Isabella Narrando
Acordei cedo naquele dia, o corpo ainda meio pesado do sono. Fiz minhas higienes matinais sem pressa, tentando ignorar a sensação estranha que ainda tava grudada em mim desde a briga dos meus pais. Algo tava errado, mas ninguém me contava nada.
Depois de me arrumar, desci pra cozinha pra tomar café. Mas, assim que entrei, estranhei a cena: só meu pai tava sentado à mesa, tomando café sozinho. Minha mãe sempre fazia companhia pra ele de manhã, era quase um ritual deles.
— Bom dia… — falei, puxando uma cadeira e sentando.
Meu pai levantou os olhos pra mim, mas demorou um pouco pra responder.
— Bom dia, filha. Dormiu bem?
Assenti, pegando um pedaço de pão e começando a comer, mas minha mente ainda tava presa no detalhe que me incomodava.
— Cadê a mãe? Ela ainda tá dormindo?
Ele mexeu a xícara de café, parecendo pensar na resposta antes de falar.
— Não, ela saiu cedo. Tinha umas coisas pra resolver.
Franzi a testa, achando estranho. Minha mãe nunca saía sem avisar, e normalmente era ela que preparava o café da manhã pra gente.
— Resolveu o quê?
Ele respirou fundo, desviando o olhar.
— Coisas dela, Isabella. Daqui a pouco ela volta.
Não gostei da resposta vaga, mas deixei quieto. Eu sabia que insistir só ia fazer ele se irritar, e, pela cara dele, já dava pra ver que ele tava com a cabeça cheia.
Foi então que ele soltou:
— Depois do café, se arruma que a gente vai sair.
Levantei uma sobrancelha.
— Sair pra onde?
— Mercado. Comprar umas coisas.
Isso me pegou desprevenida. Meu pai nunca ia ao mercado comigo, era sempre minha mãe que resolvia essas coisas. Ele parecia meio nervoso, o olhar inquieto. Aquela sensação r**m voltou a crescer dentro de mim. Alguma coisa tava errada.
Terminei meu café em silêncio, a sensação estranha ainda grudada em mim. Meu pai tava agindo diferente, e o sumiço repentino da minha mãe só aumentava minha desconfiança. Mas engoli essa inquietação e subi pro meu quarto pra trocar de roupa e pegar minha bolsa.
Me vesti rápido, só um short jeans e uma blusa leve, já que o calor lá fora tava de matar. Peguei minha bolsa e desci de novo pra sala, mas parei no último degrau quando vi meu pai falando no celular.
Ele tava de costas pra mim, a voz baixa, quase sussurrando.
— Já tô saindo… é, vai ser agora…
Franzi a testa, sentindo meu estômago apertar. Assim que ele percebeu minha presença, se virou rápido e desligou o celular na hora, como se tivesse sido pego fazendo algo errado.
— Pronta? — perguntou, tentando agir normalmente.
Eu podia ter perguntado com quem ele tava falando, mas alguma coisa me disse que ele não ia responder. Então só assenti e fui com ele até o carro.
Entramos, ele ligou o motor e saímos da garagem. No começo, o trajeto parecia normal, mas depois de alguns minutos, percebi que ele tava pegando um caminho diferente do mercado.
— Pai, a gente não tá indo pro mercado… — falei, olhando pra ele, que continuava com os olhos na estrada.
Ele apertou os dedos no volante e soltou, seco:
— Cala a boca e só vem comigo.
A forma como ele disse aquilo me fez gelar. Meu pai nunca falava assim comigo. Nunca. Meu coração começou a bater mais rápido. Algo tava muito errado.
Meu coração começou a bater mais rápido, minha respiração ficou curta. Alguma coisa tava muito errada, e quanto mais eu olhava pro meu pai, mais nervosa eu ficava.
— Pai… o que tá acontecendo? — perguntei, minha voz saindo trêmula.
Ele não respondeu. Só apertou ainda mais as mãos no volante, os nós dos dedos ficando brancos. O silêncio dentro do carro era sufocante.
Do nada, ele começou a chorar.
Lágrimas caíam pelo rosto dele, o ombro tremia, e ele fungava enquanto tentava enxergar a estrada. Aquilo me deixou em choque. Meu pai nunca chorava. Nunca.
— Me perdoa, filha… me perdoa pelo que eu tô fazendo… — ele murmurou entre soluços, a voz cheia de culpa.
Meu corpo ficou frio.
— Pai, do que você tá falando?! — gritei, já desesperada.
Ele só balançava a cabeça, como se quisesse sumir dali, como se odiasse a si mesmo pelo que tava prestes a fazer. E antes que eu pudesse perguntar mais alguma coisa, ele pisou no freio com força.
O carro parou bruscamente no meio da estrada, meu corpo foi jogado pra frente, o cinto de segurança travou, me segurando no banco. Meu coração parecia que ia explodir no peito.
