CAPÍTULO 3
Toda mente tem uma porta. Eu sou a chave certa.
Flashback minha chegada em São Paulo.
O céu ainda estava escuro quando o avião começou a perder altitude.
A cidade lá embaixo piscava como um campo de guerra prestes a me receber.
São Paulo me esperava.
Com todas as suas feridas expostas.
E eu... com minha fome silenciosa.
Meu celular vibrou no bolso interno do paletó.
Chamada de vídeo.
Matheus – velho bastardo.
Atendi.
— Você já pousou? — perguntou com um sorriso apressado.
— Tô taxiando. Cinco minutos. — respondi baixo, olhando pela janela.
— Estou te esperando no saguão. O carro está pronto. E a casa… Max, a casa ficou exatamente como você queria.
Fechei os olhos por um instante. E então…
Abri um sorriso enviesado. O tipo de sorriso que só sai quando a mente cria mais de uma versão pra mesma cena.
Lá de cima, as luzes da cidade pareciam constelações caídas. Cada ponto iluminado… uma história f0dida esperando por mim.
Uma mulher com a calcinha encharcada de culpa.
Um marido que finge amar a esposa, mas g0za pensando na estagiária.
Uma advogada que chora escondida no banheiro do fórum.
Um juiz corrupto com pesadelos noturnos.
Uma influencer com depressão sorrindo pra câmera.
Diz aí... você é qual desses?
O traído?
O traidor?
A desesperada?
Ou só mais um curioso querendo saber até onde eu vou me sujar?
Pois eu já te digo: eu vou até o fim.
[Flashback – Três meses antes]
— Max, escuta… você precisa sair dessa rotina de clínica de luxo enlatada.
São Paulo tá gritando por alguém como você — disse Matheus, naquela primeira ligação.
Eu estava em Lisboa, com uma taça de vinho na mão e a paciência esgotada. Eu nunca fico mais que um ano no mesmo lugar.
— São Paulo grita por tudo. Inclusive por silêncio. Falei pro Matheus.
— Exato. E por isso mesmo. Aqui tem mulher com grana e trauma.
Homem com vício em controle e falta de toque.
Gente que sorri em rede social e chora no banho.
Deixei a taça sobre a mesa e fiquei em silêncio por um segundo.
— Vai direto ao ponto. O que você tem?
— Uma casa. Pequena, mas perfeita. Dois andares.
Você pode trabalhar embaixo e morar em cima.
Sala ampla. Quintal. Privacidade total.
E com o seu toque, Max… vai virar templo.
— Se for apartamento, nem perca meu tempo.
— Não é. É casa.
E tem um detalhe: dá pra transformar os fundos em sauna, uma sala de espelhos ou o que quiser.
Quer ver as fotos?
— Manda.
O arquivo chegou.
E ali, diante da fachada simples com janelas altas, portão de ferro antigo e uma porta de madeira escura, meu corpo respondeu antes da mente.
— Essa casa tem cheiro de pecado.
— E você vai ser o padre — riu ele.
— Compra. Em meu nome. Hoje. Escritura com cláusula de confidencialidade.
— Sempre você com seus segredos...
— Não são segredos. São fronteiras.
[De volta ao presente]
O avião finalmente parou. O aviso do cinto soou,
mas minha mente já estava do lado de fora.
Matheus me esperava.
E a casa... também.
Três semanas depois da compra
Meu cartão de crédito gemeu — mas com prazer.
Comprei cada peça de mobília como quem escolhe armas para uma guerra invisível.
Cada móvel era cúmplice. Cada detalhe, uma armadilha.
A recepção seria ampla, com poltronas grafite,
uma lareira falsa com aquecimento e som ambiente constante.
Nada de luz branca.
Luz branca revela. E eu prefiro provocar.
Luminárias âmbar, reguláveis. Calor visual.
Sedução sensorial.
Terapia não é cura. Terapia é exposição. E dor bem conduzida.
A sala de massagem?
Colchão térmico, óleos essenciais, toalhas negras.
Cada sessão ali seria uma dança entre toque e revelação.
Nos fundos, a sauna. Pequena. Isolada.
Ideal para abrir poros — e soltar verdades presas na carne.
No andar de cima, meu quarto.
Cama king. Cabeceira rústica.
Banheira de imersão com vista para o jardim.
Um quarto onde ninguém dorme antes de sangrar.
Adicionei:
Sala de espelhos: para encarar quem finge que não sente.
Sala escura com projeção sensorial: hipnose, regressão, quebra.
Depósito de memórias: com estantes numeradas para guardar o que meus pacientes não conseguem carregar.
Cozinha compacta, moderna. Para preparar um chá amargo, um vinho quente ou um café que pareça veneno — depende do dia.
Cada cômodo. Cada lâmpada. Cada som.
Tudo fazia parte do processo.
Ali não haveria aleatoriedade.
A terapia começaria na campainha.
