4 - Trégua de Sangue

1078 Palavras
O aroma de café forte invade o corredor antes mesmo de eu sair do quarto. Descalça, com um short de moletom e uma camiseta surrada do GP de Monza 2019, sigo o cheiro até a cozinha, onde Victor está de costas para mim, mexendo algo numa panela enquanto a cafeteira faz aquele som reconfortante de promessa. A casa está silenciosa, exceto pelo jazz suave que escapa das caixas de som embutidas na sala. A luz natural entra pelos janelões de vidro, refletindo no piso de mármore e nos quadros de automobilismo assinados por pilotos lendários. Nossos pais nunca economizaram no luxo — e nem no legado. Crescemos nesse palácio moderno como herdeiros do barulho de motores e rivalidades que nunca dormem. — Se você usou aquele leite vegano de novo, juro que derrubo a caneca no chão — aviso com a voz rouca de sono. Victor sorri por cima do ombro, ainda de avental. — Relaxa. Café raiz hoje. Você teve uma semana difícil, achei que merecia. — Uma semana difícil? Só fui ameaçada por um francês sarcástico com tatuagens de caveira umas cinco vezes. Coisa leve. Ele ri. A risada do meu irmão é quente, limpa. Nunca imaginei que sentiria tanto alívio ao ouvi-la. Com ele por perto, tudo parece mais simples — como se o mundo pudesse, por um momento, desacelerar. — Sério, Isa — ele diz, colocando a caneca na minha frente na bancada de mármore. — Você está aguentando firme demais, até pra você. — E você está me observando demais, até pra você. — Não é isso. É só que... sei lá. O Axel tem ficado mais... insistente. A imprensa tá adorando a rivalidade de vocês. E eu sei que esse cara é um problema. Mordo o canto da boca. A caneca está quente entre as mãos, mas nada queime tanto quanto o peso da culpa entalado no meu peito. Porque Victor confia em mim — confia mesmo. E essa confiança se transforma em uma faca toda vez que meu estômago afunda por causa de um sorriso torto do Dervaux. — Você acha que eu cairia na lábia daquele i****a? Victor me encara, sério. — Acho que você é inteligente o suficiente pra não cair. Mas também sei que ele vai continuar tentando. O cara é doente por competição. E a gente representa tudo que ele odeia. Finjo um sorriso, mas minha garganta aperta. — Eu odeio ele, Vic. De verdade. E a pior parte é que não é mentira. Eu o odeio. Odiar alguém não impede a atração. Às vezes, até a piora. Victor estende a mão e bagunça meu cabelo como quando eu tinha doze anos. É o gesto mais fraterno e sincero que alguém já fez comigo. — Só não deixa ele mexer com sua cabeça. Nem com seu coração. Nessa casa, a gente joga junto. Engulo a culpa junto com o café. Porque nessa casa, a gente joga junto. Mas meu corpo está começando a jogar contra mim. Horas depois, já estamos no autódromo. Uma sessão de reconhecimento de pista entre engenheiros e pilotos das equipes adversárias está prestes a começar — uma ideia bizarra da FIA para “incentivar o espírito esportivo”. Acho irônico. Axel acha divertido. Ele chega atrasado, é claro. Com os óculos escuros pendurados na gola da camisa branca, a pulseira de couro no pulso esquerdo, o cabelo rebelde demais para parecer desleixado por acaso. A camiseta molda os ombros largos, e a calça jeans escura parece feita sob medida para suas pernas longas. Minha boca seca. Droga. — Perdi o começo da festinha? — ele pergunta, parando bem ao meu lado, com um sorriso entediado. — A festa só começa quando você vai embora — disparo, girando os olhos. — Então você deve adorar minha presença constante. Estou aqui só pra te irritar, Klein. — Está se saindo bem. Agora, cala a boca. Ele inclina o rosto pra mim, como se prestasse atenção em algo que não falei em voz alta. Os olhos escuros pousam no canto da minha boca e descem até o queixo. O olhar dele percorre meu rosto com uma lentidão indecente, e eu me obrigo a não me mexer. Reaja com frieza. Reaja com ódio. Mas meu coração acelera, e sinto o calor subir pelo pescoço. — Você tá corando? — ele pergunta, com aquele maldito sorriso que levanta só um lado da boca. — É o sol, i****a. — Estamos dentro de um túnel. — Então é alergia. À estupidez, talvez. Ele ri. O som é baixo, quase íntimo. E meu abdômen responde com uma contração que eu odeio. Não. Não agora. Não na frente dele. Desvio o olhar para o chão. Tento focar nos detalhes técnicos que preciso repassar com a equipe. Mas sei que ele continua me olhando. Sinto como se seus olhos me encostassem. — Você tá tremendo — ele murmura, perto demais. — É raiva. E se você continuar colado em mim, vai sair com o rádio enfiado no... — Na garganta? — ele completa, com o rosto tão próximo que sinto o perfume amadeirado, leve e c***l. — Isso já virou seu bordão. Gosto quando fica repetitiva. Mostra que tá perdendo o controle. Eu travo o maxilar, forço o corpo a não ceder. Mas o sangue corre mais rápido. A pele arrepia. E as mãos, que antes estavam firmes nos papéis, agora seguram tudo com força demais. — Eu te odeio, Axel. Você é um filho da... — E mesmo assim, toda vez que eu chego perto, você para de respirar. Por quê? Engulo em seco. E não respondo. Porque ele não merece saber. Porque Victor está ali perto, conversando com um dos mecânicos. E se ele perceber — se ele souber — tudo o que construímos desmorona. No fim do dia, de volta ao carro, sozinha, encosto a cabeça no volante por alguns segundos. A respiração ainda curta. O gosto metálico da tensão ainda na boca. Meu celular vibra com uma mensagem de Luca: LUCA: “Se você me disser que ainda odeia ele depois de HOJE, juro que largo minha carreira e viro monge tibetano.” EU: “Ainda odeio.” LUCA: “Sei. E eu ainda sou virgem.” Rio, apesar de tudo. Mas é um riso triste. Porque sei que, aos poucos, estou cruzando uma linha invisível. E cada provocação do Axel me arrasta mais fundo. E eu não sei se consigo — ou quero — voltar atrás.
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