6 Angelina

2521 Palavras
Não tenho certeza do que me acorda, mas no momento em que abro os olhos, sei que não estou sozinha no quarto. O relógio digital na mesa de cabeceira mostra duas da manhã. Sento na cama e olho ao redor do quarto. Eu não o noto a princípio porque ele se mistura bem com a escuridão. A única coisa que o denuncia é o cabelo, apanhado pelo luar que entra pela janela. "Me desculpe se eu acordei você,” diz Sergei de seu lugar na poltrona. Duvido que tenha sido ele quem me acordou. Ele está sentado tão quieto que, se eu não soubesse onde olhar, não o teria notado. “Não consegue dormir?” Eu pergunto. "Não." Ele parece relaxado, mas há algo no tom de sua voz que parece... errado de alguma forma. "Por quê?" “Muita merda nos últimos dois dias.” “Você deveria me deixar ir então. Uma coisa a menos para você se preocupar.” "Eu vou. Quando você me disser a verdade.” Eu pisco. "Que verdade?" "Por que você estava no caminhão cheio de drogas que foi enviado para os albaneses, e por que você estava quase morta de fome quando a encontramos?" ele pergunta casualmente. "Nós podemos começar com por que você mentiu para mim em primeiro lugar, Srta. Sandoval." Ah, f**a-se. Fechei os olhos, tentando conter o aumento do pânico. Ele sabe quem eu sou, mas parece que não sabe que Diego está procurando por mim, então nem tudo está perdido. “Como você sabe quem eu sou? Nós nunca nos conhecemos.” “A Bratva sempre faz uma pesquisa minuciosa de todos os nossos potenciais parceiros. Inclusive seus familiares. Não adianta mais mentir.” Abro os olhos e o encontro me observando. “Então, e agora?” “Agora me diga o que estava fazendo naquele caminhão.” Eu desvio o olhar. Sem chance no inferno que eu possa dizer a verdade a ele. A Bratva faz negócios com Diego, então eles vão me mandar de volta assim que souberem que ele está me procurando. Não estou arriscando. “Foi pessoal. Não deveria preocupar você ou a Bratva.” “Tudo o que acontece nesta cidade diz respeito à Bratva. Especialmente quando uma princesa do cartel pousa aos meus pés, aparentemente do nada.” “Foi você quem me encontrou?” Eu pergunto. "Sim." Ele se inclina para trás e inclina a cabeça para cima, olhando para o teto. “Mikhail e eu fomos interceptar o carregamento. A informação que dissemos que haveria uma garota no caminhão, então tiramos você antes que eu explodisse.” “Você explodiu o caminhão cheio de drogas? Por que não apenas levá-lo?” “Pakhan queria fazer uma declaração.” Ele dá de ombros como se fosse completamente normal destruir vários milhões de dólares em produtos apenas para fazer uma declaração. “Uma declaração bastante cara.” "Sim. Roman é um fã de teatro.” Ele olha para mim. “Vou pedir a Nina que te mande mais roupas amanhã.” “Nina?” Essa é a namorada do Sergei? Olho para a camiseta que estou vestindo. O fato de eu estar vestida com as roupas da namorada dele não me cai bem. "Esposa de Roman,” ele esclarece. "Oh. Passe a ela meus agradecimentos.” Ainda bem que não são coisas da namorada dele. “Eu preciso que você me deixe ir, Sergei. Por favor." "Claro. Assim que você me disser o que eu preciso saber.” Eu pressiono meus lábios e me deito, cobrindo-me com o cobertor até o queixo. “Nada para compartilhar?” "Não,” eu murmuro. “Quando isso mudar, me avise e discutiremos sua liberdade.” Eu o encaro por um longo tempo enquanto ele continua sentado ali, olhando para o teto em silêncio, seu corpo completamente imóvel. Já ouvi histórias sobre ele. Os homens do meu pai adoravam fofocar, especialmente quando ficavam bêbados. Pelo que eles disseram, tive a impressão de que Sergei Belov era algum tipo de assassino enlouquecido, andando por aí e matando pessoas sem motivo. Agora que o conheci, no entanto, essa imagem não parece exata. Ele não me parece tão louco. Na verdade, ele age como um cara bem normal. Talvez eu possa tentar seduzi-lo, e então fugir quando ele baixar a guarda. Okay, certo. Eu quase rio em voz alta ao pensar em Angelina Sandoval, uma nerd de livros e esquisita local que dormiu com exatamente um homem em seus vinte e dois anos, tornando-se uma rainha da sedução. Ele riria de mim se eu tentasse. Eu deixo meus olhos viajarem sob seu corpo, notando a forma como seu peito largo e ombros esticam o material da camiseta preta que ele está vestindo, e paro minha inspeção em seus antebraços. Grosso, forte e com músculos perfeitamente moldados. Algumas mulheres são atraídas pelo cabelo ou pela boca de um homem. Eu sempre fui uma garota de antebraços. Eu bocejo. Ele espera que eu vá dormir com ele à espreita lá? Eu normalmente posso adormecer