O SOM DO ABISMO

1520 Palavras
A chuva não caía sobre Nova York; ela desabava como um castigo bíblico. O céu, antes um cinza opaco, tornara-se de um breu profundo, rasgado ocasionalmente por relâmpagos que iluminavam a silhueta gótica dos arranha-céus. Maya Solano estava parada sob a marquise de vidro do Hospital St. Jude, sentindo o frio do mármore atravessar as solas gastas de seus sapatos. O som da água batendo no asfalto era um ruído branco que tentava, sem sucesso, abafar o eco das palavras da Dra. Helena em seus ouvidos. “Temos, no máximo, quatro horas. Depois disso, não haverá cirurgia no mundo que a traga de volta.” Quatro horas. O tempo, que para Zion Black era uma mercadoria de luxo, para Maya era o carrasco que apertava a corda em seu pescoço. Ela olhou para as próprias mãos; elas tremiam violentamente. O cartão dourado de Isabella, que ela guardara no bolso do casaco, parecia queimar contra sua coxa, uma promessa de ajuda que cheirava a veneno. Mas não era Isabella quem estava ali. Do outro lado da rua, estacionado ilegalmente em frente à entrada de emergência, estava o Bentley Continental preto. Suas linhas aerodinâmicas brilhavam sob a chuva, refletindo as luzes vermelhas e azuis das ambulâncias como se fosse uma criatura das profundezas vinda à superfície. As janelas eram tão escuras que era impossível saber se havia alguém lá dentro, mas Maya sabia. Ela sentia a pressão no peito, a mesma eletricidade estática que preenchera aquele escritório monumental horas antes. O celular em sua mão vibrou novamente. Uma nova mensagem de texto. “Três horas e cinquenta e cinco minutos, Maya. A chuva está ficando forte. Eu detesto esperar.” Um soluço seco escapou de sua garganta. Ela odiava a forma como ele usava o nome dela, com uma familiaridade que parecia uma violação. Ela olhou para trás, para as portas duplas do hospital que levavam à UTI onde sua mãe, Elena, lutava por cada grama de oxigênio. Elena, que sempre lhe dissera para nunca baixar a cabeça para ninguém. Elena, cuja honra era a única herança que lhe deixara. — Perdoe-me, mamãe — sussurrou Maya para o vento gélido. Ela desceu o degrau da marquise e entregou-se à tempestade. Em segundos, sua roupa estava encharcada, o vestido de algodão colando-se ao corpo como uma segunda pele fria. Ela atravessou a rua, cada passo pesando como se estivesse carregando o peso do mundo. Quando chegou à calçada oposta, a porta traseira do Bentley abriu-se automaticamente, um convite silencioso para o covil do lobo. O calor que emanava do interior do carro foi o primeiro choque. O cheiro de couro de alta qualidade, tabaco caro e o perfume amadeirado de Zion a atingiram como uma bofetada sensorial. Maya entrou, deslizando para o assento oposto ao dele. A porta fechou-se com um clique abafado e hermético, selando o barulho da chuva e do mundo lá fora. Ali dentro, só existia o silêncio e o homem à sua frente. Zion Black estava sentado na penumbra. A única luz vinha do painel digital do carro e do brilho ocasional dos postes de luz que passavam pelas janelas. Ele não usava mais o terno; estava apenas com a camisa de seda preta, a mesma que ela encharcara. Ele não a trocara. Maya notou, com um nó no estômago, as manchas de água ainda visíveis no tecido escuro, agora levemente secas, mas marcando o território que ela ousara invadir. Ele não olhou para ela de imediato. Ele estava observando um tablet em suas mãos, onde gráficos de batimentos cardíacos os de sua mãe, oscilavam em tempo real. — Você demorou quatro minutos e doze segundos para atravessar a rua — ele disse, a voz sendo um barítono que vibrava através do estofado do carro, alcançando a espinha de Maya. — Eu poderia ter cancelado a reserva do centro cirúrgico três vezes nesse intervalo. — Por que você está fazendo isso? — Maya perguntou, a voz saindo mais firme do que ela esperava, apesar dos dentes que teimavam em bater de frio. — Você tem bilhões. Tem mulheres mais bonitas e submissas à sua disposição. Por que gastar seu tempo torturando alguém que não tem nada? Zion finalmente ergueu os olhos. O ônix de suas pupilas parecia absorver a pouca luz do ambiente. Ele inclinou-se para frente, saindo das sombras. O rosto dele era uma máscara de perfeição c***l. — Porque você jogou água em mim, Maya — ele sussurrou, e