Capítulo 3 - O Homem de Olhos de Gelo

1916 Palavras
A campainha da porta tocou com um som suave, contrastando com a presença que invadiu a loja como um furacão silencioso. Rosa, atrás do balcão, levantou os olhos do arranjo de flores que preparava. Lá estava ele — o homem de olhos de gelo. Ela o reconheceu na hora. Não pelo nome, pois ele não o havia dito ainda, mas pela sensação. A presença dele era densa, um campo magnético de sombra e tensão que fazia o ar pesar nos pulmões. Cada passo que dava pelo corredor de flores parecia conter o som ao seu redor. Era como se o mundo tivesse diminuído o volume para escutar. Caio parou diante dela com a mesma expressão contida do dia anterior. Seus olhos percorriam o ambiente, mas era claro que não estavam à procura de flores. Estavam avaliando. Rosa segurou o vaso com firmeza, forçando-se a manter os gestos naturais. Sua intuição gritava que aquele homem não era como os outros clientes. Ele não buscava beleza. Não era movido por dor ou luto. Ele comprava flores como quem escolhe uma arma — com precisão e desapego. — Está de volta — ela disse, tentando disfarçar a surpresa. — Outra despedida? Caio sorriu, um gesto que não chegou aos olhos. — Algo assim. Ele se aproximou do balcão, a sombra do seu corpo cobrindo parte do arranjo que Rosa preparava. Ela pôde sentir o calor que emanava dele, embora seu olhar fosse frio como uma lâmina. — Você escolheu bem da última vez — ele disse. — Os lírios. — Fico feliz que tenha servido ao propósito. — Serviram. Mas hoje... hoje preciso de algo diferente. Ela ergueu as sobrancelhas, tentando manter o tom profissional, embora o coração estivesse acelerado. — Algo diferente? — Menos paz. Mais... impacto. Rosa virou-se para a estante atrás de si, buscando girassóis e dálias vermelhas. Algo vibrante, vivo, quase agressivo. Talvez fosse isso o que ele procurava. Quando começou a montar o novo arranjo, sentiu os olhos dele queimando em suas costas. — Você trabalha aqui sozinha? — ele perguntou de repente. Ela hesitou antes de responder. — Sim. A loja era da minha mãe. Fiquei com ela quando ela morreu. Caio não disse nada por alguns segundos. Quando falou, sua voz era mais baixa. — Deve ser difícil. Rosa não respondeu. Não confiava nele. Mas algo em seu tom não parecia zombeteiro. Era como se ele entendesse. Como se conhecesse o gosto amargo da perda. Ela finalizou o arranjo e virou-se para entregá-lo. Suas mãos se tocaram por um segundo, e foi como se o mundo silenciasse. O choque da conexão foi real — não elétrico, mas emocional. Uma colisão de mundos. Rosa arregalou os olhos. Caio apenas olhou fixamente para ela, como se buscasse algo dentro de sua alma. — Bonito — ele disse, olhando para as flores. Mas os olhos ainda estavam nela. Ela puxou a mão devagar. — Posso preparar um cartão. Ele balançou a cabeça. — As palavras... elas não mudam nada. — Às vezes não são para quem partiu — Rosa respondeu. — São para quem ficou. O olhar dele se estreitou. Por um segundo, Rosa achou que ele responderia algo duro. Mas ele apenas deu um suspiro leve, como quem cede por um instante. — Tem razão. Mas nesse caso, não há ninguém que ficou. Silêncio. O tipo de silêncio que fala mais do que palavras. Rosa sentiu vontade de perguntar. Quem era ele? O que fazia? Por que comprava flores com tanta frequência, sempre com aquele olhar que misturava tristeza e sangue? — Quanto é? — ele perguntou. Ela lhe deu o valor. Caio retirou o dinheiro dobrado com perfeição, como se tudo nele fosse meticulosamente controlado. Como se até o caos que carregava no peito fosse gerenciado com disciplina. Quando