Capítulo 2 — Dmitry

1012 Palavras
Dmitry — A máfia italiana acha mesmo que pode mexer com a gente e sair impune? Minha voz saiu baixa, mas carregada de irritação. Eu estava sentado atrás da mesa grande da sala principal da sede enquanto analisava os relatórios que tinham sido deixados ali poucas horas antes. As folhas estavam espalhadas sobre a madeira escura, marcadas com anotações e números que confirmavam aquilo que já sabíamos desde a madrugada. Uma das nossas cargas tinha sido atacada. E não tinha sido um roubo qualquer. Foi um recado. Levantei os olhos lentamente e encarei o homem sentado do outro lado da mesa. — Eles estão nos testando. Mikhail apoiou os cotovelos sobre os joelhos, olhando os mesmos papéis que eu tinha acabado de jogar sobre a mesa. Meu irmão sempre foi mais silencioso do que eu. Mas isso não significava que ele era menos perigoso. Muito pelo contrário. — Não foi um ataque pequeno — ele disse calmamente. — Eles sabiam exatamente qual caminhão atingir. Eu soltei uma respiração irritada. A sala estava silenciosa, mas carregada de tensão. A sede da organização era um prédio antigo reformado no centro da cidade. Por fora parecia apenas mais um edifício empresarial, mas por dentro era onde todas as decisões importantes da nossa família eram tomadas. Onde os homens que controlavam metade dos negócios ilegais da cidade se reuniam. Onde as ordens que moviam milhões de dólares eram dadas. E onde eu estava sentado agora. Meu nome é Dmitry Marino. Eu tenho vinte e nove anos. E sou o Don da máfia russa. Eu nasci dentro desse mundo. Cresci ouvindo conversas que nenhuma criança deveria ouvir e aprendendo desde cedo que confiança era uma coisa rara e perigosa. Meu pai sempre dizia que liderança não era algo que se escolhia. Era algo que se assumia. E quando ele morreu… essa responsabilidade caiu sobre mim. Não foi algo que eu pedi. Mas foi algo que eu aceitei. Eu me levantei da cadeira devagar, sentindo o peso da irritação ainda pulsando dentro de mim. Sou um homem alto. Sempre fui. Os anos de treinamento e disciplina deixaram meu corpo forte, com ombros largos e músculos que não eram apenas aparência. A maioria das pessoas que me encontra pela primeira vez diz que eu sou bonito. Mas raramente dizem isso em voz alta. Talvez porque os meus olhos azuis acinzentados costumam deixar claro que eu não sou o tipo de homem que gosta de elogios. Ou talvez porque sabem que beleza não significa nada quando se está diante de alguém que pode decidir o destino de uma vida em poucos segundos. Passei a mão pelos cabelos negros enquanto caminhava pela sala. A única tatuagem que tenho cobre parte do meu ombro. Um urso. O símbolo da nossa família. Força. Proteção. E fúria. — Quantos homens perdemos? — perguntei. Mikhail levantou os olhos. — Dois mortos. Minha mandíbula apertou. — E a carga? — Metade foi destruída. Eu parei diante da janela grande que dava vista para a rua. Lá fora a cidade continuava funcionando normalmente. Carros passando. Pessoas andando. Gente vivendo a própria vida sem fazer ideia de quantas guerras silenciosas aconteciam todos os dias nos bastidores daquele lugar. — Os italianos estão ficando ousados — murmurei. Mikhail se levantou também. — Talvez eles achem que você é jovem demais para manter o controle. Eu soltei uma pequena risada sem humor. — Então eles vão aprender rápido. Eu me virei novamente para a mesa e apoiei as mãos sobre a madeira. — Quero saber exatamente quem organizou esse ataque. — Já estamos investigando. — Não. Minha voz saiu mais firme. — Eu não quero investigação. Quero nomes. Mikhail me observou por alguns segundos. Ele me conhecia bem o suficiente para saber exatamente o que aquela frase significava. — Você quer sangue. — Eu quero respeito. O silêncio que se formou na sala foi pesado. Porque dentro do nosso mundo as duas coisas costumavam significar a mesma coisa. Mikhail caminhou até a mesa e pegou um dos relatórios. — Temos uma suspeita. Eu levantei os olhos. — Quem? Ele abriu a boca para responder. Mas antes que qualquer palavra saísse… Um estrondo violento sacudiu o prédio inteiro. A explosão foi tão forte que as janelas vibraram. O som ecoou pelo prédio como um trovão. Por um segundo nós dois ficamos imóveis. Então vieram os gritos. Passos correndo pelo corredor. O barulho de homens falando alto. A porta da sala se abriu com força. Um dos nossos soldados entrou praticamente correndo. O rosto dele estava pálido. — Don! Meu corpo inteiro ficou tenso instantaneamente. — Fala. Ele respirou fundo. — A sede está sendo invadida. Por um segundo o silêncio tomou conta da sala. Então eu senti algo frio se formar dentro do meu peito. Não medo. Raiva. — Quantos? — Não sabemos ainda. Ele passou a mão no rosto nervosamente. — Eles explodiram o portão lateral. Mikhail já estava pegando uma arma que estava sobre a mesa. — Italianos? O soldado balançou a cabeça. — Parece que sim. Eu caminhei até o armário de armas e peguei a minha pistola com calma. O peso familiar da arma na minha mão trouxe uma sensação estranha de tranquilidade. Meu coração estava batendo forte agora. Mas minha mente estava completamente clara. — Quantos homens temos aqui dentro? — Uns vinte. Eu destravei a arma. — Então já é mais do que o suficiente. Mikhail olhou para mim. — Dmitry… Eu levantei os olhos para ele. — Eles cometeram um erro enorme hoje. Outro disparo ecoou no andar de baixo. Mais gritos. O barulho de tiros começou a subir pelo prédio. Eu caminhei até a porta. Sentindo algo quase familiar crescer dentro de mim. A adrenalina. A fúria. A certeza de que quem tinha decidido começar aquela guerra tinha escolhido o lugar errado para fazer isso. Eu olhei para o soldado. — Avise todos os homens. Ele assentiu. — Sim, Don. Eu respirei fundo. Então olhei para Mikhail. — Vamos mostrar para eles o que acontece quando alguém invade a casa de um Marino.
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