CAPÍTULO 05 — LAVÍNIA

1659 Palavras
Quando encaro meu reflexo no espelho noto meu rosto avermelhado. Coloco uma mão no meu coração e não entendo o motivo de batimentos tão acelerados, nem do porque aquele olhar magnético e o sorriso sem vergonha não saem da minha mente. Seu toque também é difícil de esquecer, as mãos em minha cintura foi algo que eu nunca senti antes – ninguém me tocou de forma tão decidida e firme. Eu sinto como se minha pele queimasse e confirmo quando toco minha testa e noto a pele ardendo e quente. Preciso lavar meu rosto com água gelada e respiro fundo, acalmando meus batimentos. No mínimo, eu consegui não agir como uma garotinha i****a. Não demonstrei o quanto fiquei encantada com os olhos cor de mel, os cabelos claros, o tamanho do homem que mais parece vindo do céu porque tem o físico forte de um anjo. Não demonstrei como meu coração acelerou com o seu olhar, em especial quando desceu para a mancha em meu decote. Não sou uma mocinha apaixonada que perde a dignidade por um rostinho bonito. Passo um pouco de água na mancha e esfrego, mas demorei tanto de conseguir chegar no banheiro que não parece ajudar muito. De qualquer forma não há mais muito o que fazer, então saio de volta para a mesa onde já tínhamos pedido o mesmo almoço de sempre e agora vejo que meus colegas começaram a comer sem mim. — Nem me esperaram, seus mortos de fome. — Brinco, sentando de volta em minha cadeira e já me ajeitando para começar a comer, cobrindo minhas coxas com o guardanapo. — Você estava ocupada demais, minha amiga. — Thalita não esconde o ar de riso, me fazendo encara-la com a cara feia. — Pelos céus, que homem foi esse? — Não vi nada demais. — Luiz dá de ombros, me fazendo perder a marra porque não consigo me manter séria com sua clara expressão de inveja. — Nada demais? O homem faz qualquer um perder a fala. — Thata volta a elogiar o médico. — Sua sortuda! Como foi sentir aqueles braços ao redor de você? — Pareço alguém que se derrete por não aguentar uma pegada? É preciso bem mais que isso. — Continuo mais entretida com a comida. — Mas vamos comer, temos trabalho para fazer e é bem mais importante que os braços do Sr. Bowman. — Bowman? — Minha amiga parece realmente interessada nele, sua questão é mais para si mesma que para mim, com um sorriso nos lábios. — Você realmente não tem interesse nele? Paro alguns segundos, pensativa demais para o que eu realmente deveria estar e sabendo que Thalita espera uma resposta para provavelmente investir no médico. Engulo seco, sentindo algo estranho dentro de mim, uma pontinha de desgosto talvez. Mas seria ridículo dizer que estou interessada em um desconhecido apenas porque ele se parece com um deus. — É claro que não, Thalita. Até parece que você não me conhece. — Reviro os olhos fingindo estar totalmente desinteressada no assunto. — Agora pare de pensar em homem e termine de comer. — Eu concordo. — Luiz já não estava muito animado com o assunto, agora aproveita o momento para apoiar a mudança do tema da conversa. — Sim, meritíssima. — Thalita ergue as mãos em rendição antes de voltar a comer. Eu a encaro, apesar dela ter usado “meritíssima” e não “excelência”, o termo me lembra a forma que Ethan falou. Agora acabo de tirar meu time de campo por um certo orgulho e deixando o caminho livre para a minha amiga, ou seja, não há como voltar atrás sem ser uma babaca. Mesmo que meu interesse no psicólogo tenha sido puramente s****l, não há como mudar agora. ••• Voltamos os três para o fórum e eu coloco minha toga por cima da roupa para cuidar dos muitos e muitos casos que preciso me inteirar. Sempre gosto de estar por dentro do que vem pela frente, há casos grandes vindo por aí e eu preciso estar preparada – a justiça sempre será meu objetivo principal e não posso deixar de alcança-la por conta de desatenção. — Preciso que cuide dos advogados que estão vindo falar sobre o caso de Betty Martins, e claro, não esqueça de anotar qualquer detalhe importante. Vamos discutir opiniões depois. — Ordeno a Thalita que é minha assessora jurídica. — Aquela que matou o marido? — Exatamente, escute atentamente, ainda há algumas peças desse caso que precisamos confirmar. Você sabe o que fazer. — Quando digo que escute, não é escutar apenas com os ouvidos. As pessoas dizem o que querem, em especial advogados na tentativa de fazer seus clientes serem inocentes – mas palavras não mudam os fatos. Nesse momento estou pedindo que Thalita use bem seus instintos para tentar pegar no ar algum detalhe que deixem escapar, nos olhos, em alguma resposta não pensada, nos gestos, qualquer coisa que possa ser útil para uma percepção maior do caso. — Como quiser, meritíssima. — Thalita dessa vez fala muito profissionalmente ao