Existem ódios que nascem do acaso. Um empurrão, uma competição m*l resolvida, um desentendimento banal.
O nosso não.
O ódio entre os Klein e os Dervaux vem de berço — vintage, envelhecido em barris de orgulho e derramado ao longo de duas décadas no paddock da Fórmula 1.
Meu pai costumava dizer que Axel era “um Dervaux até no sangue: frio, meticuloso e disposto a passar por cima de tudo pra vencer”. O pai de Axel, em contrapartida, dizia que os Klein tinham um “complexo de superioridade e uma arrogância técnica que mascara mediocridade”. Poético, vindo de alguém que perdeu o campeonato de 2003 por causa de uma falha de projeto... de um carro desenhado pelo meu pai.
E, claro, ele nunca perdoou.
Nem quando tentaram um acordo — uma fusão de escuderias que terminou em uma briga judicial por quebra de contrato. Nem quando minha mãe chamou a mãe de Axel de “ornamento de paddock” numa coletiva.
Nem quando Axel e Victor se odiaram à primeira ultrapassagem.
Eu cresci ouvindo histórias sobre o que os Dervaux nos roubaram. Axel cresceu aprendendo a nos odiar com a mesma fluidez com que se aprende a pilotar.
E quando ele e meu irmão começaram a disputar posições como cães enjaulados na pista... eu estava lá. Vi os dois quase se socarem na garagem de Silverstone. Vi o sangue. O barulho de um capacete batendo na parede. As vozes. O aviso da FIA. As manchetes no dia seguinte:
"O Clã Klein x O Último dos Dervaux: uma rivalidade familiar vira guerra pública".
A questão é que, mesmo conhecendo essa história toda — mesmo sendo parte dela — eu nunca soube odiar Axel com neutralidade.
Não tem como odiar de longe alguém que está sempre perto o bastante pra mexer com sua respiração. Alguém que fala baixo no ouvido como se cada palavra tivesse dentes. Alguém que te olha como se pudesse desmontar tudo que você é com uma única frase — e um toque, se quisesse.
Mas ele não quer.
Axel me odeia também. E tem motivos pra isso. Começando pelo meu sobrenome. Continuando por todas as vezes que eu o enfrentei em público, nos bastidores, em entrevistas. Eu já expus um erro de estratégia da equipe dele numa coletiva da imprensa. Já corrigi um dado técnico que ele disse num podcast. Já neguei um pedido de aproximação para colaboração em projeto de engenharia com um e-mail intitulado: “Nem em outra vida.”
Então por que diabos ele me olha como se quisesse... qualquer coisa menos distância?
Estamos em Barcelona. Treino classificatório. A temperatura está alta o bastante pra derreter borracha. E eu estou, pela terceira vez hoje, tentando não notar o jeito como Axel ajusta as luvas antes de entrar no carro.
Ele percebe.
— Vai continuar me observando ou quer entrar no carro comigo? — pergunta, num tom rouco que, eu odeio admitir, mexe com alguma parte não autorizada do meu sistema nervoso.
Reviro os olhos. Me viro de volta pro meu painel de controle.
— É fascinante te ver tentando parecer um piloto decente. Uma espécie de ficção científica ao vivo.
— Eu gosto de ficção. Especialmente quando tem tensão s****l m*l resolvida.
Minha cabeça se vira antes que eu possa impedir.
— Você é insuportável.
— E você é fascinante quando tenta negar o óbvio.
Ele pisca. Pisca. Com aquele maldito sorriso de canto de boca, como se o mundo inteiro fosse um jogo e ele tivesse as cartas certas.
Por um segundo — só um — eu me pego imaginando como seria se essa guerra não existisse. Como seria se a gente se encontrasse em outro lugar, outro tempo, outra vida.
Mas aí lembro da história. Dos nomes. Dos segredos. Da raiva entalhada em gerações. E percebo que a gente não nasceu pra paz.
A gente nasceu pra colisão.
E talvez, no fundo, seja isso que me assusta mais.