Capítulo 4: Silêncio entre Espinhos

1297 Palavras
Rosa ficou ali, imóvel, sentindo seu coração ainda pulsar descompassado, como se ele tivesse ficado preso naquelas batidas, preso no instante exato em que Caio a beijara. O toque de seus lábios, a intensidade daquilo tudo, ainda estava fresco, quente em sua memória. Ela sabia que deveria afastar esses pensamentos, que deveria voltar a si e tratar aquilo como um erro. Mas, no fundo, não conseguia. Não conseguia ignorar o calor que ainda sentia na pele, o desejo estranho e incontrolável que tinha acordado dentro dela. A floricultura parecia mais silenciosa do que nunca, como se o mundo lá fora tivesse parado. O zumbido suave das abelhas e o farfalhar das folhas ao vento eram apenas lembranças distantes. Ali, naquele espaço pequeno e acolhedor, onde as flores eram as únicas testemunhas de seus sentimentos conflitantes, Rosa tentava se recompor. As mãos tremiam ligeiramente enquanto ela arrumava as flores na prateleira, sem realmente olhar para elas. Seus olhos estavam perdidos em algum lugar dentro de si mesma, tentando entender o que havia acontecido. — Rosa. A voz de Caio a tirou de seus pensamentos. Ele estava parado ali, perto do balcão, com a mesma expressão de sempre: fria, calculista, como se o beijo não tivesse ocorrido. Como se nada tivesse mudado. Mas, no fundo, ela sabia que ele sentia algo, mesmo que se esforçasse ao máximo para esconder. Ele não poderia ser tão imune ao que acontecera entre eles, não poderia. Ela ergueu os olhos devagar, tentando manter a calma. Ele a observava com aquele olhar de aço, como se fosse uma questão de vida ou morte, uma análise minuciosa de tudo o que ele via e sentia. Não havia simpatia nele, apenas o mesmo olhar distante de sempre. Caio parecia estar buscando algo. Mas o que, exatamente? E por que ela não conseguia afastar a sensação de que ele sabia mais sobre ela do que deveria? — Preciso saber o que aconteceu aqui. – Caio falou sem rodeios, a voz firme, mas sem pressa, como se estivesse jogando um jogo. – Você... não me parece o tipo de pessoa que se deixa levar por impulsos. O que foi aquilo? Rosa sentiu um arrepio ao ouvir as palavras dele. A maneira como ele falava não era acusatória, mas sim, investigativa. Ele queria entender o que a levara a corresponder a ele, a beijá-lo daquela forma, como se ele fosse a última coisa no mundo que ela deveria desejar. E, em um nível visceral, ela sabia que ele tinha razão. Não era do seu tipo ser impulsiva. Não era do seu tipo deixar que o desejo falasse mais alto. Mas Caio... ele estava se tornando uma exceção. Ela deu um passo para trás, os olhos evitando os dele. Não queria que ele visse o turbilhão que se formava em seu peito. Não queria que ele soubesse o quanto estava mexendo com ela. Rosa não sabia o que ele queria, nem o que ele buscava. Mas uma coisa era certa: ele estava aqui por algum motivo, e esse motivo não envolvia apenas flores ou um simples agradecimento por um arranjo. Havia algo mais, algo que ela não conseguia definir, mas que a atraía de maneira irresistível. — Eu... – Rosa hesitou, buscando as palavras certas. – Eu não sei o que aconteceu. Só... aconteceu. Caio a observou, os olhos ainda impassíveis, mas algo em seu olhar a fez sentir que ele a estava testando. A tensão no ar era quase palpável. Ele não parecia querer saber a verdade, mas sim ver até onde ela estava disposta a ir com ele. Como se quisesse ver se ela mentiria, se tentaria esconder a realidade de seus sentimentos. — Não sei se acredito nessa resposta. – Caio disse, sua voz mais baixa, como se ele estivesse se segurando para não pressioná-la mais. – Você não é do tipo de se deixar levar. Então, me