Capítulo 5 - Dança

1026 Palavras
O salão do Hotel du Monde brilha como se quisesse competir com as estrelas. Lustres de cristal tremulam no alto como se sussurrassem segredos antigos. Garçons deslizam como sombras elegantes entre mesas douradas, e o chão reflete tudo — do champanhe ao pecado. O evento anual beneficente da Federação é um desfile de vaidades e trajes caros. Pilotos, engenheiros, chefes de equipe, patrocinadores e tubarões da mídia. Todos reunidos sob o verniz da caridade, mas com os olhos afiados como bisturis. Minha mãe sempre disse que festas assim são guerras em vestidos longos. Eu estou pronta para a batalha. Vestido preto justo, sem alças, com uma f***a lateral indecente o suficiente para deixar jornalistas ocupados por dias. Meu cabelo está solto, ondulado até o meio das costas. Batom vermelho sangue. Salto agulha. E, escondido sob a pele perfumada, um arsenal de sarcasmo e raiva. Victor caminha ao meu lado como se fosse meu segurança pessoal — terno escuro, gravata discreta, e aquele ar protetor que me acompanha desde que ele me ensinou a andar de bicicleta. — Parece que você vai matar alguém hoje — ele comenta, sorrindo com o canto da boca. — Só se ele pisar no meu vestido. Ou abrir a boca. — Ele. Entendi. Fingimos que não sabemos de quem estamos falando. Mentir é uma arte que aprendemos cedo, na pista e fora dela. Luca, meu melhor amigo, aparece com um martíni na mão e um brilho travesso nos olhos. — Amor, você está uma obra de arte. Se eu fosse hétero, te pediria em casamento agora mesmo. — Se você fosse hétero, eu recusaria com classe — retruco, beijando sua bochecha. — Fair enough. A festa é uma névoa de risos contidos, cumprimentos fingidos e tensão social. Até que, claro, ele chega. Axel Dervaux. Em um smoking preto perfeitamente ajustado, camisa aberta no colarinho e aquele cabelo bagunçado de quem acordou sexy e decidiu não consertar. Ele avança pelo salão como se o chão lhe pertencesse, ignorando cumprimentos como se a atenção fosse seu direito nato. E então, como um imã com sede, ele me encontra. Meus olhos fazem o erro imperdoável de subir até os dele. Azul. Não céu. Não gelo. Azul perigo. Como farol de navio — te guia e te afunda, tudo ao mesmo tempo. Ele sorri. Maldito. — Você veio, Klein — diz, parando ao meu lado. — Não imaginei que sobrevivesse tanto tempo longe da graxa e das planilhas. — Achei que hoje fosse uma noite pra caridade, não pra provocar náusea. — Ah, mas eu faço as duas coisas muito bem. Ele está perto demais. O perfume dele é amadeirado e cheio de notas que minha sanidade não consegue ignorar. Cedro, pimenta, e aquele toque de pecado que devia ser ilegal em dez países. — Vai continuar me encarando ou vai me dar um soco? — ele pergunta, com um gole de champanhe. — Estou decidindo. Tenho salto suficiente pra te perfurar o ego. — Boa sorte. Ele é blindado. — Como sua alma? — Como seu autoengano. Não há plateia. Mas há eletricidade. A f***a do meu vestido parece mais ousada agora, porque os olhos dele passam por ela com a calma de um pecado que não tem pressa. Meus joelhos querem ceder. Eu os ignoro. — Dança comigo — ele solta, como quem faz um desafio, não um convite. — Nem morta. — Pena. Com esse vestido, você foi feita pra dançar comigo. E talvez pra matar também, mas gosto de viver perigosamente. O DJ muda o ritmo. Jazz moderno com batida lenta. Casais deslizam para a pista de dança iluminada por um clarão suave. — Um dança — ele insiste. — Ou admite que tem medo. — Medo? — De que seus joelhos realmente cedam. Que seu corpo seja mais honesto que sua boca. Sorrio. Fina. Gelada. — Você é egocêntrico demais. E burro. — Ótimo. Os burros dançam bem. Não sei por que aceito. Talvez porque a ideia de mostrar o quanto não me afeta seja mais tentadora que o bom senso. Talvez porque uma parte de mim quer saber o que acontece quando nossos corpos estão tão perto que as farpas se transformam em faíscas. Coloco minha mão na dele. É quente, firme. Perigosa. Ele me puxa com calma. A mão dele repousa na minha cintura com propriedade demais. A outra segura minha mão com a arrogância dos que sabem que vão vencer. A dança começa. Meus passos seguem os dele, mas com tensão no maxilar. O silêncio entre nós está carregado de pensamentos que jamais serão ditos. — Está tremendo — ele sussurra. — Estou com frio. — Não está. — Você é insuportável. — E você é deliciosa quando mente. Meus dedos apertam o ombro dele com mais força. — Você não é nada. — Então por que me olha como se quisesse que eu fosse tudo? A música gira. Nós giramos. E por um segundo, ele encosta a testa na minha. Como se quisesse desarmar tudo, sem dizer nada. Minha respiração falha. — Se você me beijar, Axel... — murmuro, a boca perto demais da dele. — Vai me matar? — ele provoca, os olhos cravados nos meus. — Não. Vou me arrepender. — Mentira. E antes que ele ouse, me afasto. Corto a dança no meio, viro as costas e caminho pela pista como se meus joelhos não estivessem feitos de gelatina. Preciso de ar. Preciso de longe. Mas lá no fundo, sei que só estou adiando o inevitável. Horas depois, de volta em casa, estou sentada no piano da sala, só de camisola e meia, tocando notas soltas, sem ritmo, só pra acalmar o coração. Victor entra na sala, ainda de smoking, com duas taças de vinho. — Você estava deslumbrante hoje. — Obrigada. Ele me estuda por um instante. Sempre me lê demais. — Ele tentou alguma coisa? — Quem? — O demônio francês de olhos azuis. Engulo seco. Finjo desdém. — Só uma dança. — E? — E eu continuei odiando. Victor sorri. Tranquilo. Inocente. Eu minto bem. Mas meu coração não. E talvez ele esteja ficando cada vez mais fluente em francês.
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