Capítulo 2: Flores para um Funeral

1075 Palavras
O carro preto deslizava pelas ruas da cidade como uma sombra silenciosa. O som do motor era um sussurro quase imperceptível diante da tempestade que rugia dentro de Caio. No banco ao lado, repousava o buquê de lírios brancos que ele acabara de comprar. Tão limpos, tão delicados. Tão contraditórios ao que representavam. Não havia poesia naquele gesto. Não para ele. As flores não eram uma homenagem, mas um lembrete. Um aviso silencioso. Aquele homem estava morto porque precisava estar. Era o código. Era o acordo. E Caio nunca falhava. Mas o que o incomodava não era o ato. Era ela. A mulher da floricultura. Rosa. Nome clichê, pensou. Mas nada nela era comum. Havia algo naquela mulher que desafiava sua frieza. Uma aura suave, como um sussurro num campo de batalha. Enquanto falava com ela, Caio sentiu o controle escorrer por entre os dedos. Não por medo. Mas por desejo. Desejo de tocar algo que não pertencia ao seu mundo. Quando ele deixou a loja, levou mais do que flores. Levou um fantasma com cheiro de jasmim e olhos tristes. Naquela mesma noite, Rosa se despiu em silêncio. A camisola de algodão caiu pelos ombros e ela deixou a brisa tocar sua pele. Não sabia por que estava tão inquieta. Deveria estar dormindo, mas seus sentidos estavam aguçados como se algo dentro dela tivesse despertado de um longo torpor. Ela deitou-se, mas não fechou os olhos. As imagens vinham em flashes: o olhar escuro de Caio, o modo como seus dedos tocaram as pétalas do buquê, com brutalidade contida. Havia algo erótico naquela força reprimida, algo que a deixava trêmula. E então, sem se dar conta, seus dedos deslizaram pela pele, evocando a lembrança daquele olhar. Quente. Ameaçador. Irresistível. Ela gemeu baixinho, mordendo os lábios, como se o próprio Caio a observasse da escuridão. A sensação de perigo aumentava seu prazer, como se o medo fosse parte da entrega. Mas não era apenas desejo. Era fome. Na manhã seguinte, Rosa encontrava-se novamente na loja, arrumando os girassóis quando o sininho da porta tocou. Ela virou-se. Era ele. Caio entrou com a mesma presença de sombra, vestindo preto, olhar indecifrável. Dessa vez, não havia palavras. Ele se aproximou, e ela soube — soube — que algo estava prestes a mudar. — Voltei. — Sua voz era baixa, grave, quase uma promessa. Ela engoliu em seco, tentando manter a calma. — Posso ajudar? — Pode. Mas não com flores. Rosa sentiu o sangue correr mais rápido. Ele estendeu um papel com um endereço. — Quero que leve flores lá. Amanhã. Mesma hora. — Isso não é comum... — Você também não é comum, Rosa. O modo como ele dizia seu nome era uma carícia rude. E antes que ela pudesse recusar, ele saiu, deixando para trás um cheiro de couro, misturado com perigo. Na mesa, o papel com o endereço queimava seus dedos. E ela sabia que iria. Mesmo que fosse o caminho para a escuridão. Na manhã seguinte, o céu estava encoberto, o tipo de cinza que antecede a tempestade. Rosa usava um vestido simples, florido, contrastando com a melancolia do clima. Ela dirigia devagar, tentando controlar o tremor nas mãos. A entrega era simples — buquê de lírios e rosas negras. Mas o local indicado no bilhete a fez hesitar: uma casa afastada, com cercas altas e seguranças na entrada. Assim que estacionou, um dos homens se aproximou. Olhou para o buquê e depois para ela. — Rosa? — perguntou com um sotaque pesado. Ela apenas assentiu. O portão se abriu lentamente. Foi levada até uma sala silenciosa e luxuosa. O cheiro de madeira antiga e incenso pairava no ar. Caio estava lá, de costas para ela, observando algo pela janela. — Você veio — disse ele, sem virar. — Eu disse que viria. Ele se virou devagar. Estava sem o paletó, mangas arregaçadas, tatuagens à mostra. Rosa sentiu o calor subir pelo corpo. — As flores são para outra coisa agora. — Ele se aproximou, tirando o buquê das mãos dela com delicadeza. — Hoje, são pra você. Ela não entendeu. Até sentir os dedos dele tocarem seu queixo, erguendo seu rosto. O olhar dele queimava. Um convite. Um desafio. — Você não sabe no que está se metendo, Rosa. — Sei sim. No perigo. — E por que veio? Ela encarou seus olhos escuros. — Porque flores também têm espinhos. O beijo veio como uma explosão. Não houve doçura, só urgência. Ele a puxou contra si, mãos firmes, boca faminta. Ela respondeu com a mesma sede, o corpo se acendendo sob o toque dele. Foi encostada na parede fria, as mãos dele explorando sua pele como se cada centímetro fosse território conquistado. Os gemidos dela com um único beijo se misturavam ao som da chuva que começava a cair lá fora. Ali, entre flores, sombras e , o primeiro beijo, laço entre Rosa e Caio foi selado. Não com promessas. Mas com desejo. Quando Rosa abriu os olhos, ainda ofegante, os dedos dele percorriam lentamente a curva de sua dos seus lábios, como se a estudasse. A intensidade entre eles havia se transformado em silêncio, mas não em paz. — Isso foi loucura — ela sussurrou, olhando para o teto ornamentado. Que beijo foi esse, pensava ela! — Talvez. — Ele não parecia arrependido. — Mas eu não sou um homem de recuar. Ela virou-se, apoiando-se no cotovelo para encará-lo. — E o que isso faz de mim? — Alguém corajosa. Ou inconsequente. Os olhos dele vagaram por sua pele do seu ombro quando ele deslizou a alça de sua blusa, como se decorasse cada curva. A tensão ainda pulsava entre eles, latente, à beira de outro toque. — Isso vai complicar tudo — ela disse, tentando soar firme. — Já complicou. — Ele se afastou devagar. — Mas agora você faz parte disso, Rosa. Ela sentiu o impacto daquelas palavras como uma sentença. Parte de quê? Do desejo? Do mundo dele? Só por causa de um beijo que fez parar o tempo. Antes que pudesse perguntar, ele se aproximou e pressionou um beijo lento em sua testa. — Fique fora da loja amanhã — sussurrou. — Vai ter sangue. E saiu. Deixando Rosa entorpecida de prazer. E marcada pelo seu beijo avassalador. Por ele. Por algo muito maior do que ela era capaz de entender. Mas ela sabia que não voltaria atrás. Porque, mesmo entre espinhos, ela florescia melhor na escuridão.
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