diga... o que aconteceu? Rosa fechou os olhos por um instante, tentando encontrar alguma explicação que fosse convincente o suficiente, algo que ele pudesse acreditar. Ela não queria dar a ele o poder de controlá-la, de moldar a narrativa entre eles. Ela não queria que ele soubesse o quanto aquele beijo a havia afetado. Mas, ao mesmo tempo, havia algo dentro de si que a empurrava para a verdade. Algo que queria ser dito, algo que não conseguia esconder. Ela respirou fundo, olhando para ele, os olhos fixos nos dele. — Você... – Ela começou, a voz trêmula. – Você me faz sentir coisas que eu não entendo. E isso... me assusta. Caio não respondeu de imediato. Ele apenas a observou, como se estivesse decifrando aquelas palavras, tentando entender o significado por trás delas. O silêncio entre eles se estendeu por alguns segundos, mas parecia muito mais longo. Rosa não sabia o que mais dizer. Tudo o que estava em sua mente era a imagem de Caio, aquele homem impenetrável e frio, e a sensação estranha e confusa que ele provocava nela. Não deveria ser assim. Não deveria ter permitido que ele se aproximasse dessa maneira. Mas, agora que ele estava ali, ela sentia que não havia volta. Caio deu um passo à frente, quebrando o silêncio. Ele se inclinou um pouco para ela, o que fez Rosa dar um passo para trás, instintivamente. — Você me diz que não entende o que aconteceu. – Ele disse, sua voz mais suave, mais íntima. – Mas eu não acredito. Acho que você sabe muito bem o que aconteceu. Rosa olhou para ele, com o peito apertado. Ela queria negar. Queria dizer que não, que não sabia nada. Mas, por mais que tentasse se enganar, sabia que ele estava certo. Ela sabia exatamente o que aconteceu. Ela havia se entregado ao desejo, e se deixou envolver, beijando um homem que m*l conhecia e aquilo a assustava mais do que ela estava disposta a admitir. Caio tinha essa capacidade, essa habilidade única de fazer com que ela se perdesse. E, o pior de tudo, ela não sabia se queria se encontrar de naquela situação de novo. Ele continuou, quase como se estivesse falando para si mesmo, mas com a intenção clara de desafiá-la. — Você acha que não pode me querer. Que me odiar seria mais fácil. Mas a verdade é que você... você não consegue se afastar de mim, não é? Rosa não sabia o que responder. O que ele dizia parecia tão distante, e ao mesmo tempo, tão perto da verdade. Ela queria gritar, dizer que ele estava errado, que ele não tinha direito de tocar suas emoções daquela maneira. Mas, ao mesmo tempo, uma parte de si queria admitir que ele estava certo, que ela não conseguia afastá-lo, que ele já estava dentro dela, penetrando em seus pensamentos, em sua alma, de uma maneira que ela não sabia mais controlar. O silêncio voltou, pesado, preenchido apenas pelos sons do vento lá fora, e o leve movimento das flores ao redor. Caio permaneceu ali, observando-a com aquela expressão de sempre, impenetrável, mas com algo a mais nos olhos. Algo que Rosa não soubera identificar até agora. Algo que estava no ar, como um fio invisível, conectando-os de maneira sutil, mas inquebrantável. Ela se forçou a olhar para ele, tentando se manter firme, apesar da tensão que quase a fazia vacilar. — Você não sabe nada sobre mim. – Ela disse, as palavras saindo mais duras do que pretendia. – Não pode entender o que eu sinto. Não pode... Mas Caio a interrompeu, sua voz grave, mas tranquila. — Eu sei exatamente o que você sente, Rosa. E eu sei que, no fundo, você sabe disso. Ela olhou para ele, desafiando-o, mas, no fundo, sabia que ele estava certo. Ele sabia mais do que ela queria admitir. E aquilo a aterrorizava.
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