Rosa sempre teve uma relação sagrada com sua rotina. Acordava às seis, fazia café preto e forte, alimentava seu gato Otto, regava as plantas e abria a floricultura antes das oito. Tudo tinha seu ritmo, sua ordem, seu sentido. Mas ultimamente, a presença de Caio começava a desafiar essa paz silenciosa — como um grão de areia incomodando dentro do sapato, como uma tempestade anunciada por um simples sopro de vento.
Na manhã seguinte à sua última conversa com ele, Rosa abriu a loja mais cedo do que o normal. Dormira m*l, sonhando com olhos castanhos que pareciam atravessar sua alma e com palavras ditas em voz baixa que pareciam muito mais profundas do que deviam. Entre o sonho e a realidade, algo tinha mudado dentro dela.
E fora também.
O sino da porta tocou antes mesmo das oito. Rosa m*l tinha colocado os arranjos na vitrine. Quando se virou, lá estava ele — Caio, com sua expressão neutra e o mesmo olhar que parecia ver através das paredes.
Mas havia algo diferente nele naquele dia.
Nas mãos, ele trazia dois copos térmicos de café.
— Pensei que você talvez precisasse. — disse, estendendo um deles a ela.
Rosa hesitou por um segundo. Desconfiava de presentes fáceis, de gestos simples demais vindos de pessoas complicadas. Mas o cheiro do café era delicioso, e seus olhos estavam cansados demais para recusar.
— Você sempre oferece café às floristas que desconfiam de você? — ela provocou, pegando o copo com cuidado.
— Só às que têm coragem de fazer perguntas. — respondeu ele, quase sorrindo.
Sentaram-se num banco ao lado das prateleiras de samambaias. A loja estava silenciosa, e o sol da manhã passava pelas frestas da estufa, jogando sombras suaves no chão.
— Por que café? — ela perguntou.
— O café mostra quem somos. — disse ele, olhando para frente. — Se você oferece sem açúcar, quer saber o que o outro aguenta. Se adoça demais, quer agradar. E se aceita mesmo sem gostar, está com medo de dizer não.
— E eu? O que isso diz sobre mim?
— Você aceitou. Mas não bebeu ainda. Está avaliando os riscos.
Ela arqueou uma sobrancelha e finalmente levou o café aos lábios. Forte, como ela gostava. Sem açúcar, sem firulas. Do jeito que fazia em casa.
— Acertou. — disse, surpresa. — Está tentando me conquistar ou me analisar?
— Não sei. Talvez um pouco dos dois.
Rosa bebeu mais um gole e manteve o olhar nele. Naquele instante, percebeu o quanto ele parecia deslocado ali. A loja, com seu cheiro de flores e terra molhada, era um espaço vivo, acolhedor. Já Caio era como aço — frio, controlado, quase fora de lugar naquele cenário.
— Você não é daqui. — ela disse, mais como afirmação do que pergunta.
Ele assentiu com a cabeça, devagar.
— Já fui de muitos lugares. Hoje, não sou de nenhum.
— E o que você faz? De verdade?
Caio olhou para o copo nas mãos, como se procurasse ali uma resposta mais fácil do que a verdade.
— Faço o que precisa ser feito.
— Isso não é uma resposta. É uma fuga.
— Às vezes, fugir é a única maneira de continuar em pé.
Silêncio. Mas não era o silêncio confortável de duas pessoas que se entendem. Era um silêncio tenso, prestes a romper, carregado de verdades não ditas.
— Rosa... — ele começou, com a voz mais baixa — você anda observando demais. Perguntando demais. Se continuar assim, vai chamar atenção de gente que não devia.
Ela arqueou a sobrancelha, surpresa com o tom.
— Isso é um alerta?
— É um cuidado.
— Está me ameaçando?
— Não. Estou te protegendo.
Ela bufou.
— Proteger seria me contar a verdade.
— Proteger é impedir que você se machuque com ela.
Rosa se levantou, irritada. Caminhou até a bancada e colocou o copo no lixo. O café ainda estava quente. Mas ela já não sentia o sabor.
— Eu não sou uma flor frágil, Caio. Não preciso que você decida o que posso ou não saber. Eu já vivi o suficiente para entender que o perigo não está no que se vê, mas no que se ignora.
Ele a seguiu com o olhar. Não tentou detê-la. Não tentou explicar. Apenas ficou ali, como uma rocha no meio da correnteza.
— Você está certa. — ele disse, por fim. — Mas flores que crescem entre espinhos aprendem a se defender. E você ainda não aprendeu a se proteger de gente como eu.
A porta se abriu com o sino, interrompendo o clima. Um cliente comum, um senhor simpático que comprava flores toda semana para o túmulo da esposa. Rosa atendeu com o sorriso automático, mas sua mente continuava em Caio, no café, nas entrelinhas.
Quando o cliente foi embora, Caio já não estava mais lá.
O resto do dia passou como um borrão. Mas Rosa não conseguia esquecer aquele alerta disfarçado de cuidado. Sentia que algo a rodeava, como uma nuvem escura que se aproximava devagar. E, mesmo assim, ao invés de fugir... ela queria mais. Mais respostas. Mais presença. Mais dele.
À noite, quando voltou para casa, percebeu que a maçaneta da porta estava estranhamente fora do lugar. Não havia sinais de arrombamento. Tudo parecia no lugar, exceto por um detalhe: o vaso de orquídeas sobre a mesa havia sido virado levemente de posição.
E Rosa sabia exatamente como havia deixado.
Seu coração acelerou. Olhou em volta. Nenhum sinal de intrusos. Nada faltando. Nenhum vidro quebrado.
Mas algo estava errado.
Ela caminhou até a estante e notou que a foto da mãe — uma das poucas lembranças que ainda tinha — havia sido movida para o lado. Quase imperceptivelmente, como se alguém a tivesse olhado e depois reposicionado sem o devido cuidado.
Rosa sentou-se no sofá, o corpo trêmulo. O celular na mão, hesitante. Procurou por Caio entre os contatos. Mas ela não tinha o número dele.
Ela não sabia onde ele morava.
Não sabia onde ele trabalhava.
Não sabia quem ele era.
E ainda assim, sentia que ele era a única pessoa capaz de explicar o que estava acontecendo.
Naquela noite, não dormiu. Sentada à mesa, encarando a orquídea, pensava em tudo. No café. No alerta. No medo que começava a se misturar à curiosidade. E em como, sem perceber, sua vida já estava mudando desde o momento em que ele atravessou a porta da floricultura.
A pergunta agora não era mais quem era Caio.
A pergunta era: O que ele trouxe com ele?
E mais: estaria ela preparada para o que viria depois?