Rosa estava distraída, tentando esquecer o beijo, tentando esquecer o calor que ainda teimava em subir pelas veias toda vez que a imagem de Caio lhe vinha à mente. Mas esquecer era uma missão impossível quando ele aparecia todos os dias na floricultura, comprando arranjos que pareciam escolhidos mais por capricho do que por necessidade. Ele entrava como se o ambiente fosse seu, e com seu silêncio afiado, provocava nela um caos interno.
Naquela manhã, ele chegou mais cedo. A loja ainda estava com o aroma fresco da primeira rega das flores. O sino da porta tilintou e, antes que Rosa pudesse se virar, sentiu a presença dele — sempre calma, sempre densa, como se o ar ao redor perdesse a leveza. Quando virou-se para encará-lo, seus olhos foram direto aos dele, mas Caio desviou, percorrendo a estufa com interesse fingido.
Ela decidiu cortar o silêncio.
— Vai continuar entrando aqui todos os dias sem dizer quem é de verdade?
Ele não respondeu de imediato. Caminhou até uma prateleira com lírios brancos, tocando levemente as pétalas com a ponta dos dedos, como quem contempla uma lembrança.
— Meu nome é Caio. – disse, enfim, sem encará-la. – E você já sabe o suficiente por enquanto.
Ela cruzou os braços.
— Um nome não é o suficiente. As flores podem até viver de água e luz, mas as pessoas... precisam de mais do que isso.
Caio se virou lentamente, os olhos castanhos quase dourados fixando-se nos dela. Havia algo naquele olhar — um aviso ou uma súplica. Talvez ambos.
— Às vezes, saber demais pode machucar. – disse ele, com a voz baixa, quase sussurrando.
Rosa sentiu a espinha arrepiar, mas manteve o queixo erguido. Ela já estava farta de mistérios. Desde o beijo, desde aquele momento que os dois fingiam não ter significado, tudo em Caio parecia gritar perigo e fascínio. E Rosa era uma mulher que, por muito tempo, evitou riscos. Mas agora, não conseguia resistir à ideia de descobrir o que havia por trás daquele olhar.
Depois que ele saiu, deixando para trás um pequeno buquê de girassóis – um detalhe novo e estranho, vindo de alguém que parecia gostar mais das flores noturnas – Rosa tomou uma decisão.
Ela pegou o celular, conectou o Wi-Fi instável do balcão, abriu o navegador e digitou: “Caio – nome completo desconhecido – tatuagem lâmina no braço – bairro Santa Aurora”.
Era pouco. Mas era um começo.
As primeiras páginas não trouxeram nada útil. Até que ela notou um fórum antigo de um grupo de vigilância comunitária. Um comentário chamava atenção: "Homem com tatuagem de lâmina no braço visto perto da Rua das Palmeiras. Disse se chamar Caio. Desconfiamos que seja ex-segurança militar ou algo assim. Sempre observando, nunca fala muito." A data do comentário era de dois anos atrás. Mas era o suficiente para acender a chama da curiosidade.
“Ex-segurança militar?” Rosa sussurrou para si mesma, tentando juntar as peças.
Ela abriu o perfil do autor do comentário, e encontrou uma sequência de postagens que descreviam Caio como “alguém que aparece e desaparece como fumaça”, e que, segundo o dono do perfil, “resolve problemas discretamente, como uma lâmina silenciosa”.
Aquilo ficou na cabeça de Rosa o resto do dia. “Profissão: Lâmina.” Era assim que começava a descrever Caio em seus pensamentos. Um homem que cortava silêncios com o olhar, que feria com palavras medidas, que desaparecia antes de deixar rastros.
Mais tarde, ao fechar a loja, ela caminhava pelas ruas do bairro já quase desertas, enquanto as luzes dos postes piscavam. O vento da noite batia em seu rosto com força, e os pensamentos não a deixavam em paz.
