A luz do salão já não brilha como antes.
Ou talvez seja só o gosto de veneno que agora paira no ar — invisível, mas palpável como eletricidade antes da tempestade.
Estou de volta à mesa com Victor e Luca quando escuto os primeiros sussurros. Eles nascem tímidos, como uma vírgula fora do lugar, e se espalham com velocidade de manchete. Celulares piscam. Telas se acendem. Olhares se viram. Algo aconteceu.
Algo grande.
Victor pega o telefone. Franze a testa. Depois seus olhos me encontram, duros.
— Merda — diz ele, seco. — Saiu agora. Uma matéria no La Pistone. Diz que papai teria comprado influência sobre o comissariado técnico na temporada de 2018. Adivinha quem deu entrevista sugerindo isso?
— Quem?
Ele apenas inclina o queixo em direção ao bar.
Axel.
Fixo nele. E o vejo. Encostado no balcão, rodeado de repórteres. Ele gesticula pouco, fala baixo. Mas seus olhos — os malditos olhos azuis — estão frios. Muito frios.
A dor que se instala no meu peito não é de decepção. É de traição. E raiva.
Raiva por ter dançado com ele. Por ter sentido o calor de sua mão nas minhas costas como se fosse algo mais. Por ter, por um momento, acreditado que havia algo nele além da guerra.
Victor se levanta, mas seguro seu braço.
— Não — digo. — Deixa comigo.
Caminho até Axel sem pensar. Sem respirar.
Ele me vê antes de eu abrir a boca. E, por um instante, há algo no rosto dele que não é arrogância. É surpresa. É culpa.
— Você é rápido com as palavras — digo, sem sorrir.
— Klein...
— Não me chama assim agora. Nem tenta.
— Eu não mencionei nomes.
— Mas sabia o que estavam buscando. E entregou com fita dourada.
Ele fecha a mandíbula. Os olhos dele me perfuram, mas sem o brilho de sempre. Há fogo ali. Só que não é o que eu esperava.
— Eu não sabia que iam publicar hoje.
— Ah, claro. E isso muda tudo? Vai imprimir outro artigo e mandar por fax pedindo desculpas?
— Você acha que eu queria isso? — ele solta, quase entre dentes.
— Acho que você sempre quis ver nossa família no chão.
— Não é sobre a sua família — ele diz, se aproximando. — Isso é entre mim e o seu pai.
— O meu pai está morto.
Silêncio.
A frase sai como uma lâmina que corta mais fundo do que eu pretendia. Ele pisca, como se levasse um soco no estômago.
— Eu sei. E mesmo assim ele ainda está entre nós, não está? — Ele passa a mão pelo cabelo, frustrado. — Não é fácil esquecer o homem que quase destruiu tudo o que meu pai construiu.
— E isso justifica usar a imprensa como faca?
— Você acha que isso é sobre vingança? — pergunta ele, com a voz grave, tensa. — Acha que eu me presto a isso porque gosto?
— Não sei o que você gosta, Axel. Talvez só da parte em que me provoca até o limite e depois se afasta, como se nada tivesse acontecido.
Ele me encara.
E, pela primeira vez, vejo o homem atrás do sarcasmo.
— Você não faz ideia do que está acontecendo comigo — ele diz, baixo. — Eu... não consigo mais desligar isso.
— Isso o quê?
— Esse maldito incêndio que você acendeu e que está me consumindo vivo.
O ar ao redor some.
Ele se aproxima mais um passo. O suficiente para eu sentir a tensão no corpo dele. O maxilar travado. Os punhos fechados. A dor de quem quer ceder e destruir ao mesmo tempo.
— Eu tento te odiar — ele diz, quase num sussurro. — Tento todos os dias. Juro por Deus. Mas está ficando impossível.
Sinto as palavras entrarem como choque. Meu corpo responde antes da razão — os pelos do braço se arrepiam, meu peito aperta.
Quero dizer que sinto o mesmo.
Mas o orgulho é uma armadura que não se tira na frente do inimigo.
— Problema seu — sussurro.
Ele ri, mas é um riso sem humor. E, por um segundo, o vejo despido da pose.
— Você acha que eu gosto de sentir isso? — pergunta. — Que gosto de te ver com outros homens, ou dançando com esse vestido como se não soubesse que estou te devorando com os olhos?
— Então por que faz isso?
Ele fecha os olhos, respira fundo, e responde:
— Porque se eu encostar de verdade, se eu quebrar essa linha... Não tem volta. E isso me assusta mais do que qualquer pista molhada.
O mundo inteiro desaparece. O salão, as luzes, os flashes. É só ele. E eu. E esse fio invisível entre nós, prestes a arrebentar.
Mas não arrebenta. Porque sou eu quem recua primeiro.
— Você quer me destruir, Axel. Só não sabe se quer fazer isso com raiva... ou com desejo.
— Talvez eu só queira você — ele murmura. — Mas do meu jeito. E esse jeito é errado.
— Então continue errado. Mas longe de mim.
Viro as costas antes que minhas pernas fraquejem. Antes que a parte de mim que está se apaixonando por esse i****a me traia. De novo.
Minutos depois, no jardim do hotel, Luca me encontra sentada em uma mureta, com os sapatos na mão e os olhos perdidos no céu.
— Você está bem?
— Não faço ideia.
— Ele disse algo?
— Sim. Disse tudo o que eu queria ouvir. Do pior jeito possível.
Luca senta ao meu lado. Me entrega um bombom de sobremesa que roubou da mesa de doces.
— A verdade dói, amor. Mas às vezes ela é só o ensaio da queda. E, quem sabe... também do voo.
Sorrio, triste.
A queda, eu já comecei.
O voo… é o que mais me assusta.