Gabriel.
O ar na kitnet parecia ter sido sugado para fora, deixando apenas o vácuo entre nós dois. Eu sentia o peso do meu passado esmagando o presente, e a presença de Maya ali, ajoelhada entre minhas pernas, era a única coisa que me impedia de sufocar.
A minha cabeça dizia para correr, mas meu corpo não era capaz de obdecer meus pensamentos.
— Você precisa ir, Maya. Agora — eu disse, a voz áspera, tentando recuperar o pouco de sanidade que me restava. — Ficar aqui, saber o que você sabe... você está brincando com fogo em um depósito de pólvora. Mantém distância. Pelo seu próprio bem.
Ela negou com a cabeça, os olhos castanhos fixos nos meus, sem desviar um milímetro.
— Não dá, Gabriel.
— Dá sim! — Eu me levantei num ímpeto, a frustração explodindo. Comecei a andar de um lado para o outro naquele espaço minúsculo. — Eu sou um monstro, Maya. O que sobrou de mim são pedaços de um homem que foi treinado para não sentir nada.
— Eu não acredito...
— Se você ficar, se você continuar cavando, você está assinando a sua própria sentença.
— eu já estou aqui — ela tenta.
— O DG vai me matar e vai trancar você em uma torre de marfim pelo resto da vida. Você quer isso?
— Eu já disse — ela repetiu, levantando-se com uma calma que me enlouquecia. — Não dá.
Parei na frente dela, a respiração pesada, os punhos cerrados ao lado do corpo.
— Escuta bem. Se o seu irmão sonha que eu estive em uma cela preta, que eu sou um "fantasma" do alto comando, ele não vai te perguntar se foi bom. Ele vai eliminar o risco. E o risco agora é você, por saber demais. Você entende a gravidade disso?
Maya deu um passo à frente, reduzindo a distância a zero. Ela não recuou diante da minha fúria.
— Eu não consigo me afastar, Gabriel. Eu tentei. Juro que tentei naquela sala de aula hoje, mas cada fibra do meu corpo gritava que aquele gelo era mentira.
O resto da minha resistência se partiu. Se ela queria o abismo, eu daria o abismo a ela.
Segurei Maya pelos braços e a puxei com força, levantando-a do chão por um segundo antes de prensar o corpo dela contra a parede de alvenaria descascada. O impacto fez um quadro torto na parede balançar, mas nenhum de nós desviou o olhar. Eu estava tão perto que conseguia sentir o calor emanando da pele dela, o cheiro de baunilha misturado ao odor metálico da minha própria angústia.
— Você tem ideia do que está fazendo? — Rosnei, meu rosto a centímetros do dela, minha mão subindo para o seu pescoço, sentindo a pulsação frenética que denunciava que, apesar da coragem, ela estava viva. — Eu te avisei no armário e vou avisar pela última vez: você está acordando o monstro. E quando ele acordar, Maya, ele não vai pedir licença. Ele vai levar tudo o que você tem.
Minha mão apertou levemente a nuca dela, puxando seu rosto para mais perto, até que nossos lábios quase se tocassem. Eu queria que ela sentisse o perigo, queria que ela visse a escuridão que eu tentava esconder sob os livros de poesia.
Maya sustentou o meu olhar. Não havia hesitação. Não havia o medo que eu esperava — e que eu precisava que ela sentisse para me salvar de mim mesmo. Ela apenas espalmou as mãos no meu peito nu, sentindo cada cicatriz, cada batida descompassada do meu coração.
— Eu não tenho medo de monstros, Gabriel — ela sussurrou, a voz carregada de uma promessa que me condenaria para sempre.— Eu cresci cercada por eles. Mas você... você é o único que eu quero enfrentar no escuro.
A última carta estava na mesa. E, naquele momento, eu soube que não haveria volta. O monstro não estava apenas acordado; ele tinha acabado de encontrar o seu lar.