nos lugares mais estranhos. Na verdade, uma vez eu adormeci em um bar, me apoiando no ombro de Regina enquanto um cara tentava convencê-la a sair com ele. Mas acho que não consigo dormir enquanto um estranho, que considero uma ameaça, está sentado no mesmo quarto. E se ele tentar alguma coisa? Embora houvesse oportunidades suficientes para ele fazer isso enquanto eu estava desmaiada naquela primeira noite, e ele não o fez. Minhas pálpebras estão ficando pesadas, então decido fechálas, mas apenas por um momento. Porque de jeito nenhum eu vou me deixar dormir de verdade... * * * O toque de um telefone me acorda. Na verdade, consegui adormecer enquanto o soldado da Bratva estava no mesmo quarto. As pessoas vão à terapia quando têm problemas para dormir, mas parece que preciso de ajuda para saber quando não adormecer. Ainda está parcialmente escuro lá fora, com o amanhecer se aproximando rapidamente. Eu me viro para olhar para a poltrona e encontro Sergei ainda sentado lá, segurando o telefone no ouvido. Ele ouve a pessoa do outro lado, e seu corpo de repente fica rígido, a expressão em seu rosto mudando de ligeiramente tensa para volátil. Ele não diz nada, apenas abaixa o telefone e o encara como se quisesse esmagá-lo. "Más notícias?" eu murmuro. Ele não responde, apenas mantém os olhos no telefone com tanta raiva que me pergunto se a coisa vai entrar em combustão com a intensidade de seu olhar. Não tenho certeza do que está acontecendo, mas está claro que algo aconteceu e não é bom. Não deveria me importar. Afinal, o cara está me mantendo prisioneira em sua casa indefinidamente, a menos que eu derrame meus segredos. Mas ele salvou minha vida. Eu provavelmente estaria morta se ele não me encontrasse, ou talvez pior se fosse outra pessoa. Eu deveria apenas voltar a dormir, mas não posso. Então, contra meu melhor julgamento, eu saio da cama e caminho lentamente em direção à poltrona reclinável até que estou bem na frente dele. "Você está bem?" Eu pergunto. Nada. “Sergei?” Nada ainda. Ele só fica olhando para o telefone. Estendo a mão e cutuco seu ombro com a ponta do meu dedo. Sua cabeça se levanta, e eu começo a registrar as coisas que perdi à distância. A maneira como ele range a mandíbula, o leve tremor de sua mão esquerda e o som de sua respiração – que é um pouco mais rápida que o normal. Mas acima de tudo, fico surpresa com seus olhos, que estão desfocados como se ele estivesse olhando através de mim. "Sim?" ele pergunta, sua voz soando... distante de alguma forma. "Aconteceu alguma coisa?" Ele fecha os olhos por um segundo e respira fundo. “Volte para a cama. Eu vou partir." Há algo errado. Só não consigo identificar o quê. Ele parece irritado e agitado, mas tentando mantê-lo consciente. Além desses pequenos sinais, ele parece perfeitamente composto. Ele tem razão. Eu deveria voltar para a cama. O que está acontecendo com ele não é problema meu. Eu não deveria me importar. Então, por que eu me importo? Eu me concentro em seus olhos novamente. Sim, o olhar neles é realmente estranho. "Você está meditando ou algo assim?" Eu pergunto. Ele pisca, e eu posso estar errada porque ainda está escuro no quarto, mas seus olhos parecem mais focados agora. “Eu não estou meditando, porra.” Ele balança a cabeça. “Acabei de receber uma atualização sobre meu amigo que foi baleado ontem. Aquele que estava comigo quando te encontramos. Mikhail.” "Oh." Deve ser por isso que ele saiu de casa ontem de manhã. "Como ele está?" "Ruim." “Será que ele vai sobreviver?” “Eles apenas o levaram para a cirurgia novamente. Ele tem hemorragia interna.” "Vocês dois são próximos?" Eu coloco minha mão em sua esquerda e a roço levemente. Seus olhos agora estão cravados em mim, e o tremor da mão sob a minha parece parar. "Na verdade não,” diz ele. “Mas eu vou matá-lo se ele morrer.” Eu sinto os cantos dos meus lábios se curvarem levemente. Ele está voltando de onde ele foi antes. “Nesse caso, ele provavelmente vai ficar vivo.” Sem interrompe nosso contato visual, Sergei desliza a mão debaixo da minha e envolve os dedos em volta do meu pulso. “Quem te deixou com fome?” ele pergunta se inclinando em minha direção. "Eu fiz,” eu digo. “Estava em greve de fome.” "Por quê?" Inclino minha cabeça ligeiramente para que nossos narizes quase se toquem e encarem aqueles olhos claros. “Eu não posso te dizer.” Seus lábios se alargam. "Eu vou descobrir, lisichka." “Lisichka?” Eu arqueio uma sobrancelha. Eu não conheço essa palavra. "Pequena raposa." Ele segura meu queixo entre os dedos. “Apropriado, você não acha?” "Na verdade, não." Ele