O trem de pouso do jato tocou a pista clandestina de Chamonix com um solavanco que fez Maya segurar firmemente nos braços da poltrona. Lá fora, o mundo era um borrão branco e violento. A nevasca batia contra a fuselagem como se quisesse arrancar o metal com as unhas. Assim que a porta do avião se abriu, o ar gelado invadiu a cabine, cortando a pele como mil lâminas de vidro.
Zion ajustou a máscara térmica sobre o rosto e verificou o visor do seu tablet tático. O brilho azul da tela iluminava suas feições endurecidas.
— O sinal está limpo. Por enquanto — disse ele, a voz abafada pelo material da máscara. — Mas não se engane, Maya. Marcus sabe que o pássaro pousou. Ele só não sabe em qual ninho.
Eles desceram a escada metálica. Um SUV preto, equipado com correntes nos pneus de neve, esperava com o motor ligado, soltando colunas de fumaça densa no ar gélido. Zion ajudou Maya a subir e assumiu o volante.
— Para onde vamos agora? — Maya perguntou, os dentes começando a bater apesar do traje térmico de Kevlar. — Genebra fica a mais de uma hora daqui, e com essa neve...
— Não vamos pela estrada principal. Vamos pelo desfiladeiro de Col de la Forclaz — Zion engatou a marcha, e o veículo rugiu, mergulhando na escuridão branca. — É uma rota de contrabandistas. Íngreme, perigosa e invisível para os radares de satélite que Marcus está monitorando.
O SUV subia a montanha com dificuldade, os faróis m*l conseguindo penetrar dois metros à frente. Maya observava o perfil de Zion. Ele parecia uma estátua de gelo, os olhos fixos na estrada invisível, as mãos enluvadas apertando o volante com uma força que fazia o couro ranger.
— Você está pensando nele, não está? — Maya rompeu o silêncio. — Em como ele pôde fazer isso depois de tantos anos.
Zion soltou uma risada curta e seca, sem qualquer humor.
— Marcus não era apenas meu segurança, Maya. Ele foi o homem que me tirou de uma briga de facas em Marselha quando eu ainda não tinha nada. Eu dei a ele uma fortuna, uma identidade, a minha confiança. Eu o tratei como o irmão que eu nunca tive.
— O poder corrompe, Zion. Talvez os Lancaster tenham oferecido algo que você não podia dar.
— Os Lancaster ofereceram a ele a única coisa que um homem como Marcus valoriza mais que a lealdade: a chance de se tornar o Rei. Eles prometeram a ele o meu lugar. — Zion virou o volante bruscamente para desviar de uma rocha caída. — Mas para sentar no meu trono, ele primeiro tem que sobreviver ao meu inverno.
De repente, Zion pisou no freio. O SUV deslizou alguns metros no gelo antes de parar completamente. À frente, uma árvore imensa atravessava a estrada estreita, coberta por uma camada espessa de neve fresca.
— Droga — Zion sibilou, a mão descendo instantaneamente para a arma no coldre.
— O que foi? A neve derrubou a árvore? — Maya perguntou, o coração acelerando.
— Olhe para o corte, Maya — ele apontou com o queixo.
Maya estreitou os olhos. Através do para-brisa, ela viu que as bordas do tronco não estavam estraçalhadas pelo peso da neve, mas cortadas de forma limpa. Serra elétrica.
— É uma armadilha! — ela gritou.
No mesmo instante, o vidro traseiro do SUV estilhaçou-se. O som de um rifle de precisão ecoou pelas paredes do desfiladeiro.
— Abaixe-se! — Zion agarrou Maya pelo ombro, empurrando-a para o espaço entre os bancos.
Mais dois tiros atingiram a blindagem da porta do motorista. Zion pegou o rádio de alta frequência.
— Eles estão nos flancos! Marcus, eu sei que você está ouvindo. Você sempre foi um péssimo caçador!
A estática do rádio clareou, e uma voz fria e familiar preencheu o carro.
— Zion... você sempre teve o hábito de subestimar os seus alunos. Eu não quero o seu sangue hoje. Só quero o diário e a garota. Entregue-os e você pode caminhar de volta para Chamonix. Você morre de frio, mas pelo menos morre com honra.
— Honra é uma palavra muito grande para a boca de um traidor, Marcus — Zion respondeu, o olhar fixo em um ponto na encosta acima. — Maya, você confia em mim?
— Você sabe que sim — ela respondeu, a voz trêmula, mas firme.
— Quando eu abrir a porta, você vai rastejar para o banco do motorista. Eu vou sair para atrair o fogo. No momento em que eu disparar o primeiro sinalizador, você acelera. Não olhe para trás. Se eu não te alcançar em cinco minutos, você segue o GPS até o ponto de extração em Martigny.
— Eu não vou te deixar sozinho na neve! — Maya protestou, os olhos cheios de lágrimas.
Zion virou-se para ela, a expressão suavizando por um milésimo de segundo. Ele tocou o rosto dela com a mão enluvada.
— Você é a única razão pela qual eu ainda estou de pé, Maya. Se eles te pegarem, a guerra acaba. Se você fugir, eu posso lutar como o monstro que eles criaram. Agora vá!
Zion chutou a porta do motorista e rolou para fora, desaparecendo na névoa branca enquanto as balas riscavam o ar sobre sua cabeça. Maya sentiu o frio invadir o carro, mas a adrenalina tomou conta. Ela se arrastou para o banco da frente, as mãos suadas segurando o volante gelado.
Lá fora, o som de tiros de pistola e rifles criava uma sinfonia de morte nas montanhas. Então, um clarão vermelho iluminou a nevasca. O sinalizador.
Maya pisou no acelerador. O SUV patinou, as correntes triturando o gelo, e avançou sobre a beirada da estrada para contornar a árvore caída. Ela olhou pelo retrovisor e viu vultos se movendo na neve, a silhueta de Zion disparando enquanto recuava para trás de uma rocha.
Ela deveria seguir. Deveria ir para Martigny. Mas o pensamento de Zion sendo enterrado naquela neve branca e solitária era insuportável.
— Nem morta, Zion. Nem morta — ela murmurou para si mesma.
Em vez de seguir caminho, Maya puxou o freio de mão, girando o SUV em um ângulo de 180 graus, usando a traseira blindada do veículo como escudo para a posição onde Zion estava encurralado. Ela abriu a porta do carona.
— ENTRE! AGORA! — ela gritou a plenos pulmões.
Zion, surpreso pela manobra, não hesitou. Ele correu sob o fogo cerrado e mergulhou para dentro do carro. Maya acelerou antes mesmo de ele fechar a porta. Uma bala atingiu o encosto de cabeça do banco que ele ocupava segundos antes.
— Você é a mulher mais teimosa e perigosa que eu já conheci — Zion disse, ofegante, recarregando sua arma enquanto limpava a neve do rosto.
— E você é o homem que disse que nunca mais haveria segredos entre nós — Maya rebateu, o rosto vermelho de frio e determinação. — Se vamos para o inferno, Zion, vamos no mesmo carro.
Zion olhou para ela, e pela primeira vez em muito tempo, um sorriso genuíno, embora sombrio, cruzou seus lábios.
— Então acelere, Maya. Genebra nos espera. E Marcus acaba de descobrir que o lobo tem uma companheira à altura.