invés de só tentar caçoar de mim. Ela acena com a cabeça e logo após receber sua função da tarde, caminha em direção a saída, mas parece se lembrar de algo e resolve retornar alguns passos. — Tem compromisso após o trabalho? — Não, depois daqui vou direto para casa. — Acho que precisamos espairecer um pouco. Que tal visitar uma boate, procurar um homem ou mulher para nos distrair essa noite? — Sugere. A ideia não é r**m e realmente penso sobre isso. Um homem é muito bom, eles são realmente deliciosos e eu tenho preferência por eles. Mas, eu também já tive experiências sexuais com mulheres apesar de não me envolver sentimentalmente. Sou bissexual, apesar da preferência por homens, mas hoje acho que seria interessante encontrar alguma mulher atraente para nos divertirmos. No fim, o que importa é que nos entendamos. — Acho uma ideia excelente. — Admito, aceitando o convite. — Chame Luiz e vamos aproveitar um pouco, nós merecemos. — Pode deixar. — Se empolga. — Até logo então, vamos adiantar. — E não esqueça de se concentrar no trabalho, só para frisar. — Recomendo antes da minha amiga deixar a minha sala. Claro que sair com o nosso trio completo para uma noitada me empolga, mas meu trabalho sempre vai ser a prioridade e é nele que me concentro. Tenho uma mente excelente que me ajuda a fixar coisas importantes, por isso, casos antigos que foram de aprendizado sempre me ajudam a enfrentar o próximo. O que irei julgar atualmente será de uma mulher que matou o marido. Os pontos da defesa dela são consistentes, irão obviamente focar nos maus tratos físicos que ela sofria e o perigo que o homem representava para a filha do casal. Como mulher, se ficasse comprovado as agressões eu claramente iria entender, mas se ela cometeu um assassinato ainda assim haverá uma punição por lei. Aí entrará legitima defesa e outros pontos que precisam ser analisados cuidadosamente depois das provas e testemunhos. Apesar de eu ser uma defensora feminina, eu defendo em primeiro lugar a justiça. Meu dever é garantir que as leis do estado norte-americano sejam cumpridas e não defender que a justiça seja feita pelas próprias mãos, mesmo que por muitas vezes eu seja tentada a isso também. As pessoas buscam ser suas próprias justiceiras a medida que não conseguem a justiça sozinhas – mas é para isso que estou aqui, com toda a minha honestidade, para garantir que não precisam mais fazer isso no que depender de mim. Porém, nesse caso, eu infelizmente vejo sinais de que essa mulher é a errada aqui. Espero muito estar errada, pois isso me irritaria e muito. Como mulher, eu sempre defenderei os direitos do nosso sexo, mas não apenas de um sexo, ou isso não seria a imparcialidade que eu prego. Homem ou mulher, será julgado com a mesma gentileza. Minha irritação no caso em si, é a desconfiança de que a mulher está mentindo sobre as agressões – como é um dos pontos do advogado de acusação. Há tantas mulheres sofrendo verdadeiramente com isso, sendo espancadas, agredidas, até mortas. Quero que essas mulheres possam se sentir seguras para falar, para buscar justiça, que elas sejam ouvidas. Mas quando mulheres mentem, usam isso como forma de se livrar de algum problema ou até conseguir fama, estão nos fazendo regredir muitos passos e infelizmente nem eu posso impedir a interrogação que colocam em cada mulher. Por isso, se essa mulher realmente estiver mentindo, ela terá que me enfrentar. Enfim, depois de um dia exaustivo onde só termino tudo e saio do fórum mais de oito da noite, vou para casa me arrumar para nosso compromisso. Vou sempre me comunicando no grupo que há apenas eu, Thalita e Luiz, para acertarmos qual boate iremos hoje. Decidimos ir de Uber, é claro, e eu vou adicionar paradas nos endereços dos dois. Escolhi um vestido preto bem noite mesmo e nada a ver com a minha profissão séria. A roupa é justa, com um decote quadrados e mangas longas soltinhas. No corpo é inteiramente justo realçando minhas curvas e deixando as pernas de fora. O tecido do vestido e firme e com pontos de brilho – propositalmente para chamar a atenção na escuridão da boate. Mantenho meus cabelos soltos com as ondas das pontas alcançando a minha b***a. A maquiagem também é mais marcada, condizendo com a ocasião. As sandálias são altas, de salto fino e amarro na panturrilha. Só por último eu distribuo perfume por áreas específicas e chamo o Uber. Desço da minha cobertura para esperar a chegada do carro em questão, cumprimentando brevemente o porteiro do turno de hoje. Felizmente, o motorista não demora muito porque já estava nas proximidades e logo pego primeiro Luiz e por último Thalita – agora todos vestidos a caráter para uma noite que promete.
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