estendeu o dinheiro, seu toque foi intencionalmente breve. Mas Rosa sentiu algo ali — uma tensão, um conflito interno. Como se ele quisesse afastar-se, mas algo o puxasse para perto. — Rosa, não é? — ele perguntou. Ela assentiu. — E você é Caio. Só Caio, imagino. Ele sorriu, um sorriso rápido e sombrio. — O suficiente. — Ainda acho que você não combina com flores. — E você combina demais. — Isso é r**m? Ele a observou por um momento longo demais. — Pode ser fatal. Antes que ela pudesse perguntar mais, ele se virou e saiu. O som da porta se fechando foi como o fim de uma música que ela m*l tinha começado a entender. Rosa ficou ali, olhando para o vazio onde ele estivera, com a estranha certeza de que aquela não seria a última visita. Ela tocou os dedos onde ele a havia encostado. O calor ainda permanecia ali. Ou talvez fosse apenas sua imaginação. De qualquer forma, ela sabia — aquele homem era perigoso. Mas também era... fascinante. Talvez fosse isso que a assustava mais. — Maldito seja esse olhar — murmurou para si mesma. Mas o nome dele, agora ecoava em sua mente como uma maldição doce: Caio. O homem de olhos de gelo. A noite caiu rápida sobre a cidade. A loja já estava fechada, mas Rosa permanecia ali, sozinha, em meio ao perfume das flores e ao silêncio das lembranças. Tentava se concentrar na contabilidade, mas seus pensamentos voltavam para os olhos de Caio. Havia algo neles — uma escuridão familiar, como a de quem já perdeu tudo. E ainda assim, uma luz bruxuleante, como se ainda restasse algo a proteger. Ela não queria se envolver. Sabia reconhecer o perigo, tinha aprendido a conviver com pessoas do tipo dele em sua infância. Mas Caio era diferente. Ele não escondia quem era. E isso, paradoxalmente, a fazia se sentir mais segura com ele do que com muitos homens que usavam ternos e sorrisos vazios. Do lado de fora, um carro preto estacionou na calçada. Rosa ouviu o som abafado da porta sendo fechada. Sentiu um arrepio na nuca antes mesmo de vê-lo entrar. Caio. Ele não disse nada ao entrar. Apenas caminhou até o balcão e colocou sobre ele um pequeno pacote, envolto em papel de seda preto. — Para você — disse, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Rosa hesitou. — O que é? — Um agradecimento. Pelo arranjo. E... pela paz de hoje. Ela desembrulhou o pacote com cuidado. Dentro, havia uma única rosa n***a. Real. Rara. Magnífica. — É... linda — murmurou, tocando as pétalas aveludadas. — Como você. Ela levantou os olhos, surpresa. Caio estava mais próximo do que antes. O calor entre eles era palpável, e Rosa soube, naquele momento, que havia cruzado uma linha invisível. Não podia mais negar. — Você devia ir embora — ela sussurrou, sem convicção. — Eu devia — ele respondeu, a voz rouca, baixa. — Mas não consigo. E então, ele a puxou pela cintura com uma gentileza surpreendente. Seu toque era firme, mas não agressivo. Rosa não resistiu. Seus corpos se encontraram como se já soubessem a coreografia daquele desejo contido. Os lábios dele tocaram os dela com uma fome contida, quase reverente. O beijo foi lento no início, como se ele pedisse permissão. Mas Rosa, para sua própria surpresa, não apenas permitiu — ela correspondeu. As mãos dele exploravam suas costas, puxando-a mais perto. Ela sentia o cheiro do couro da jaqueta, o calor de seu corpo, a ameaça que vinha com cada gesto dele — e ainda assim, tudo nela gritava para não parar. Caio a ergueu e a colocou suavemente sobre o balcão de madeira, afastando os objetos sem sequer olhar. Os beijos desceram por seu pescoço, fazendo-a arfar, e quando suas mãos encontraram a barra