Capitulo 23_ O que as sombras escondem

1304 Palavras
A manhã em Noctávia nasceu cinzenta, pesada, como se a cidade pressentisse que algo invisível estava prestes a se romper. Gabriel acordou com o coração inquieto, não por medo, mas por uma estranha sensação de vigilância. Helena ainda dormia ao seu lado, o rosto sereno, os cabelos escuros espalhados sobre o travesseiro como uma sombra delicada. Por um instante, ele quase conseguiu acreditar que eram apenas um casal comum, vivendo uma paixão comum, numa cidade comum. Quase. Ele deslizou os dedos pelo braço dela com carinho silencioso antes de se levantar. Precisava de ar. Precisava de distância daquela energia crescente dentro de si que pulsava de maneira diferente desde as últimas noites. O poder que o habitava não era mais apenas um sussurro — era uma presença. Foi ao sair do prédio que o encontrou. Adrian Montenegro estava encostado ao carro preto, impecável como sempre, as mãos cruzadas à frente do corpo, o olhar azul-acinzentado fixo em Gabriel com uma calma ameaçadora. Não parecia um homem esperando. Parecia um predador avaliando. — Doutor Monteiro_ disse Adrian, a voz baixa, controlada. — Precisamos conversar. Gabriel sentiu o ar ao redor ficar mais denso, mas não recuou. — Não temos nada a conversar. Adrian inclinou levemente a cabeça, quase sorrindo. — Temos, sim. É sobre Helena. O nome dela no tom frio daquele homem fez algo dentro de Gabriel se retesar. — Helena não é propriedade sua — respondeu firme. Os olhos de Adrian escureceram, não em cor, mas em intenção. — Você realmente acha que entende o que ela é? O que ela representa? — Ele se aproximou um passo. — Você não faz ideia do que está se colocando no meio. Gabriel manteve-se imóvel, sustentando o olhar. — Não estou no meio de nada. Estou ao lado dela. Por um segundo, a fachada elegante de Adrian falhou. Algo mais profundo surgiu ali — não era apenas rivalidade política. Era ciúme. Era posse. Era algo m*l resolvido. — Eu a conheço há séculos — disse Adrian, a voz mais baixa, quase vibrando. — Você a conhece há meses. Não confunda paixão com eternidade. Gabriel sentiu o poder dentro de si reagir àquela provocação. Um calor diferente subiu por suas veias, não como fúria descontrolada, mas como alerta. — Não confunda tempo com amor — respondeu. O silêncio que se seguiu foi cortante. Então Adrian falou, sem elevar o tom: — Afaste-se dela. Ou eu o mato. Simples. Direto. Sem dramatização. Mas Gabriel não sentiu medo. Sentiu clareza. — Tente. Foi nesse instante que Adrian percebeu. Algo estava diferente. Não havia cheiro de vampiro. Não havia batimento irregular de presa. Havia… força. Uma energia que não se encaixava nas regras que ele conhecia. Ele estreitou os olhos. — Você não sabe o que está se tornando, doutor. E quando descobrir… pode ser tarde demais. Adrian virou-se e entrou no carro, partindo sem pressa. Gabriel ficou parado alguns segundos, absorvendo cada palavra. Não contou imediatamente a Helena. Não queria que ela se sentisse culpada. Não queria aumentar a guerra silenciosa que se desenhava. Mas naquele mesmo dia, outro acontecimento mudaria o rumo das coisas. No hospital onde trabalhava, Gabriel retornou após dias de afastamento. O ambiente era familiar: corredores cheios, cheiro de desinfetante, vozes apressadas, vida e morte coexistindo no mesmo espaço. Aquilo o ancorava. Ali, ele era apenas médico. Apenas humano. Ou pelo menos ainda tentava ser. Foi durante um atendimento que ouviu seu nome ser chamado por uma voz feminina firme. — Doutor Gabriel Monteiro? Ele se virou. A mulher diante dele tinha olhos verdes atentos demais para serem casuais. Cabelos ondulados caíam sobre os ombros, postura segura, bloco de anotações na mão, uma jornalista. — Lívia Arantes. Jornalista investigativa. O nome não lhe era estranho. Ele já tinha visto reportagens assinadas por ela sobre corrupção hospitalar e irregularidades políticas. — Em que posso ajudar? — perguntou, cauteloso. Ela o estudava. — Estou investigando algumas mortes