Rosa sempre confiou nos seus instintos. Eles a salvaram mais de uma vez — de clientes abusivos, de um relacionamento tóxico, de armadilhas disfarçadas de oportunidades. Mas, ultimamente, seu instinto parecia dividido: parte dela gritava para que se afastasse de Caio; a outra parte se aproximava dele como se ele fosse o próprio oxigênio que ela precisava para respirar.
Nos dias que seguiram o estranho acontecimento em sua casa — o vaso mexido, a foto fora do lugar — Rosa passou a viver em estado de alerta. A floricultura continuava funcionando normalmente, mas seus olhos estavam sempre atentos às esquinas, aos reflexos nos vidros, aos passos atrás dela na rua. Não era paranoia. Era sobrevivência.
Ela começou a perceber pequenos sinais.
Na segunda-feira, um homem ficou tempo demais parado na calçada, fingindo olhar as flores. Usava óculos escuros, mas seus pés apontavam direto para a entrada da loja. Rosa sentiu seu estômago revirar. Quando foi em direção a ele, o homem se afastou rapidamente.
Na terça, uma mulher entrou na floricultura e fez perguntas vagas demais para alguém interessado em comprar flores. Queria saber os horários de a******a e fechamento, se Rosa trabalhava sozinha, se havia câmeras de segurança. Rosa respondeu com cordialidade, mas com o coração disparado. Anotou a placa do carro da mulher antes que ela saísse.
Na quarta-feira, ouviu passos do lado de fora de casa por volta das duas da manhã. Quando acendeu as luzes, os passos cessaram. Nenhuma alma à vista.
Ela queria ir à polícia, mas... dizer o quê?
“Alguém mudou meu vaso de lugar e estou com um pressentimento r**m?”
“Tem um homem misterioso me dando café e alertando sobre perigos invisíveis?”
Quem acreditaria?
Na manhã seguinte, Rosa decidiu encarar Caio.
Ele já a esperava, como sempre, encostado no mesmo poste, com o mesmo semblante calmo e aquela expressão de quem carrega um universo de segredos. Parecia ter um sexto sentido para saber exatamente quando ela abriria a loja.
— Você está me seguindo? — ela perguntou, sem rodeios, com a chave ainda na mão.
— Não. Estou cuidando de você. — respondeu, calmo.
— Cuidando ou vigiando?
— Rosa...
— Não me chama assim com essa voz baixa, como se estivesse fazendo isso por mim. Está me deixando maluca. Desde que você apareceu, minha vida virou uma sequência de sinais estranhos. Gente me observando, minha casa invadida... — ela deu um passo à frente — O que você está escondendo de mim?
Ele a encarou por alguns segundos. O tipo de olhar que despia a alma, que penetrava camadas que ela mesma tentava manter escondidas. E então, ele suspirou.
— Se eu te contasse tudo, você correria.
— Talvez eu devesse correr. — ela respondeu, com a voz firme, embora o coração estivesse acelerado.
— Mas você não vai. — ele disse, com convicção. — Porque parte de você já entendeu que está envolvida, mesmo sem querer. Mesmo sem saber como.
Rosa sentiu um arrepio subir pela espinha. Estava irritada por ele ter razão.
— O que eles querem? — perguntou.
— Você, ainda não. Mas talvez queiram o que você viu. Ou o que você possa descobrir.
Ela estreitou os olhos.
— O que eu vi?
— Ainda não sei. Mas alguém acha que você viu algo. Ou que sabe mais do que deveria. — Ele olhou em volta, como se farejasse o ar. — Por isso estão te cercando devagar. Testando sua reação. Tentando entender se você é ameaça.
— E sou?
— Para mim? Talvez. — ele sorriu, de leve. — Para eles? Ainda não. Mas pode ser.
Ela passou a chave na porta e entrou. Ele a seguiu. A loja, como sempre, exalava um aroma acolhedor de flores frescas e terra úmida. Mas naquele dia, Rosa não sentia o conforto habitual. Sentia o peso da presença dele, das palavras dele. E da crescente sensação de que seu mundo estava desmoronando sob seus pés.
— Por que eu? — ela perguntou. — Eu sou só uma florista. Cuido de plantas, vendo margaridas pra viúvas e buquês pra noivas ansiosas. Não tenho nada a ver com isso.
— É aí que você se engana. — ele respondeu. — Às vezes, o perigo não escolhe por merecimento. Ele apenas escolhe.
Ela bufou, virando-se de costas.
— Isso não faz sentido nenhum, Caio.
— Nem tudo precisa fazer sentido. Mas precisa ser enfrentado.
Ele se aproximou dela. Não rápido, não ameaçador. Mas com a firmeza de quem sabe que está pisando em terreno minado.
— Você está sendo observada, sim. E não só por mim. Eu tento chegar antes. Tento impedir que avancem demais. Mas minha presença aqui tem limites. — Ele abaixou o tom. — Preciso que confie em mim.
— Confiar? Você é praticamente um estranho. Eu nem sei seu sobrenome.
— Não saber é o que te mantém viva.
Rosa o encarou. Havia medo, sim, mas também algo que ela não conseguia nomear. Uma ligação invisível, uma faísca que teimava em não apagar mesmo diante do perigo.
— E se eu quiser sair disso?
— Então fuja agora. Saia da cidade. Apague seus rastros. Nunca mais me procure.
Ela ficou em silêncio.
— Mas se quiser entender... vai ter que aprender a sobreviver.
— Como?
Ele tirou um pequeno envelope do bolso e colocou sobre o balcão. Rosa hesitou antes de pegá-lo. Dentro, havia um pendrive. E um bilhete com uma frase escrita à mão:
"Você verá o que não deveria. Mas verá mesmo assim."
— O que tem aqui?
— Uma parte da verdade. — ele respondeu. — Veja sozinha. Tranque as portas. E, se puder... esteja pronta para correr.
Rosa fechou a loja mais cedo naquele dia. Voltou para casa com o coração pulsando no peito como um tambor de guerra. Fechou janelas, trancou portas, desligou o celular.
Sentou-se diante do notebook. Inseriu o pendrive.
Durante os vinte minutos seguintes, ela assistiu a algo que não conseguia descrever com palavras. Era uma mistura de arquivos, gravações, imagens... algumas pareciam registros confidenciais, outras câmeras de segurança, fotos marcadas com datas, nomes codificados. Em meio à confusão, o nome dela apareceu.
Seu nome.
Sua loja.
Uma foto tirada de longe. Ela, de costas, colocando flores na vitrine.
Rosa empalideceu.
Desligou o notebook. Ficou imóvel.
Sim, ela estava sendo observada.
E agora, não havia mais espaço para dúvidas.
Seu instinto de sobrevivência, que há dias sussurrava, agora gritava: corra. ou lute. mas nunca ignore.
Caio não era o perigo. Ele era só o aviso. O que vinha depois... seria muito pior.