Saí até a sacada. A casa tinha isso. Um detalhe que ninguém mais notaria, mas que pra mim... era tudo.
Ficava numa pequena elevação do terreno. E dali... eu via as luzes da cidade, como se fosse Deus olhando o próprio campo de pecados.
Cada luz…
Uma mente fodida.
Um segredo m*l enterrado.
Um corpo querendo sentir… ou esquecer.
Eu sorri.
Esse era o meu novo altar.
E a cidade… meu novo rebanho de almas quebradas.
O celular vibrou de novo enquanto eu pegava a mala.
Nova mensagem de Matheus:
“A casa está viva. Falta só você pra ela respirar.”
Sorri.
Aquele sorriso que mistura desejo, estratégia e um quê de premonição.
Olhei pela janela do aeroporto.
A cidade pulsava.
E eu...
Eu já sentia o cheiro da próxima mente quebrada.
Do próximo gemido vindo de um trauma curado.
Do próximo olhar perdido… buscando redenção.
Sim.
Essa casa vai me engolir.
E eu…
Vou devorar cada alma que entrar nela.
Matheus me esperava de pé, encostado na parede de vidro do saguão,
com um café na mão e um sorriso de quem sabia que havia vencido.
— Bem-vindo ao seu novo império, filho da put4 — disse ele, abrindo os braços.
Sorri de canto e abracei com uma palmada nas costas.
— Já estou pronto pra pecar em português.
Caminhamos até o carro.
Um sedã preto discreto, como tudo que eu gostava.
Durante o trajeto, Matheus falava animado sobre os detalhes finais da obra.
Eu ouvia em silêncio, observando a cidade pelas janelas.
— As poltronas da recepção chegaram ontem. Couro grafite, igual você pediu. Já coloquei naquela posição estratégica… de frente pra porta.
Eu dei um sorriso discreto.
“É… de frente pra porta... pra que a primeira coisa que elas sintam… seja o desconforto de estar à vista… e o desejo involuntário entre as pernas, sem saber o porquê.”
Enquanto ele falava de rodapés e revestimentos…
Eu só imaginava a primeira mulher que fosse sentar naquela poltrona.
Com a perna cruzada... tentando controlar a respiração...
Sentindo o corpo molhar sem entender de onde vinha aquele maldito desejo.
São Paulo era uma selva. E toda selva precisa de um predador.
Trinta minutos depois, a casa surgiu diante de mim.
Exatamente como imaginei.
Discreta, sólida, viva.
Passei pela porta de madeira e respirei fundo.
Ela tinha cheiro de tinta nova misturado com promessa antiga.
Cada cômodo parecia ter sido esculpido pelas minhas ideias.
A recepção. A sauna. O quarto. A sala de espelhos.
Estava tudo ali.
Pronto para receber as sombras mais bonitas que essa cidade tinha a oferecer.
— Quer um tempo aqui ou vamos comemorar? — perguntou Matheus.
— Vamos comemorar. Mas em um lugar com vinho seco, música baixa…
e gente quebrada tentando parecer inteira.
— Eu conheço o lugar.
— Eu sei que conhece.
E saímos.
São Paulo era uma selva.
E eu já estava faminto.
Pisei dentro da Velvet Room e foi como mergulhar direto na essência crua de São Paulo.
Luz baixa. Vermelha, roxa, com cortes de LED pulsando nas paredes como se o próprio lugar tivesse veias expostas.
O cheiro era uma mistura de álcool barato, perfume doce demais e suor de gente desesperada pra sentir alguma coisa.
Meus olhos correram pelo salão com a mesma calma com que um predador analisa o ambiente antes de atacar.
Casais se amassavam encostados nas colunas laterais. Línguas invadindo bocas como se aquilo fosse uma guerra.
Homens com os olhos famintos encarando os decotes mais fundos. Mulheres com vestidos curtos, rebolando como se cada passo fosse um convite e uma recusa ao mesmo tempo.
As dançarinas no palco... Ah, aquelas... com as pernas brilhando de óleo, os quadris marcando o ritmo da música como se soubessem que alguém como eu estava olhando.
E eu olhava.
Cada uma delas era uma história quebrada que fingia ser inteira por algumas horas de música alta.
Uma em especial, de saia curta e cabelo preso num coque malfeito, passou por mim com o olhar perdido... mas o corpo dela sabia que eu tava ali.
O p4u endureceu antes da consciência permitir.
Não era por elas. Era pelo efeito. Pelo conjunto. Pelo caos.
Aquele lugar não era uma boate. Era um laboratório de impulsos primitivos.
Sex0, culpa, medo, desejo, embriaguez.
Todo mundo ali só queria um motivo pra g0zar... ou pra chorar escondido no banheiro depois.
E eu?
Eu queria os dois.
Porque no fundo... eu não vim pra me divertir.
Eu vim pra caçar.
Mas fui caçado, e São Paulo... Me destruiu.