da blusa de Rosa, ela apenas fechou os olhos e deixou acontecer. O perigo tinha gosto. E ela estava viciada. Caio afastou-se dela de repente, como se algo dentro dele o tivesse puxado de volta à realidade. Seus olhos ainda estavam nos dela, mas agora, havia neles uma sombra mais densa. Culpa? Medo? Desejo reprimido? Ele se virou sem dizer uma única palavra. A porta se abriu. O vento frio da manhã entrou, como uma lembrança c***l de que aquilo era real — e impossível. Rosa ficou ali, parada, com os lábios ainda quentes, o coração batendo descompassado e a alma em pedaços que ela não sabia como recolher. Do lado de fora, Caio caminhava com passos duros. Não olhou para trás. O beijo tinha sido um erro. Um erro perigoso. Rosa era luz. E ele, sombra. "Você não toca no que não pode manter vivo," ele murmurou para si mesmo, ao entrar no carro. Dentro de seu peito, algo queimava. Não era paixão. Era fúria. Fúria por ter fraquejado. Fúria por tê-la tocado. Fúria por sentir — algo. Porque no mundo dele, sentir era fraqueza. E Caio nunca foi fraco. Nunca. Mas então por que, ao fechar os olhos, ele ainda sentia o gosto das flores nos lábios dela? Ele não deveria ter voltado. Caio sabia disso no instante em que empurrou a porta da floricultura mais uma vez e ouviu o sino tilintar como um aviso sutil. Mas ali estava ele, parado entre orquídeas e rosas, encarando a mulher que não saía de sua cabeça desde o primeiro olhar. Rosa. Seu nome já era uma ironia c***l do destino. Frágil e perigosa. Bela e capaz de sangrar quem a tocasse sem cuidado. E ele... ele era só lâmina. Foi treinado para cortar, para eliminar, para nunca hesitar. Mas agora, diante daquela mulher de olhos doces e mãos delicadas, sentia-se vacilar. Ela o encarava como se enxergasse além da pele. Como se percebesse o abismo sob seus olhos de gelo. E isso o perturbava. Porque ninguém olhava para ele assim. As pessoas temiam Caio. Respeitavam. Evitavam. E ela... ela o olhava como se fosse apenas um homem. Um homem ferido. Ele odiava isso. Odiava o quanto queria vê-la sorrir. O quanto se pegava imaginando como seriam suas mãos em seu peito, não para estancar o sangue de um ferimento, mas para tocá-lo com ternura. — Você está bem? — ela perguntou, com a voz baixa, e aquilo o atingiu com força. Você está bem? Ele não se lembrava da última vez que alguém se importou. Não da boca de um inimigo, não como parte de uma negociação. Mas como ela disse... soava real. E real era perigoso. — Não devia se preocupar comigo — ele respondeu, a voz mais áspera do que queria. Mas ela não recuou. Não desviou o olhar. Isso o desconcertou. Ele estava acostumado a controlar, a intimidar, a fazer o mundo girar ao redor de sua vontade. Mas Rosa era diferente. Ela não girava. Ela era o eixo. E ele sentia... fome. Não era só desejo. Era mais profundo. Uma carência que roía suas entranhas e que ele enterrava sob camadas de violência e disciplina. Mas agora, ali, diante dela, essa fome ganhava forma. Queria sabê-la. Sentí-la. Entender o que fazia seus olhos se encherem de tristeza e porque ela tremia quando ele chegava perto, mas não dava um passo para longe. Ele queria tocar sua alma — e isso o apavorava. Porque não havia espaço para alma na vida que levava. Não havia espaço para ternura. Ele era aço. Era silêncio e escuridão. E ainda assim, cada vez que ela o olhava, Caio sentia que poderia ser algo mais. Por ela. Talvez, por um momento. Mas ele sabia a verdade: lâminas cortam. E flores murcham quando cortadas demais. E mesmo assim... ele não conseguia ir embora.
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