Há coisas que me tiram do sério com facilidade: sensor de pressão m*l calibrado, jornalistas que me chamam de “musa da engenharia”, e Axel Dervaux encostado na minha bancada, com o zíper do macacão abaixado até o esterno.
Ele está suado. O macacão preto, com detalhes vermelhos da Eclipse Racing, fica pendurado da cintura pra baixo, revelando uma camiseta cinza escura colada no corpo, encharcada nas costas. A tatuagem do ombro direito aparece: uma caveira metálica cercada por engrenagens e rosas negras.
— Tem cinco boxes da tua equipe, Dervaux — falo sem tirar os olhos da tela, onde analiso os dados do treino do Victor. — Todos eles com refrigerador, banco acolchoado e café de imprensa. Vai encher o saco lá.
— Tentei. Mas lá ninguém grita comigo com tanta classe — ele responde, pegando uma chave de torque da minha bancada como se estivesse em casa. — Além disso, gosto da companhia. Odiar você virou meu hobby favorito.
Respiro fundo, giro nos calcanhares e o encaro.
— Pousa essa ferramenta antes que eu te enfie ela onde nem tua equipe consegue encontrar desempenho.
Axel ergue as mãos, rindo. O som rouco, abafado, como se estivesse entediado até no deboche.
— Que violência, Klein. Isso tudo é recalque porque estou liderando o campeonato?
Antes que eu possa responder — ou voar no pescoço dele — alguém entra pelos fundos da garagem com uma lata de energético na mão e um boné cor-de-rosa virado pra trás.
— Ok, respirações pesadas e tensão s****l em níveis de radiação. Cheguei na hora certa?
É Luca Mendes, meu melhor amigo desde o ensino médio, meu braço direito emocional, e o único que tem coragem de comentar em voz alta o que ninguém admite.
— Você chegou na hora de me ajudar a esconder um corpo — resmungo, enquanto Axel apenas sorri como se tivesse recebido um prêmio. — E para de falar “tensão s****l” na frente dele. O ego do Dervaux infla com essas coisas.
— Ah, meu amor — Luca se aproxima, encostando o braço no meu —, esse homem inflado já vem de fábrica. E, convenhamos... até que ele fica bonitinho quando para de falar.
Axel pisca pro Luca. Pisca.
— Finalmente alguém com bom gosto.
— Eu tenho ótimo gosto, inclusive pra identificar cafajestes com carisma. É um dom.
— Ótimo, então temos isso em comum — Axel responde, lançando um olhar direto pra mim. Um daqueles que não dizem nada e dizem tudo ao mesmo tempo.
Eu reviro os olhos e volto pra tela, tentando recalibrar a curva 5 dos dados de Victor. Mas sei que ele ainda está ali. Que me observa como se soubesse o efeito que tem. Como se tivesse certeza de que, mais cedo ou mais tarde, eu vou ceder.
Mas ceder não é uma opção.
Nem agora. Nem nunca.
— Por que você deixou ele ficar? — Luca pergunta baixinho depois que Axel finalmente se afasta, como se tivesse perdido o interesse. Ou vencido a batalha de olhares. Não sei qual das duas me irrita mais.
— Porque se eu chutasse o traseiro dele da garagem, isso só daria mais motivo pra ele voltar amanhã.
— Você percebe que ele tá te provocando com a mesma dedicação de um amante rejeitado?
— Ele me odeia. E o sentimento é recíproco. É um clássico caso de desprezo hereditário e ego masculino intoxicado.
Luca cruza os braços.
— Ah, sim. Mas e aquela encarada de “te pegaria aqui mesmo entre pneus slicks e graxa”? Isso vem do lado Klein ou do lado Dervaux?
— Luca...
Ele sorri e levanta as mãos.
— Tá bom, calei. Mas um dia você vai me agradecer por ter te forçado a admitir que quer dar uns pegas no arqui-inimigo da sua família.
Dou um sorriso irônico. Eu o amo demais pra negar que ele tem razão às vezes. Mas hoje, não.
Hoje tem coletiva de imprensa. E Victor me pediu pra acompanhá-lo porque o diretor de equipe está gripado.
E adivinha quem também vai estar na coletiva?
Sala de imprensa. 15h45.
Victor está do meu lado, com o semblante fechado, o mesmo que usa quando sabe que vai ter que dividir o palco com alguém que detesta.
Axel senta duas cadeiras à esquerda. Calmo. Perigoso. Com uma camisa social preta aberta no colarinho, mangas dobradas, e um relógio de pulso que provavelmente vale mais que meu carro.
— Isadora — ele diz num tom baixo enquanto todos se ajeitam —, você fica ainda mais bonita quando está prestes a esganar alguém em público.
— Pena que o mundo vai perder esse espetáculo. Hoje sou profissional.
— Que decepção. Quase me preparei emocionalmente pra isso.
Ele gira a caneta na mão. Um movimento distraído, mas com a precisão irritante de quem sabe que está sendo observado.
E eu observo. Porque, maldição, Axel tem presença. Não é bonito de um jeito clássico. É bonito de um jeito sujo, perigoso, como um precipício com vista bonita.
Victor me cutuca.
— Se ele te disser mais uma gracinha, vou levantar no meio da coletiva.
— E dar a ele o prazer de te provocar em cadeia internacional? Nem pense nisso.
— Não me peça pra fingir que ele não tá te comendo com os olhos.
— E eu tô devolvendo com ácido. Fica tranquilo.
Axel ergue uma sobrancelha na minha direção. Quase como se ouvisse.
Porque ele sabe. Axel Dervaux sabe. E isso é o que mais me irrita. Ele joga o jogo do ódio com a mesma maestria com que pilota — no limite, no risco, esperando que alguém perca o controle.
Mas hoje não sou eu quem vai perder.
No final da coletiva, quando todos estão dispersando, ele se aproxima. Baixo. Sorriso contido. Voz arranhada.
— Você não vai fugir de mim pra sempre, Klein.
— E você não vai parar de se iludir tão cedo, Dervaux.
Ele inclina o rosto, bem perto do meu ouvido.
— Não é ilusão. É só questão de tempo. Você odeia a ideia tanto quanto eu... mas a gente sabe o que tem aqui.
— O que tem aqui é guerra.
— E guerra, às vezes, termina na cama.
O sorriso dele. Lento. Maldito.
E pela primeira vez, eu fico sem resposta.
Mas não por muito tempo.
— Se for pra dormir com o inimigo, que pelo menos valha a pena. Espero que você seja bom em mais de uma pista, Dervaux.
Ele não responde. Só ri.
E se afasta.
Deixando no ar o cheiro da vitória — ou do desastre.