recentes na cidade. Pessoas aparentemente saudáveis que apresentaram… anomalias incomuns. E seu nome surgiu em alguns prontuários. Gabriel sentiu o estômago se contrair. — Eu atendo dezenas de pacientes por semana. — Sim — respondeu ela calmamente. — Mas alguns desses casos têm padrões estranhos. E curiosamente todos ocorreram em áreas próximas à elite de Noctávia. Ele percebeu onde aquilo poderia chegar. — Está insinuando algo? Lívia inclinou levemente a cabeça. — Estou fazendo perguntas. O olhar dela não era acusador. Era curioso. Investigativo. Perigoso. Naquele momento, Gabriel compreendeu que precisava retomar sua rotina com mais força do que nunca. Precisava parecer normal. Viver normal. Ser normal , afim de afastar curiosos como aquela jornalista. Helena teve percepção semelhante no mesmo dia. Na galeria de arte, caminhava entre quadros como se cada pincelada fosse um escudo. Cumprimentava clientes, discutia investimentos culturais, sorria com elegância. Era a empresária perfeita. Intocável. Mas sentia. Sentia a movimentação de Adrian. Sentia a inquietação de Gabriel. Sentia que algo estava se aproximando. Quando se encontraram naquela noite, o cansaço nos olhos dele não passou despercebido. — Tudo bem? O que aconteceu? — ela perguntou suavemente. Gabriel hesitou apenas um segundo antes de decidir não mentir. — Hoje, Adrian me procurou. Os olhos dela endureceram imediatamente. — O que foi que ele fez? — Me ameaçou. O silêncio que se seguiu foi denso. Helena fechou os olhos por um instante, como se organizasse séculos de frustração. — Eu vou falar com ele._ decide — Não — Gabriel segurou sua mão. — Isso é exatamente o que ele quer. Ele quer provocar. Ela o encarou. — Ele nutre sentimentos por mim. Sempre nutriu. Mas nunca foi amor. Foi controle. Gabriel absorveu aquilo com uma mistura de compreensão e incômodo. Não por ciúme. Mas por saber que estava entrando numa disputa antiga. — Não vou me afastar de você — disse ele. — Eu sei. Ela se aproximou, tocando o rosto dele com delicadeza. — E é isso que me assusta e ao mesmo tempo me deixa tranquila é uma mescla de sentimentos. Não pelo que Adrian poderia fazer. Mas pelo que Gabriel poderia se tornar. Naquela noite, decidiram algo silenciosamente: voltariam às suas rotinas. Ele no hospital. Ela na galeria. Sairiam juntos em público. Fingiriam normalidade.Seriam um casal normal Mas nada era normal. Nos dias seguintes, Gabriel sentiu sua força aumentar. Sua percepção expandir. Ele ouvia batimentos cardíacos a distâncias maiores. Sentia emoções alheias como ondas sutis. Controlava — com esforço — o impulso de liberar a energia que pulsava sob sua pele. E então veio o episódio que quase quebrou tudo. Durante uma emergência no hospital, um paciente entrou em parada cardíaca. A equipe tentou reanimar. Falharam. A morte se aproximava. Gabriel sentiu algo dentro de si reagir instintivamente. Um impulso primitivo. Não de sugar vida. Mas de devolver. Ele segurou o paciente, e por um segundo — apenas um — deixou o poder fluir. O monitor voltou a marcar batimentos. A equipe ficou atônita. — Foi… coincidência? — murmurou uma enfermeira. Gabriel recuou, assustado com o que havia feito. Do lado de fora da sala, alguém observava. Lívia Arantes. Ela não viu energia. Não viu brilho. Mas viu o impossível acontecer. E isso foi suficiente. Quando saiu do hospital naquela noite, Gabriel teve certeza de duas coisas: Adrian não era a única ameaça. E sua vida normal estava começando a escapar de suas mãos. Enquanto isso, num salão escuro iluminado apenas por luz indireta, Adrian segurava um copo de vinho intacto e murmurava para si mesmo: — Se ele acha que pode tirá-la de mim… ainda não entendeu o que é eternidade. Mas talvez o erro de Adrian fosse justamente esse. Gabriel não estava tentando competir com a eternidade, é sobre sentimento Ele estava criando algo novo. E o mundo — humano ou vampírico — ainda não estava preparado para isso. Para Gabriel Monteiro.
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