Capitulo 24_As descobertas

1256 Palavras
A chuva fina caía sobre Noctávia como um véu discreto quando Lívia Arantes revisava mais uma vez as imagens captadas no hospital público. Ela não tinha provas concretas. Não ainda. Mas tinha algo melhor: padrão. E padrões não mentem. Sentada em seu pequeno apartamento repleto de arquivos, recortes e anotações, ela pausou o vídeo exatamente no momento em que Gabriel segurava o paciente em parada cardíaca. O monitor, que segundos antes mostrava uma linha reta, voltou a pulsar. Os médicos atribuíram a um reflexo tardio. A equipe se convenceu. O relatório foi fechado. Mas ela viu a expressão dele. Não era surpresa. Era… contenção. Lívia aproximou a imagem. Não havia brilho, não havia efeitos impossíveis. Apenas um homem concentrado demais. Como se estivesse segurando algo maior do que o próprio corpo podia suportar. E aquilo a fez lembrar de outros casos. Mortes estranhas, relatórios alterados, pacientes que sobreviveram a condições estatisticamente irreversíveis. Em pelo menos quatro deles, Gabriel Monteiro estava presente. Coincidência, talvez. Mas então havia a outra camada. A elite de Noctávia. Investidores silenciosos. Galerias sofisticadas. Empresários intocáveis. E no centro dessa rede… Helena Vasconcelos. Lívia folheou uma pasta com o nome dela. Empresária cultural. Fortuna antiga. Presença constante em eventos fechados. Pouca exposição pessoal. Nenhum escândalo. Perfeita demais. Ela respirou fundo. — O que você está escondendo, doutor? No hospital, Gabriel sentia o peso invisível da vigilância sem saber exatamente de onde vinha. O retorno à rotina tinha sido uma tentativa desesperada de manter o chão sob os pés. Ele atendia pacientes, preenchia relatórios, conversava com colegas. Mas agora tudo parecia diferente. Os sons eram mais claros. Os cheiros mais intensos. Os batimentos cardíacos ao redor soavam como uma sinfonia involuntária. E o controle exigia esforço. Naquela tarde, enquanto lavava as mãos após um atendimento, sentiu uma presença atrás de si. — Doutor Monteiro. Ele ergueu os olhos pelo reflexo do espelho. Lívia. Ela não sorria. Não acusava. Apenas observava. — Senhorita Arantes. — Posso roubar alguns minutos do seu intervalo? Gabriel desligou a torneira com calma calculada. — Se for rápido. Sentaram-se na pequena cafeteria do hospital. O ambiente era comum demais para a tensão que se instalava. Lívia abriu o caderno. — O senhor acredita em coincidências? Ele sustentou o olhar dela. — Depende do contexto. — Eu estive analisando alguns casos recentes. Pacientes com quadros irreversíveis que, curiosamente, sobreviveram sob seus cuidados. — Sou médico. É isso que faço. Ela inclinou levemente a cabeça. — Alguns relatórios mostram tempos de resposta biologicamente improváveis. Gabriel sentiu o poder dentro de si reagir, como se pressentisse ameaça. — Está insinuando fraude médica? — Estou insinuando que há algo acontecendo nesta cidade que ninguém quer explicar. Silêncio. Ela o observava não como jornalista sensacionalista, mas como investigadora metódica. — E há outra coisa — continuou. — Muitos desses casos ocorreram em áreas próximas a eventos patrocinados pela galeria Vasconcelos. Ali estava. Helena. Gabriel manteve a expressão neutra. — Está conectando arte com emergências médicas? — Estou conectando pessoas influentes com padrões estatísticos improváveis. Ela fechou o caderno devagar. — Doutor, eu não estou aqui para destruí-lo. Estou aqui porque algo não está certo. E você está no meio disso. Gabriel levantou-se. — Então investigue melhor antes de tirar conclusões. Ele saiu antes que a conversa avançasse. Mas sabia. Ela estava chegando perto demais. Na galeria, Helena também sentia o deslocamento do equilíbrio. Adrian não a procurara novamente, mas o silêncio dele era estratégico. Ele estava observando. Esperando erro. Quando Gabriel chegou naquela noite, ela percebeu imediatamente a tensão em seus ombros. — Ela falou com você de novo? — Helena