Quem era Caio? Por que aquele ar de segredos? E por que, mesmo com todos os sinais de perigo, seu corpo insistia em desejá-lo? A curiosidade, que até então era só um incômodo, agora virava obsessão.
Na manhã seguinte, Rosa foi até a biblioteca da cidade, um lugar onde nunca pensou que voltaria. Queria ver se achava algo nos jornais locais, nos arquivos digitais. Digitou “Caio” e “lâmina” e “bairro Santa Aurora” de novo. Nada. Tentou variações: “homem misterioso tatuagem”, “floricultura bairro estranho cliente”. Ainda assim, o sistema retornava apenas matérias antigas sobre assaltos e campanhas comunitárias.
Foi quando uma matéria chamou sua atenção.
“Homem evita tentativa de assalto em padaria no bairro Santa Aurora — criminosos afirmam ter sido contidos por ‘um sujeito rápido, forte e com uma lâmina no braço’.”
A descrição era vaga, mas suficiente. A matéria era de três anos atrás. Não havia fotos, nem nome, apenas um pequeno depoimento de uma testemunha que disse: “Parecia um ex-militar, mas com o olhar de alguém que já viu coisa demais.”
Rosa passou o dia com aquela frase ecoando na cabeça.
À tarde, Caio apareceu na loja como se nada estivesse diferente. Usava uma camiseta preta, calça jeans escura e botas gastas. O braço com a tatuagem da lâmina estava visível, e Rosa percebeu que havia algo mais naquela tatuagem — não era uma lâmina qualquer. Era uma adaga antiga, com inscrições em latim ao redor. Quis perguntar sobre o significado, mas segurou o impulso.
Em vez disso, o observou enquanto ele pegava um pequeno vaso de orquídeas.
— Gosta de orquídeas agora? – ela provocou.
Caio deu de ombros.
— As orquídeas são traiçoeiras. Vivem em silêncio, mas se alimentam de sombras.
Rosa arqueou a sobrancelha.
— Você acabou de descrever você mesmo.
Ele sorriu de lado, mas não disse nada. Pegou a orquídea e foi até o balcão. Rosa passou o código de barras e, com a coragem que ainda restava, decidiu arriscar.
— Você... salvou uma padaria de um assalto há três anos?
Caio congelou por um breve segundo. Foi imperceptível, mas Rosa notou. O jeito que ele desviou o olhar, como se tivesse sido atingido por um tiro invisível.
— Já salvou alguém de um assalto? – ela insistiu.
Ele soltou um suspiro.
— As pessoas só enxergam o que querem ver.
— E o que você quer que eu veja, Caio?
Ele demorou para responder. Encarou Rosa com uma intensidade que fez seu corpo inteiro arrepiar.
— Que eu sou só um homem comprando flores.
Ela riu, sarcástica.
— Um homem com tatuagens de armas antigas, que some por dias, que corta as palavras como facas e vive comprando flores para ninguém.
— Você acha que sabe demais, Rosa.
— E você acha que se esconde bem demais.
Por um instante, o ar entre eles ficou mais denso. Caio largou a orquídea sobre o balcão e se aproximou, não o suficiente para tocá-la, mas o bastante para fazê-la sentir seu calor.
— Você não faz ideia do que está procurando. – disse ele. – Às vezes, os espinhos existem para te lembrar que algumas flores são perigosas demais.
— E às vezes, é no espinho que a gente encontra a verdade. – Rosa rebateu, a voz firme, apesar da respiração acelerada.
Ele não respondeu. Apenas pegou a orquídea de volta, virou-se e saiu da loja.
Mas desta vez, Rosa não ficou apenas assistindo. Ela já tinha ido longe demais para voltar atrás. E, pela primeira vez, não sentia medo. Sentia que estava no rastro certo. E por mais que a lâmina fosse afiada, ela queria descobrir cada pedaço oculto daquele homem.
Mesmo que, para isso, precisasse se cortar um pouco no caminho.