Capítulo 6 – Um Café e Um Alerta

1102 Palavras
Rosa sempre teve uma relação sagrada com sua rotina. Acordava às seis, fazia café preto e forte, alimentava seu gato Otto, regava as plantas e abria a floricultura antes das oito. Tudo tinha seu ritmo, sua ordem, seu sentido. Mas ultimamente, a presença de Caio começava a desafiar essa paz silenciosa — como um grão de areia incomodando dentro do sapato, como uma tempestade anunciada por um simples sopro de vento. Na manhã seguinte à sua última conversa com ele, Rosa abriu a loja mais cedo do que o normal. Dormira m*l, sonhando com olhos castanhos que pareciam atravessar sua alma e com palavras ditas em voz baixa que pareciam muito mais profundas do que deviam. Entre o sonho e a realidade, algo tinha mudado dentro dela. E fora também. O sino da porta tocou antes mesmo das oito. Rosa m*l tinha colocado os arranjos na vitrine. Quando se virou, lá estava ele — Caio, com sua expressão neutra e o mesmo olhar que parecia ver através das paredes. Mas havia algo diferente nele naquele dia. Nas mãos, ele trazia dois copos térmicos de café. — Pensei que você talvez precisasse. — disse, estendendo um deles a ela. Rosa hesitou por um segundo. Desconfiava de presentes fáceis, de gestos simples demais vindos de pessoas complicadas. Mas o cheiro do café era delicioso, e seus olhos estavam cansados demais para recusar. — Você sempre oferece café às floristas que desconfiam de você? — ela provocou, pegando o copo com cuidado. — Só às que têm coragem de fazer perguntas. — respondeu ele, quase sorrindo. Sentaram-se num banco ao lado das prateleiras de samambaias. A loja estava silenciosa, e o sol da manhã passava pelas frestas da estufa, jogando sombras suaves no chão. — Por que café? — ela perguntou. — O café mostra quem somos. — disse ele, olhando para frente. — Se você oferece sem açúcar, quer saber o que o outro aguenta. Se adoça demais, quer agradar. E se aceita mesmo sem gostar, está com medo de dizer não. — E eu? O que isso diz sobre mim? — Você aceitou. Mas não bebeu ainda. Está avaliando os riscos. Ela arqueou uma sobrancelha e finalmente levou o café aos lábios. Forte, como ela gostava. Sem açúcar, sem firulas. Do jeito que fazia em casa. — Acertou. — disse, surpresa. — Está tentando me conquistar ou me analisar? — Não sei. Talvez um pouco dos dois. Rosa bebeu mais um gole e manteve o olhar nele. Naquele instante, percebeu o quanto ele parecia deslocado ali. A loja, com seu cheiro de flores e terra molhada, era um espaço vivo, acolhedor. Já Caio era como aço — frio, controlado, quase fora de lugar naquele cenário. — Você não é daqui. — ela disse, mais como afirmação do que pergunta. Ele assentiu com a cabeça, devagar. — Já fui de muitos lugares. Hoje, não sou de nenhum. — E o que você faz? De verdade? Caio olhou para o copo nas mãos, como se procurasse ali uma resposta mais fácil do que a verdade. — Faço o que precisa ser feito. — Isso não é uma resposta. É uma fuga. — Às vezes, fugir é a única maneira de continuar em pé. Silêncio. Mas não era o silêncio confortável de duas pessoas que se entendem. Era um silêncio tenso, prestes a romper, carregado de verdades não ditas. — Rosa... — ele começou, com a voz mais baixa — você anda observando demais. Perguntando demais. Se continuar assim, vai chamar atenção de gente que não devia. Ela arqueou a sobrancelha, surpresa com o tom. — Isso é um alerta? — É um cuidado. — Está me ameaçando? — Não. Estou te protegendo. Ela bufou. — Proteger seria me contar a verdade. — Proteger é impedir que você se machuque com ela. Rosa se levantou, irritada. Caminhou até a bancada e colocou o copo no lixo. O café ainda estava quente. Mas ela já não sentia o sabor. — Eu não sou uma flor frágil, Caio. Não preciso que você decida o que posso ou não saber. Eu já vivi o suficiente para entender que o perigo não está no que se vê, mas no que se ignora. Ele a seguiu com o olhar. Não tentou detê-la. Não tentou explicar. Apenas ficou ali, como uma rocha no meio da correnteza. — Você está certa. — ele disse, por fim. — Mas flores que crescem entre espinhos aprendem a se defender. E você ainda não aprendeu a se proteger de gente como eu. A porta se abriu com o sino, interrompendo o clima. Um cliente comum, um senhor simpático que comprava flores toda semana para o túmulo da esposa. Rosa atendeu com o sorriso automático, mas sua mente continuava em Caio, no café, nas entrelinhas. Quando o cliente foi embora, Caio já não estava mais lá. O resto do dia passou como um borrão. Mas Rosa não conseguia esquecer aquele alerta disfarçado de cuidado. Sentia que algo a rodeava, como uma nuvem escura que se aproximava devagar. E, mesmo assim, ao invés de fugir... ela queria mais. Mais respostas. Mais presença. Mais dele. À noite, quando voltou para casa, percebeu que a maçaneta da porta estava estranhamente fora do lugar. Não havia sinais de arrombamento. Tudo parecia no lugar, exceto por um detalhe: o vaso de orquídeas sobre a mesa havia sido virado levemente de posição. E Rosa sabia exatamente como havia deixado. Seu coração acelerou. Olhou em volta. Nenhum sinal de intrusos. Nada faltando. Nenhum vidro quebrado. Mas algo estava errado. Ela caminhou até a estante e notou que a foto da mãe — uma das poucas lembranças que ainda tinha — havia sido movida para o lado. Quase imperceptivelmente, como se alguém a tivesse olhado e depois reposicionado sem o devido cuidado. Rosa sentou-se no sofá, o corpo trêmulo. O celular na mão, hesitante. Procurou por Caio entre os contatos. Mas ela não tinha o número dele. Ela não sabia onde ele morava. Não sabia onde ele trabalhava. Não sabia quem ele era. E ainda assim, sentia que ele era a única pessoa capaz de explicar o que estava acontecendo. Naquela noite, não dormiu. Sentada à mesa, encarando a orquídea, pensava em tudo. No café. No alerta. No medo que começava a se misturar à curiosidade. E em como, sem perceber, sua vida já estava mudando desde o momento em que ele atravessou a porta da floricultura. A pergunta agora não era mais quem era Caio. A pergunta era: O que ele trouxe com ele? E mais: estaria ela preparada para o que viria depois?
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