perguntou suavemente. Ele assentiu. — Está ligando os casos. Aos poucos. Helena ficou em silêncio por alguns segundos. — Humanos curiosos sempre foram mais perigosos do que vampiros impulsivos. Gabriel aproximou-se, segurando o rosto dela com cuidado. — Eu não vou deixar que te envolvam nisso. Ela fechou os olhos ao toque dele, permitindo-se aquele instante de humanidade. — Já estamos envolvidos, Gabriel. Ele encostou a testa na dela. Mesmo com o caos se formando ao redor, ainda havia ternura. Ainda havia escolha. Mas a escolha estava ficando estreita. Lívia não parou. Nos dias seguintes, passou a frequentar discretamente eventos da galeria Vasconcelos. Observava interações. Padrões. Ausências de reflexo nas fotografias tiradas sob certos ângulos — algo que ela inicialmente atribuiu à iluminação. Até que viu algo que não conseguiu ignorar. Durante um coquetel, uma taça caiu perto de Helena. Um dos funcionários tentou segurá-la, mas foi lento demais. Helena não foi. Ela se moveu rápido demais. Rápido a ponto de parecer um borrão. Ninguém comentou. Ninguém pareceu perceber. Mas Lívia viu. E dessa vez não havia relatório para arquivar. Naquela noite, ela voltou para casa com as mãos levemente trêmulas. — Isso não é normal… Ela cruzou os nomes. Gabriel. Helena. Mortes incomuns. Sobrevivências impossíveis. E então a pergunta mudou. Não era mais “o que está acontecendo?” Era “o que eles são?” Enquanto isso, Gabriel começou a perceber que o controle estava mais frágil. Durante um plantão, ao ouvir o choro de uma criança em estado crítico, algo dentro dele reagiu com intensidade quase dolorosa. Ele sentiu a energia fluir involuntariamente. Conseguiu conter. Mas a sensação ficou. Ele não era mais apenas médico. Estava se tornando algo que desafiava o próprio conceito de vida e morte. E alguém estava observando. No estacionamento do hospital, ao final do turno, ele sentiu novamente a presença. Não era Adrian. Era diferente. Ele virou-se. Lívia estava ali, parada sob a luz fraca do poste. — Eu vi — ela disse. O coração dele não acelerou. Mas o mundo pareceu encolher. — Viu o quê? — Você não é normal. A chuva começou a cair leve outra vez. — Cuidado com o que diz, senhorita Arantes. Ela deu um passo à frente. — Eu vi Helena se mover mais rápido do que qualquer pessoa deveria conseguir. Eu vi pacientes sobreviverem ao impossível. Eu vi você agir como se estivesse segurando algo invisível. Ela respirou fundo. — Eu não sei o que vocês são. Mas sei que não são apenas humanos. Silêncio absoluto. Gabriel poderia mentir. Poderia intimidar. Poderia usar a força que começava a dominar. Mas escolheu algo diferente. — E se eu dissesse que nem eu sei exatamente o que sou? Os olhos verdes dela hesitaram pela primeira vez. Aquilo não era confissão. Era humanidade. — Então estamos diante de algo maior do que uma matéria de jornal — ela murmurou. — Está diante de algo que pode destruir você se continuar cavando. Não foi ameaça. Foi aviso. Lívia sustentou o olhar dele por longos segundos. — Eu não publico histórias sem entender todos os lados. E ali nasceu algo inesperado. Não inimizade. Mas tensão suspensa. Ela não era inimiga. Ainda não. Mas também não era aliada. Quando Gabriel voltou para Helena naquela noite, contou tudo. Ela ouviu em silêncio. Depois tocou o rosto dele com suavidade. — A verdade sempre encontra caminho. — E quando encontrar? Ela o abraçou, forte. — Então veremos quem sobreviverá a ela. Longe dali, Adrian observava a cidade da varanda alta de seu prédio luxuoso. Ele também sabia. A jornalista estava se aproximando. E se humanos começassem a enxergar demais… O Conselho interviria. E quando o Conselho interviesse, não haveria espaço para sentimentalismo. A guerra silenciosa deixava de ser apenas entre vampiros e um homem diferente. Estava prestes a se tornar algo muito maior. E Noctávia ainda não fazia ideia do que crescia sob suas luzes artificiais.
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