O Bentley deslizou para dentro da garagem privada da Black Industries como uma sombra furtiva. O som dos pneus sobre o concreto polido era um sussurro, mas para Maya Solano, soava como o bater das portas de uma prisão. Quando o motor finalmente silenciou, o vácuo que se seguiu foi preenchido apenas pelo som da chuva que ainda escorria pela lataria do carro.
Zion Black não se moveu imediatamente. Ele permaneceu na penumbra, observando-a. Maya sentia o olhar dele como uma pressão física, um peso que tornava o ato de respirar uma tarefa hercúlea.
— Saia — ele ordenou. A voz não era alta, mas carregava a autoridade de um homem que nunca precisou repetir um comando.
Maya obedeceu. Ao abrir a porta, o ar frio da garagem atingiu seu corpo encharcado, fazendo-a estremecer violentamente. Zion contornou o carro com uma elegância predatória. Ele não ofereceu a mão; ele simplesmente parou ao lado dela, a silhueta imponente bloqueando a luz dos refletores de LED.
— O elevador é por aqui — disse ele, indicando uma porta de aço escovado com um leitor biométrico.
Enquanto subiam em silêncio absoluto, o visor digital marcava os andares com uma velocidade vertiginosa. 40... 50... 60. O último andar. O território pessoal de Zion. Quando as portas se abriram, Maya não encontrou um escritório, mas uma residência que desafiava a lógica da arquitetura. A cobertura era um labirinto de vidro e concreto exposto, com móveis de design minimalista que pareciam obras de arte intocáveis. A vista de 360 graus de Manhattan, com suas luzes distorcidas pela chuva, era a única decoração necessária.
Zion caminhou até um bar de mármore n***o e serviu-se de dois dedos de um líquido âmbar.
— Você está tremendo de frio ou de arrependimento, Maya? — Ele tomou um gole, os olhos fixos nela por cima da borda do copo de cristal.
— O arrependimento é um sentimento para quem teve escolha — Maya respondeu, abraçando os próprios braços na tentativa inútil de gerar calor. Seu vestido de algodão estava transparente em alguns pontos, colado à sua pele, mas ela se recusava a se encolher. — Eu estou aqui pela minha mãe. Apenas por ela.
Zion deixou o copo sobre a bancada com um som seco. Ele caminhou em direção a ela, cada passo ecoando no chão de resina. Ele parou tão perto que Maya podia sentir o calor emanando do corpo dele.
— É admirável — ele sussurrou, a voz carregada de um sarcasmo amargo. — O sacrifício da mártir. Mas vamos ser claros, Maya: na minha casa, você não é uma mártir. Você é uma posse.
Ele ergueu a mão e, com uma lentidão torturante, deslizou o dedo indicador pela alça encharcada do vestido dela.
— Você está molhando meu chão de cinco mil dólares o metro quadrado. Vá para o quarto ao fundo do corredor. Há roupas lá. Tome um banho. Tire o cheiro de hospital e desespero da sua pele.
— E se eu não for? — O desafio brilhou nos olhos amendoados dela.
Zion inclinou-se, o rosto a centímetros do dela. O cheiro de sândalo e poder a envolveu, entorpecendo seus sentidos.
— Então eu mesmo tirarei essas roupas de você aqui, neste hall. E acredite, Maya, eu não serei gentil.
A fúria de Maya ferveu, mas a imagem do monitor do hospital, aquela linha vermelha oscilante a deteve. Ela girou nos calcanhares e caminhou em direção ao corredor indicado. Ela sentia o olhar de Zion queimando em suas costas, uma marca invisível que dizia que ela lhe pertencia.
O quarto era maior do que todo o apartamento onde ela vivia com a mãe. A cama king size estava vestida com lençóis de seda cinza-chumbo. No closet, ela encontrou o que ele havia prometido: fileiras de roupas de grife, todas no seu número. Ele havia planejado isso. Ele sabia que ela viria. Ele a havia caçado com a precisão de um engenheiro.
Maya entrou no banheiro de mármore branco e ligou o chuveiro. A água quente atingiu sua pele, mas não conseguiu aquecer o gelo que se formara em seu coração. Ela lavou o cabelo, esfregando o couro cabeludo até doer, tentando apagar a sensação do toque de Zion. Quando saiu, enrolada em um roupão de veludo pesado, sentiu-se como se estivesse vestindo uma armadura de luxo.
