita subindo.
Do outro lado, apenas uma resposta curta.
— Liberado.
O carro voltou a andar.
Lívia percebeu.
Nada acontecia naquele lugar sem que alguém avisasse antes, nada passa batido dentro da comunidade.
Alguém sempre estava observando.
Sempre.
...
Do outro lado do morro...
Dante Vasconcelos terminava uma reunião.
Com trinta e um anos, era o homem mais respeitado da comunidade, o "dono" daquele lugar.
Media quase um metro e noventa.
Os braços completamente tatuados contrastavam com a camisa preta de mangas dobradas.
O relógio de luxo no pulso parecia insignificante perto da autoridade que transmitia apenas com o olhar.
Ele não precisava levantar a voz.
Quando Dante falava, todos escutavam.
— O carregamento chega amanhã de madrugada.
Ninguém mexe sem minha autorização.
Entenderam?
— Sim, chefe.
Um dos homens entrou apressado.
— Comandante...
Dante levantou os olhos.
— Fala.
— Subiu uma mulher.
Ele franziu a testa.
— E?
— Dizem que é filha do Alexandre.
O silêncio tomou conta do ambiente.
Durante alguns segundos.
Ninguém respirou.
Alexandre Almeida.
Um nome que não era pronunciado havia anos.
Dante levantou lentamente da cadeira.
— Tem certeza?
— Tenho.
Ele caminhou até a janela.
Lá de cima, era possível enxergar quase todo o morro, a visão dali é bem ampla.
As casas.
As lajes.
As ruas.
Tudo.
Se Alexandre realmente tivesse uma filha...
Então alguém havia escondido uma verdade dele durante oito anos.
E isso nunca terminava bem.
...
Enquanto isso...
Lívia desceu do carro em frente à antiga casa da mãe.
O portão continuava enferrujado.
A parede ainda tinha a mesma rachadura, a casa estava com a cor de fora toda desbota, afinal fazia anos que estava fechada.
Parecia que o tempo havia parado.
Ela passou a mão pelo muro.
As lembranças vieram como um soco.
As brincadeiras.
O pai chegando do trabalho.
Os almoços de domingo.
Até o dia em que tudo acabou.
Uma lágrima quase escapou.
Ela limpou antes que caísse.
— Você voltou...
A voz veio atrás dela.
Era Dona Cida.
A vizinha.
Agora muito mais velha.
Os olhos marejaram imediatamente.
— Meu Deus...
Você está igualzinha ao seu pai.
Lívia sorriu emocionada.
As duas se abraçaram.
— Achei que nunca mais pisaria aqui.
— Seu pai dizia que um dia você voltaria.
Ela congelou.
— Meu pai falava isso?
Dona Cida percebeu que havia dito mais do que deveria.
— Esquece...
Foi há muito tempo.
Mas era tarde.
Uma dúvida havia nascido.
Se o pai sabia que ela voltaria...
O que ele havia deixado para trás?
E por que ninguém nunca contou?
...
Na parte mais alta da comunidade...
Dante observava uma fotografia antiga sobre a mesa.
Nela havia três homens.
Ele.
Alexandre.
E outro rapaz.
Todos sorrindo.
Uma foto tirada muitos anos antes de o poder mudar de mãos.
Dante fechou os olhos por um instante.
A voz de Alexandre parecia ecoar na memória.
"Se algum dia acontecer alguma coisa comigo... protege minha família."
Ele nunca conseguiu cumprir aquela promessa.
Porque, poucos dias depois...
Alexandre desapareceu.
E sua esposa fugiu da comunidade levando a filha.
Até hoje.
Dante nunca descobrirá o motivo.
Agora...
Ela estava de volta.
E ele precisava descobrir por quê.
Mesmo que isso significasse desenterrar segredos que jamais deveriam voltar à superfície.