Antes mesmo de entender o que tava acontecendo, vi um carro na nossa frente. As portas se abriram, e vários homens desceram armados.
A visão das armas apontadas pra mim fez meu sangue gelar.
— Sai do carro agora! — um deles gritou, com a arma firme na minha direção.
Minhas mãos começaram a tremer, meus olhos foram pro meu pai, esperando que ele fizesse alguma coisa. Mas ele só abaixou a cabeça, derrotado. Foi aí que eu entendi. Aquilo era sobre mim. Meu pai… tinha me entregado.
Meus olhos começaram a arder, o desespero subindo pela minha garganta como um grito preso. As lágrimas vieram sem que eu pudesse controlar, escorrendo quentes pelo meu rosto.
— Pai… por quê? — minha voz saiu fraca, quase sem ar. — Por que você tá fazendo isso comigo?!
Ele ainda não me olhava, só apertava o volante como se aquilo fosse impedir ele de desmoronar de vez.
— Eu não tinha escolha, filha… — ele murmurou, a voz trêmula. — Eu tinha que pagar… se não, eu morria…
A raiva bateu tão forte que meu corpo inteiro tremia.
— Então era isso? Você preferiu salvar sua própria pele do que proteger sua filha?! — minha voz saiu cortante, carregada de mágoa.
Ele fechou os olhos com força, como se cada palavra minha fosse uma facada. Mas eu não parei.
— Sempre disse que faria qualquer coisa pela gente, né? Sempre se fez de pai de família! Mas no fim das contas, me vendeu como se eu fosse um objeto! Como se eu não fosse nada!
Ele começou a chorar mais, o rosto enterrado nas mãos. Mas eu não queria ver ele chorando. Eu queria que ele fizesse alguma coisa.
— Você é um covarde! Eu preferia que você tivesse morrido do que fazer isso comigo!
Ele soluçou, como se eu tivesse acabado de arrancar o resto de dignidade que ele ainda tinha. Mas eu já não me importava mais. Foi então que o silêncio pesado foi quebrado pelo som de uma porta de carro batendo. Levantei os olhos, e meu estômago se revirou. De um dos carros parados na nossa frente, um homem desceu. Ele andava devagar, como se tivesse todo o tempo do mundo. Camisa aberta, tatuagens pelo peito e pelos braços, corrente dourada no pescoço e um olhar que fez meu sangue gelar. Eu não precisava perguntar quem ele era, era ele, d***o. O barulho dos passos dele ecoava no silêncio sufocante. Meu peito subia e descia rápido, o coração martelando contra as costelas. Eu queria acreditar que aquilo era um pesadelo, que a qualquer momento eu ia acordar na minha cama, no meu quarto, e tudo isso não passaria de um delírio da minha cabeça. Mas então, ele parou ao lado do carro.
Minha respiração travou quando ele ergueu a mão e bateu com os nós dos dedos no vidro da janela, duas vezes, como se tivesse toda a paciência do mundo. Meu pai hesitou, mas com os dedos tremendo, destravou o vidro. Ele desceu devagar, e foi aí que eu vi ele de perto. Os olhos dele foram direto pros meus. Um olhar escuro, frio, que parecia me despir, me analisando como se eu fosse algum tipo de prêmio que ele acabou de ganhar.
— Que tipo de homem faz isso com a própria filha, hein, Antônio? — ele perguntou, sem tirar os olhos de mim, mas falando com meu pai. Sua voz era baixa, arrastada, carregada de desdém. — Cê me dá sua própria carne e sangue pra salvar tua pele? Isso é que é ser homem?
Meu pai abaixou a cabeça, sem coragem de responder. Ele sabia que não tinha desculpa pra dar. Minha garganta queimava. Eu queria gritar, queria sair dali correndo, mas meu corpo tava travado. d***o então virou a cabeça levemente de lado, me analisando mais de perto, como se estivesse avaliando um objeto novo.
— Bonita… — murmurou, e aquilo fez meu estômago revirar de nojo.
Fechei os olhos com força, tentando segurar as lágrimas, mas era impossível.
— Olha bem pra ela, Antônio. — Ele apontou o queixo na minha direção. — Porque essa vai ser a última vez que cê vai ver tua filha.
Meu pai soluçou ao meu lado.
— Por favor, só cuida bem dela…
— "Cuida bem dela"… — d***o riu de leve, debochado. — Cê acha que tem moral pra pedir alguma coisa?
Ele então se inclinou mais perto da janela, os olhos cravados nos meus, e disse, sem pressa:
— A partir de agora, cê não tem mais família. Não tem mais casa, nem vida antiga. Agora… cê é minha.
Meu peito subiu e desceu rápido, um nó gigantesco na garganta.
— N-não… — tentei murmurar, mas minha voz saiu baixa demais, sufocada pelo desespero.
Mas ele apenas sorriu, como se já soubesse que não tinha mais volta.