Ela voltou para a sala principal. Zion estava sentado em uma poltrona de couro, um tablet nas mãos. Ele havia trocado de roupa; agora usava uma calça de cashmere cinza e uma camiseta preta simples que acentuava a musculatura dos braços. Ele parecia menos um CEO e mais um guerreiro em repouso.
— Sente-se — ele ordenou, apontando para o sofá à sua frente.
Maya sentou-se na ponta do estofado, tensa como uma corda de violino prestes a arrebentar.
— Minha mãe... — ela começou.
— Ela está no centro cirúrgico neste momento — Zion a interrompeu, sem desviar os olhos do tablet. — O Dr. Aris, o melhor neurocirurgião do país, foi trazido por um jato privado. O procedimento começou há dez minutos.
Um suspiro de alívio escapou de Maya, e por um momento, ela baixou a guarda. Lágrimas de gratidão ameaçaram cair, mas ela as engoliu. Ela não daria a Zion a satisfação de vê-la chorar de novo.
— Obrigada — ela sussurrou.
Zion finalmente ergueu os olhos. Havia algo de sombrio e faminto neles.
— Não me agradeça ainda, Maya. Você ainda não pagou a primeira parcela do acordo.
Ele se levantou e caminhou até ela, parando entre as pernas dela enquanto ela permanecia sentada no sofá baixo. Ele colocou as mãos no encosto do sofá, prendendo-a em seu espaço pessoal.
— Você disse no escritório que eu não tinha alma — ele relembrou, a voz descendo para um tom perigosamente baixo. — E você jogou água em mim para provar que era superior. Agora, você está na minha casa, vestindo meu roupão, usando o oxigênio que eu pago. Diga-me, Srta. Solano... onde está sua superioridade agora?
Maya olhou para cima, encarando o abismo n***o dos olhos dele.
— Ela está bem aqui, Zion. Porque mesmo que você me toque, mesmo que você me use, você nunca terá o que realmente quer.
— E o que é que eu quero? — ele perguntou, aproximando o rosto, os lábios quase roçando os dela.
— Você quer que eu te ame — ela sibilou. — Você quer que alguém olhe para o monstro que você se tornou e veja algo que valha a pena salvar. Mas tudo o que eu vejo é um homem tão pobre que só tem dinheiro.
Zion travou o maxilar. A mão dele subiu para o pescoço dela, não para apertar, mas para forçá-la a manter o contato visual. A tensão entre eles era quase insuportável, um fio de eletricidade que ameaçava incendiar a cobertura.
— Amor é uma ilusão para os fracos, Maya. Eu não quero seu amor. Eu quero sua quebra. Eu quero ver o momento em que seus olhos deixarem de brilhar com esse ódio orgulhoso e começarem a brilhar com desejo por mim.
Ele se inclinou mais, fechando o espaço. Maya sentiu a respiração dele, o calor de sua pele, e contra toda a sua vontade, seu coração disparou. Não era apenas medo. Era uma atração primitiva, uma química traidora que ignorava a lógica e a moral.
O telefone de Zion apitou sobre a mesa.
— É o hospital — ele disse, afastando-se abruptamente, cortando a conexão como se nunca tivesse existido. — A primeira fase da cirurgia foi um sucesso.
Ele se virou de costas para ela, a postura voltando a ser rígida e impenetrável.
— Vá dormir. O quarto de hóspedes é seu... por enquanto. Amanhã cedo, o contrato real será assinado. E prepare-se, Maya. A partir de amanhã, o mundo saberá que você é minha assistente pessoal. E você aprenderá que estar ao meu lado é muito mais difícil do que estar contra mim.
Maya observou-o caminhar em direção ao seu próprio quarto, a figura imponente desaparecendo na escuridão do corredor. Ela permaneceu no sofá, tremendo, não de frio, mas da percepção de que a guerra estava apenas começando. Ela salvara a vida da mãe, mas a que custo?
Naquela noite, sob os lençóis de seda de Zion Black, Maya Solano sonhou com o som de água caindo e com olhos negros que a perseguiam através de um labirinto de espelhos. Ela estava presa na jaula de cristal, e a chave estava nas mãos de um homem que esquecera como ser humano.