sorri, balança a cabeça e se levanta da poltrona. Eu esqueci o quão alto ele é. “Sim, eu acho que é perfeito.” Ele acaricia meu queixo com o polegar, então se vira e se dirige para a porta. “Volte a dormir, minha pequena mentirosa.” Roman liga por volta do meio-dia para me avisar que Mikhail saiu da cirurgia e que ele deve ficar bem. Desmaiei no sofá da sala pouco depois. Raramente consigo dormir durante o dia, mas meu cérebro finalmente conseguiu o memorando do meu corpo, que estava operando com apenas algumas horas de sono nos últimos três dias. Quando acordo, já são quase quatro. “Você precisa deixar aquela garota sair do seu quarto. Ela vai mofar lá,” diz Felix, passando por mim, e me bate com um pano de cozinha. no meu ombro. “E se você planeja mantê-la aqui, você precisará conseguir algumas roupas para ela. Além de Nina. E sapatos." "Merda." Eu me sento e passo minha mão pelo meu cabelo. “Onde posso conseguir roupas femininas?” “Em uma dessas coisas que eles chamam de lojas. Você pode encontrar muitas dentro dos grandes edifícios conhecidos como shoppings.” “Que comediante.” Eu me levanto. "Que tal você ir comprar algumas coisas para ela?" "Oh não. Ela é sua prisioneira, então você é quem deve vesti-la e alimentá-la. E já estou fazendo a parte da alimentação.” “Tudo bem, tudo bem. Eu vou imediatamente. Tenho uma reunião com Shevchenko mais tarde.” “Achei que Shevchenko disse que não quer mais falar de negócios com você. Desde que você tentou cortar a mão dele e tudo.” “Ele está exagerando,” eu digo por cima do meu ombro enquanto procuro meu capacete. "Então, você não tentou cortar a mão dele?" “Claro que sim.” Eu mudo através do lance que foi jogado ao acaso sob o sofá. "Você levou o almoço para Angelina?" "Não. Vou buscá-la e dar-lhe o almoço na cozinha. Ela precisa esticar as pernas. Mas você precisa afastar Mimi para que ela possa sair da sala.” “Certifique-se de que ela não fuja.” Eu digo para o meu cão de guarda, e Mimi desce as escadas. “E não se esqueça de me dar a informação que eu pedi. Eu preciso de tudo o que você pode encontrar sobre ela.” Olho ao redor da sala. "Onde diabos está meu capacete?" “Sala de jantar,” Felix diz e continua tirando o pó da TV. "Porque você está fazendo isso? É o trabalho de Marlene. Onde ela está?" “Ela está brava porque eu cancelei nosso encontro já que eu tinha que bancar o carcereiro. Ela me disse que vai tirar o resto da semana de folga.” “Marlene é minha governanta. Ela não pode dizer que está tirando uma semana de folga.” Ele se vira para mim com as mãos nos quadris e me encara. "Estou fazendo o trabalho, então não importa, não é?" "Funciona para mim." Eu levanto minhas mãos em defesa. "Estou fora." * * * Eu paro no meio da loja e me viro, olhando para as prateleiras de roupas femininas de um quilômetro e meio de comprimento. Merda. Por onde eu começo? “Precisa de ajuda?” uma atendente da loja pergunta, vindo para ficar ao meu lado. "Sim. Por favor." "Ok." Ela ri. "O que você precisa? Um presente?" "Eu preciso de tudo,” eu digo. "Tudo?" "Sim. Uma amiga está hospedada comigo e perdeu a bagagem. Ela precisa de tudo.” "Sem problemas. Que tamanho?" Encaro a senhora, que provavelmente pensa que sou um i****a. “Um pouco mais de um metro e meio. Cerca de quarentas quilos. Isso ajuda?" “Sapatos também?” "Sim. Vou ter que perguntar o tamanho para isso.” "Claro. Você quer escolher ou quer que eu faça isso para você?” Olho para todas as prateleiras e estremeço. "Sua vez. Jeans, camisetas, uma jaqueta. Coisas casuais.” "Ok. Quantas de cada?” “Digamos por um mês.” “Meias, calcinhas? Vou precisar do tamanho do sutiã.” “Hum. Médio?" Ela ri e balança a cabeça. “Vamos fazer sutiãs esportivos. Esses são elásticos.” “Sim, isso funcionaria.” "Perfeito. Vou começar a recolher suas coisas. Você pode esperar lá, ou você pode ir até a loja ao lado e comprar alguns cosméticos para ela, se ela precisar.” "Eu farei isso. Por favor, certifique-se de escolher as coisas boas. Sem limite de orçamento.” Eu mando uma mensagem para Felix, perguntando sobre o tamanho do sapato de Angelina, e vou até a loja vizinha. Quando digo à atendente o que preciso, ela começa a me fazer perguntas sobre o tipo de pele e cabelo, como se eu devesse conhecer essa porcaria. Então eu só digo a ela para me dar um de tudo. Trinta minutos depois, encontro-me ao lado da minha motocicleta com dezenas de sacolas nas mãos. Eu deveria ter trazido o carro, mas não pensei nisso. Acabo chamando um táxi para levar as sacolas de volta para casa e ir para casa.
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