O aroma de café forte invade o corredor antes mesmo de eu sair do quarto. Descalça, com um short de moletom e uma camiseta surrada do GP de Monza 2019, sigo o cheiro até a cozinha, onde Victor está de costas para mim, mexendo algo numa panela enquanto a cafeteira faz aquele som reconfortante de promessa.
A casa está silenciosa, exceto pelo jazz suave que escapa das caixas de som embutidas na sala. A luz natural entra pelos janelões de vidro, refletindo no piso de mármore e nos quadros de automobilismo assinados por pilotos lendários. Nossos pais nunca economizaram no luxo — e nem no legado. Crescemos nesse palácio moderno como herdeiros do barulho de motores e rivalidades que nunca dormem.
— Se você usou aquele leite vegano de novo, juro que derrubo a caneca no chão — aviso com a voz rouca de sono.
Victor sorri por cima do ombro, ainda de avental.
— Relaxa. Café raiz hoje. Você teve uma semana difícil, achei que merecia.
— Uma semana difícil? Só fui ameaçada por um francês sarcástico com tatuagens de caveira umas cinco vezes. Coisa leve.
Ele ri. A risada do meu irmão é quente, limpa. Nunca imaginei que sentiria tanto alívio ao ouvi-la. Com ele por perto, tudo parece mais simples — como se o mundo pudesse, por um momento, desacelerar.
— Sério, Isa — ele diz, colocando a caneca na minha frente na bancada de mármore. — Você está aguentando firme demais, até pra você.
— E você está me observando demais, até pra você.
— Não é isso. É só que... sei lá. O Axel tem ficado mais... insistente. A imprensa tá adorando a rivalidade de vocês. E eu sei que esse cara é um problema.
Mordo o canto da boca. A caneca está quente entre as mãos, mas nada queime tanto quanto o peso da culpa entalado no meu peito. Porque Victor confia em mim — confia mesmo. E essa confiança se transforma em uma faca toda vez que meu estômago afunda por causa de um sorriso torto do Dervaux.
— Você acha que eu cairia na lábia daquele i****a?
Victor me encara, sério.
— Acho que você é inteligente o suficiente pra não cair. Mas também sei que ele vai continuar tentando. O cara é doente por competição. E a gente representa tudo que ele odeia.
Finjo um sorriso, mas minha garganta aperta.
— Eu odeio ele, Vic. De verdade.
E a pior parte é que não é mentira.
Eu o odeio. Odiar alguém não impede a atração. Às vezes, até a piora.
Victor estende a mão e bagunça meu cabelo como quando eu tinha doze anos. É o gesto mais fraterno e sincero que alguém já fez comigo.
— Só não deixa ele mexer com sua cabeça. Nem com seu coração. Nessa casa, a gente joga junto.
Engulo a culpa junto com o café.
Porque nessa casa, a gente joga junto.
Mas meu corpo está começando a jogar contra mim.
Horas depois, já estamos no autódromo. Uma sessão de reconhecimento de pista entre engenheiros e pilotos das equipes adversárias está prestes a começar — uma ideia bizarra da FIA para “incentivar o espírito esportivo”.
Acho irônico.
Axel acha divertido.
Ele chega atrasado, é claro. Com os óculos escuros pendurados na gola da camisa branca, a pulseira de couro no pulso esquerdo, o cabelo rebelde demais para parecer desleixado por acaso. A camiseta molda os ombros largos, e a calça jeans escura parece feita sob medida para suas pernas longas.
Minha boca seca. Droga.
— Perdi o começo da festinha? — ele pergunta, parando bem ao meu lado, com um sorriso entediado.
— A festa só começa quando você vai embora — disparo, girando os olhos.
— Então você deve adorar minha presença constante. Estou aqui só pra te irritar, Klein.
— Está se saindo bem. Agora, cala a boca.
Ele inclina o rosto pra mim, como se prestasse atenção em algo que não falei em voz alta. Os olhos escuros pousam no canto da minha boca e descem até o queixo. O olhar dele percorre meu rosto com uma lentidão indecente, e eu me obrigo a não me mexer.
Reaja com frieza. Reaja com ódio.
Mas meu coração acelera, e sinto o calor subir pelo pescoço.
— Você tá corando? — ele pergunta, com aquele maldito sorriso que levanta só um lado da boca.
— É o sol, i****a.
— Estamos dentro de um túnel.
— Então é alergia. À estupidez, talvez.
Ele ri. O som é baixo, quase íntimo. E meu abdômen responde com uma contração que eu odeio.
Não. Não agora. Não na frente dele.
Desvio o olhar para o chão. Tento focar nos detalhes técnicos que preciso repassar com a equipe. Mas sei que ele continua me olhando. Sinto como se seus olhos me encostassem.
— Você tá tremendo — ele murmura, perto demais.
— É raiva. E se você continuar colado em mim, vai sair com o rádio enfiado no...
— Na garganta? — ele completa, com o rosto tão próximo que sinto o perfume amadeirado, leve e c***l. — Isso já virou seu bordão. Gosto quando fica repetitiva. Mostra que tá perdendo o controle.
Eu travo o maxilar, forço o corpo a não ceder. Mas o sangue corre mais rápido. A pele arrepia. E as mãos, que antes estavam firmes nos papéis, agora seguram tudo com força demais.
— Eu te odeio, Axel. Você é um filho da...
— E mesmo assim, toda vez que eu chego perto, você para de respirar. Por quê?
Engulo em seco.
E não respondo.
Porque ele não merece saber.
Porque Victor está ali perto, conversando com um dos mecânicos. E se ele perceber — se ele souber — tudo o que construímos desmorona.
No fim do dia, de volta ao carro, sozinha, encosto a cabeça no volante por alguns segundos. A respiração ainda curta. O gosto metálico da tensão ainda na boca.
Meu celular vibra com uma mensagem de Luca:
LUCA: “Se você me disser que ainda odeia ele depois de HOJE, juro que largo minha carreira e viro monge tibetano.”
EU: “Ainda odeio.”
LUCA: “Sei. E eu ainda sou virgem.”
Rio, apesar de tudo.
Mas é um riso triste. Porque sei que, aos poucos, estou cruzando uma linha invisível. E cada provocação do Axel me arrasta mais fundo.
E eu não sei se consigo — ou quero — voltar atrás.