a forma como ele disse aquilo não soou como uma reclamação, mas como uma confissão de posse. — Ninguém me n**a nada. E ninguém me ataca sem pagar o preço. Eu não quero uma mulher submissa que concorda com cada palavra minha. Eu quero quebrar a mulher que acha que a honra vale mais do que a vida. Ele estendeu a mão. Maya recuou instintivamente contra a porta, mas não havia para onde ir. Os dedos longos e quentes de Zion alcançaram uma mecha de cabelo molhada que caía sobre o rosto dela, afastando-a com uma delicadeza que era mais aterrorizante do que uma agressão física. O toque dele queimava como gelo seco. — Você está tremendo — ele observou, o polegar roçando a linha da mandíbula dela. — É medo ou é o frio? — É nojo — ela sibilou, embora o seu corpo estivesse reagindo de uma forma que ela não conseguia controlar. O calor dele era magnético, uma força de gravidade que a puxava para o abismo. Zion soltou um riso curto, um som sombrio que não chegou aos olhos. — Nojo é um luxo que você não pode mais pagar. Olhe para o tablet, Maya. Ela olhou. A linha vermelha que representava a pressão arterial de Elena Solano deu um salto errático. Um aviso em amarelo piscou na tela: Instabilidade Crítica. — Um comando meu, e os médicos entram naquela sala agora — Zion disse, sua mão agora descendo para o pescoço de Maya, sentindo o pulso acelerado dela sob a pele fina. — Um comando meu, e eles desligam as máquinas e alegam falha técnica. O poder de vida e morte da sua mãe está na ponta dos meus dedos. O que você vai fazer para me convencer a apertar o botão de 'salvar'? Maya fechou os olhos, sentindo as lágrimas quentes finalmente transbordarem e se misturarem à água da chuva em seu rosto. Ela estava em uma jaula de luxo, com um monstro que conhecia cada uma de suas fraquezas. Ela se lembrou da promessa que fizera a si mesma de nunca se vender, de nunca deixar que o mundo a corrompesse. Mas a imagem de sua mãe sorrindo, de Elena costurando sob a luz de um abajur velho, apagou qualquer rastro de resistência. — O que você quer? — ela perguntou, o som sendo pouco mais que um sopro de derrota. Zion sorriu. Foi um sorriso de vitória absoluta, o sorriso de um rei que acabara de conquistar o último bastião de resistência de um reino inimigo. Ele deslizou a mão para baixo, o toque subindo pela lateral do corpo molhado de Maya, sentindo a curva de sua cintura, a firmeza de seus músculos sob o vestido encharcado. — Eu quero o que você se recusou a me dar no escritório — ele disse, a voz tornando-se mais rouca, mais densa. — Eu quero a sua rendição total. Mas não aqui. Não como uma pedinte de rua. Ele bateu no vidro que separava o motorista. — Para a cobertura. Agora. O carro acelerou, deslizando silenciosamente pelas ruas inundadas de Nova York. Maya olhava pela janela, vendo as luzes da cidade passarem como fantasmas. Ela sentia a mão de Zion ainda em seu corpo, uma presença constante e possessiva que reivindicava cada centímetro de sua pele. Ela sabia que, ao entrar naquela cobertura, a Maya Solano que jogara água no rosto de um bilionário deixaria de existir. Lá fora, a tempestade rugia. Dentro do Bentley, o silêncio era interrompido apenas pela respiração pesada de Maya e pelo olhar predatório de Zion Black, que não se desviava dela por um segundo sequer. O jogo havia mudado. A dívida estava sendo cobrada. E o preço da honra era muito mais alto do que ela jamais imaginara. — Você acha que eu sou um monstro, não é? — Zion perguntou de repente, sua voz cortando o silêncio com uma nota de curiosidade quase infantil, contrastando com a brutalidade de suas ações. — Eu não acho, Zion. Eu tenho certeza. — Ótimo — ele respondeu, puxando-a para mais perto, forçando-a a encarar o abismo em seus olhos. — Porque monstros são os únicos que sobrevivem neste mundo. E eu vou ensinar você a sobreviver, Maya. Mesmo que eu tenha que te destruir primeiro para reconstruí-la à minha imagem. Ao longe, o brilho da torre da Black Industries surgiu entre as nuvens, uma agulha de vidro n***o apontando para o céu, onde o destino de ambos estava prestes a ser selado por um contrato que não seria escrito com tinta, mas com desejo, ódio e os fragmentos de um passado que nenhum dos dois conseguia mais ignorar.
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